A sequência dos fatos é politicamente sensível
Operação de R$ 38 milhões envolveu filho de Ibaneis e aliado político, com fundo da Reag comprando direitos creditórios em junho de 2024. Um mês depois, BRB iniciou negociações com Banco Master, que tinha créditos podres e inexistentes segundo investigações da Polícia Federal.
- Fundo da Reag comprou R$ 38 milhões em direitos creditórios em junho de 2024
- Um mês depois, BRB iniciou negociações com Banco Master
- Banco Master colapsou com prejuízos de R$ 8 bilhões ao BRB
- Operação envolveu filho de Ibaneis Rocha e aliado político Engels Augusto Muniz
- Oposição acionou STF pedindo afastamento de Ibaneis e protocolou impeachment
Fundo ligado à Reag comprou crédito de R$ 38 milhões do escritório do filho do governador do DF pouco antes do BRB negociar com Banco Master, que posteriormente colapsou com prejuízos de R$ 8 bilhões.
Em junho de 2024, um fundo ligado à Reag Investimentos comprou direitos creditórios avaliados em R$ 38 milhões do escritório de advocacia do filho do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha. A operação envolveu Caio Carvalho Barros, filho do chefe do Executivo local, e Engels Augusto Muniz, advogado próximo ao núcleo político de Ibaneis. Os documentos foram assinados entre 29 de maio e 5 de junho, com o pagamento de R$ 10,3 milhões realizado em 12 de junho. Um mês depois, o Banco de Brasília iniciaria negociações com o Banco Master, instituição que posteriormente se tornaria alvo de investigações federais e seria liquidada.
O crédito negociado tinha origem em uma ação judicial movida em favor do Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União. A União havia sido condenada a pagar benefícios a servidores ativos e aposentados, totalizando R$ 381,3 milhões. Os escritórios venderam seus direitos sobre esse valor por R$ 38,1 milhões, equivalente a apenas 10% da condenação. Essa prática de antecipar recebimento com deságio é comum no mercado jurídico, segundo os envolvidos. O diretor do fundo comprador, Marcos Ferreira Costa, também era responsável pelo Fundo Borneo, que se tornaria acionista do BRB e apoiaria a eleição de conselheiros indicados por Ibaneis.
A sequência temporal dos eventos é politicamente delicada. Após a venda do crédito à Reag em junho, o BRB começou a fazer negócios com o Banco Master. Daniel Vorcaro, dono do Master, e a própria Reag se tornaram acionistas do banco estatal. Em seguida, o BRB passou a comprar carteiras de crédito do Master. Em março de 2025, o governador deu apoio público a uma oferta do BRB para comprar parte do banco de Vorcaro. Mas as investigações da Polícia Federal revelaram que os créditos vendidos pelo Master ao BRB eram podres e até inexistentes, deixando prejuízos calculados em pelo menos R$ 8 bilhões ao banco brasiliense. O Banco Central rejeitou a compra em setembro, e em novembro o Master foi liquidado, Vorcaro foi preso e o BRB passou a ser investigado por suspeitas de fraude.
Os envolvidos sustentam a legalidade da operação. O escritório Ibaneis Advocacia afirmou que se tratava de negócio jurídico regular, lícito e reiteradamente praticado no mercado. Engels Augusto Muniz negou qualquer relação entre o contrato e o escândalo do Banco Master, afirmando que as negociações começaram em 2021, muito antes da aproximação entre BRB e Master. Segundo ele, o escritório de Ibaneis iniciou a venda dos créditos e procurou vários fundos antes de aceitar a proposta da Reag. Muniz também afirmou que o escritório do governador ficou com a maior parte do valor, embora não tenha detalhado o montante, criando uma discrepância com a nota divulgada pela própria sociedade.
A revelação provocou reação imediata da oposição no Distrito Federal. O deputado distrital Fábio Felix, do PSOL, solicitou que Ibaneis seja investigado para apurar se há outros contratos entre o governador e a Reag e se os valores pagos são compatíveis com os praticados no mercado. O PSB pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, o afastamento de Ibaneis. PSOL e Rede protocolaram um pedido de impeachment do governador na Câmara Legislativa do Distrito Federal. A ofensiva tenta conectar o contrato com a Reag ao ambiente mais amplo de relações entre agentes políticos do governo do DF, o BRB e o Banco Master.
O contexto amplifica a pressão sobre Ibaneis. Engels Augusto Muniz é sócio do escritório de advocacia do secretário da Casa Civil do governador, Gustavo Vale Rocha, e foi secretário-executivo de Ibaneis no Ministério dos Direitos Humanos durante o governo Michel Temer. Ibaneis é fundador do escritório envolvido na cessão do crédito, embora afirme estar desligado desde o fim de 2018, quando foi eleito governador. Seu filho, Caio Carvalho Barros, tornou-se advogado em 2022 e passou a integrar a sociedade. Além disso, a Reag é investigada nas operações Compliance Zero e Carbono Oculto, que apuram esquemas de lavagem de dinheiro e ligações com o crime organizado. Esse contexto elevou o custo político do contrato e intensificou as cobranças por explicações públicas.
O caso se tornou mais um capítulo da crise que atingiu o banco estatal brasiliense, expondo a promiscuidade entre poder político, mercado financeiro e estruturas de influência no Distrito Federal. Embora os envolvidos sustentem a regularidade da operação, a proximidade temporal entre a venda do crédito à Reag e o início das negociações entre BRB e Master, seguida pelo colapso do banco com prejuízos bilionários, alimenta as suspeitas de que a transação fazia parte de uma articulação maior.
Citações Notáveis
Trata-se, pois, de negócio jurídico regular, lícito e reiteradamente praticado no mercado por escritórios de advocacia, credores da Fazenda Pública e instituições financeiras— Escritório Ibaneis Advocacia
Começamos a negociar a venda em 2021. Não existia nem BRB, nem Master, nem venda de BRB para Master nem compra desses ativos do Master— Engels Augusto Muniz
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que essa operação de R$ 38 milhões ganhou tanta repercussão se era apenas uma venda de direitos creditórios, algo comum no mercado?
Porque não é apenas sobre a transação em si. É sobre quem estava envolvido, quando aconteceu e o que veio depois. O filho do governador, um aliado político próximo, vendendo créditos para um fundo ligado à Reag um mês antes do banco estatal começar a fazer negócios com o Banco Master — que depois colapsou com R$ 8 bilhões em prejuízos. A sequência parece sugerir uma articulação.
Os envolvidos dizem que a operação era regular e que as negociações começaram em 2021. Isso não desmente as acusações?
Tecnicamente, talvez. Mas há contradições. Engels Muniz diz que o escritório de Ibaneis ficou com a maior parte do valor, mas a nota da própria sociedade informa uma divisão específica diferente. Quando as histórias não batem, as pessoas desconfiam.
Qual é o verdadeiro problema aqui — a operação em si ou as relações de poder que ela expõe?
Os dois. A operação pode ser legal, mas ela conecta o governador, seu filho, seus aliados e a Reag em um momento crítico. E a Reag não é uma empresa qualquer — está sendo investigada por lavagem de dinheiro e ligações com crime organizado. Quando você coloca tudo junto, parece menos sobre direitos creditórios e mais sobre quem tem acesso a quem.
O que muda agora que a oposição pediu investigação e impeachment?
O foco se amplia. Não é mais apenas sobre este contrato. A Polícia Federal pode investigar se há outros contratos entre Ibaneis e a Reag, se os valores são compatíveis com o mercado, se havia quid pro quo. O impeachment é um aviso de que a crise do Banco Master não vai desaparecer.
Ibaneis diz que saiu do escritório em 2018. Isso o protege?
Formalmente, talvez. Mas seu filho entrou na sociedade em 2022 e representava a companhia. Seu aliado Engels é sócio do secretário da Casa Civil. Essas conexões familiares e políticas não desaparecem com uma saída formal de uma sociedade. Elas ficam visíveis.