Fim do cessar-fogo com Irão pressiona BCE a duplicar subidas de juros

O fantasma da inflação elevada reapareceu com força
Após o colapso do cessar-fogo entre EUA e Irão, os preços da energia voltaram a subir, reacendendo temores inflacionistas que o BCE tinha começado a deixar para trás.

Quando a frágil paz entre Washington e Teerão se desfez em julho, os mercados europeus sentiram o tremor imediato: o petróleo voltou a subir, a inflação reacendeu-se como brasa que parecia apagada, e o Banco Central Europeu viu-se forçado a reconsiderar um caminho que julgava já traçado. O que era uma única subida de juros prevista para setembro tornou-se, de repente, a possibilidade real de duas — uma em setembro, outra em dezembro — enquanto a Europa observa, mais uma vez, como a geopolítica do Golfo dita o ritmo da sua economia.

  • O colapso do cessar-fogo EUA-Irão em 8 de julho reabriu feridas que os mercados tinham começado a cicatrizar, com o Brent a disparar quase 10% numa única sessão e a aproximar-se dos 84 dólares.
  • A decisão de Trump de cobrar uma 'portagem' de 20% pela passagem no Estreito de Ormuz adicionou uma camada de imprevisibilidade sem precedentes, transformando uma rota vital do comércio global num instrumento de pressão geopolítica.
  • O BCE, que semanas antes ensaiava uma postura de alívio monetário, vê agora os mercados a precificar 67,5% de probabilidade de subida para 2,5% em setembro — já não por escolha, mas por necessidade.
  • O cenário mais perturbador é o de dezembro: uma segunda subida para 2,75%, com probabilidade que saltou de quase zero para mais de 30%, ressuscitando um espectro que os economistas tinham declarado improvável.
  • A questão que divide os especialistas permanece sem resposta: será que a economia da zona euro — já fragilizada — realmente precisa de dois apertos consecutivos, ou o BCE está a reagir a uma crise que não controla com ferramentas que não resolvem?

A trégua entre Washington e Teerão durou pouco mais de dois meses. Quando foi anunciada em meados de maio, os mercados respiraram. A energia baixou, a inflação arrefeceu, e o BCE começou a sugerir que talvez uma única subida de juros em setembro fosse suficiente — ou talvez nem isso. Em junho, a taxa de depósito subiu de 2% para 2,25%, mas o tom era de alívio. O pior parecia ter passado.

Depois veio o 8 de julho. Trump anunciou o fim do cessar-fogo. O Irão declarou o Estreito de Ormuz fechado. Seguiram-se bombardeamentos mútuos contra aliados americanos no Golfo — Bahrein, Omã, Kuwait. E então, num movimento que surpreendeu até os analistas mais experientes, Trump anunciou uma portagem de 20% para navios que passassem pelo Estreito, em troca de 'segurança' americana. O barril de Brent, que tinha caído para perto dos 70 dólares com a perspectiva de paz, disparou quase 10% numa sessão, aproximando-se dos 84 dólares. Gás, fertilizantes, matérias-primas — tudo voltou a subir.

O BCE viu-se forçado a reconsiderar. Os mercados passaram a precificar 67,5% de probabilidade de subida para 2,5% em setembro. Mais inquietante ainda: a probabilidade de uma segunda subida em dezembro, para 2,75%, saltou de quase zero para mais de 30% — um cenário que tinha sido descartado como improvável e que agora voltou a ser plausível.

Carsten Brzeski, da ING, recorda que em junho as projeções apontavam para inflação global abaixo de 2% em 2027, o que deveria travar um segundo aumento. Mas as declarações recentes de Lagarde e de outros decisores do BCE sugerem que o aperto vai continuar enquanto as previsões de inflação subjacente não forem revistas em baixa de forma significativa. A pergunta que os economistas deixam no ar é simples e incómoda: será que a zona euro realmente precisa de dois aumentos consecutivos — ou está apenas a pagar o preço de uma guerra que não é sua?

A trégua entre Washington e Teerão durou pouco mais de dois meses. Quando o cessar-fogo foi anunciado em meados de maio, os mercados respiraram fundo. Os preços da energia começaram a cair. A inflação, que tinha disparado com a escalada militar, mostrava sinais de arrefecimento. O Banco Central Europeu, sob a liderança de Christine Lagarde, começou a sugerir que talvez não fosse necessário apertar mais os juros. Talvez uma última subida em setembro. Talvez nem isso.

Em meados de junho, a taxa de depósito da Zona Euro subiu de 2% para 2,25%, mas o tom era de alívio. Os economistas falavam de desaceleração. Os mercados precificavam uma probabilidade residual de novos aumentos antes do final do ano. O pior tinha passado.

Depois veio o 8 de julho. Donald Trump anunciou que o cessar-fogo tinha acabado. Forças iranianas tinham lançado novos ataques. Os americanos responderam. No domingo seguinte, o Irão declarou o Estreito de Ormuz novamente fechado. Trump replicou que estava aberto. Na segunda-feira, depois de bombardeamentos mútuos contra várias nações do Golfo Pérsico aliadas dos EUA — Bahrein, Omã, Kuwait — Trump surpreendeu os mercados com um anúncio ainda mais perturbador: cobrar uma portagem de 20% pela passagem de navios no Estreito de Ormuz, em troca de "segurança" americana na região.

O preço do petróleo, que tinha caído dramaticamente para perto dos 70 dólares com a perspectiva de paz, começou a subir novamente. No final de fevereiro, quando a nova guerra começou, tinha atingido 120 dólares. Agora, com a ideia da portagem revelada, o barril de Brent disparou quase 10% numa única sessão, aproximando-se dos 84 dólares. O gás, os fertilizantes, outras matérias-primas vitais — tudo voltou a subir. A incerteza voltou aos mercados.

E com ela, o fantasma da inflação elevada. O Banco Central Europeu, que semanas antes parecia disposto a abrandar o aperto monetário, viu-se forçado a reconsiderar. De acordo com as probabilidades que os mercados agora precificam, há uma chance de 67,5% de o BCE aumentar a taxa de depósito para 2,5% na reunião de 10 de setembro. Antes da escalada do conflito, essa era uma decisão praticamente certa, mas o tom era de resignação. Agora é de necessidade.

Mais perturbador ainda é o que pode acontecer depois. Na reunião de 17 de dezembro, a probabilidade de uma segunda subida — levando a taxa para 2,75% — subiu de praticamente zero para mais de 30%. Economistas do BPI notam que essa probabilidade tinha caído para quase nada após o acordo de junho. Agora voltou. O cenário que o mercado tinha descartado como improvável tornou-se novamente plausível.

Carsten Brzeski, economista-chefe da ING para os mercados globais, observa que em junho as perspectivas apontavam para uma inflação global abaixo de 2% em 2027 — um cenário que deveria impedir o BCE de avançar com uma segunda subida. Mas as declarações recentes de Lagarde e de outros decisores sugerem que isso não vai acontecer. Enquanto as previsões para a inflação subjacente não forem revistas significativamente em baixa, há poucos obstáculos a um novo aumento. A questão que fica em aberto é se um segundo aumento é realmente aquilo de que a economia da zona euro necessita.

Tudo indica que o BCE continua inclinado a voltar a aumentar as taxas de juro. Enquanto as previsões para a inflação subjacente não forem revistas significativamente em baixa, parece haver poucos obstáculos a uma nova subida.
— Carsten Brzeski, economista-chefe da ING
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Porque é que o fim do cessar-fogo muda tanto a estratégia do BCE?

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Porque a guerra no Golfo Pérsico afeta diretamente o preço da energia. Quando há paz, o petróleo cai. Quando há conflito, sobe. E energia cara significa inflação mais alta. O BCE tem de subir juros para controlar essa inflação.

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Mas em junho parecia que a inflação estava controlada.

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Estava. O cessar-fogo em maio fez os preços caírem dramaticamente. O petróleo desceu de 120 para 70 dólares. Os economistas começaram a prever inflação abaixo de 2% em 2027. Tudo apontava para o BCE poder parar de apertar.

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E agora?

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Agora o barril está nos 84 dólares e a subir. Trump anunciou uma portagem no Estreito de Ormuz. Os mercados voltaram a precificar inflação mais alta. O BCE tem de voltar ao aperto.

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Essa portagem muda realmente tudo?

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Muda porque o Estreito de Ormuz é por onde passa um terço do petróleo mundial. Se Trump conseguir cobrar 20% pela passagem, os custos de transporte disparam. Isso afeta tudo — gasolina, plásticos, fertilizantes, comida.

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Os economistas acham que o BCE está certo em subir juros novamente?

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Não, exatamente. Brzeski da ING questiona se uma segunda subida é realmente necessária. Mas Lagarde parece determinada. Enquanto a inflação subjacente não cair significativamente, o BCE vai continuar a apertar.

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Qual é o risco?

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Subir juros quando a economia está frágil pode desacelerar o crescimento desnecessariamente. Mas não subir quando a inflação reaparece pode deixá-la descontrolada. O BCE está preso entre dois riscos.

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