Festival Viva África transforma Lagoa Santa em espaço de reexistência negra

Transformar um território do ouro em espaço de reexistência negra
O festival reimagina Lagoa Santa como lugar onde culturas africanas e afro-brasileiras encontram liberdade para circular.

Em Lagoa Santa, entre os dias 10 e 12 de abril, o Festival Viva África reúne música, gastronomia, cinema e saberes ancestrais para celebrar a herança africana e afro-brasileira numa região que, no século 18, recebeu quase metade dos africanos escravizados no Brasil colonial. O evento, sediado na Casa Crioula e idealizado pelo guineense João Paulo Esteves, não é apenas uma festa cultural — é um ato de memória coletiva num país que ainda hesita em reconhecer plenamente sua maioria negra. Ao transformar Lagoa Santa em espaço de diálogo Sul-Sul, o festival afirma que celebrar é também resistir ao apagamento.

  • Num país que ainda apaga sua própria história negra, o Festival Viva África chega à sua quarta edição com urgência de quem sabe que memória não celebrada é memória perdida.
  • A programação provoca: artistas senegaleses da tradição griot, o Samba de Senzala quilombola, gastronomia que mapeia as rotas do tráfico negreiro — cada elemento é uma recusa à superficialidade cultural.
  • A oficina Makamba Brincante leva brincadeiras ancestrais africanas e afro-brasileiras para crianças, plantando nas gerações mais novas raízes que o currículo escolar frequentemente ignora.
  • O festival gera economia criativa para artistas negros e constrói intercâmbio direto entre África e diáspora brasileira, sem a mediação europeia que historicamente distorceu esse encontro.
  • Ao ocupar a Casa Crioula em Lagoa Santa — terra marcada pelo ouro e pelo bandeirismo — o evento transforma o próprio território num ato de reexistência negra.

Nos dias 10, 11 e 12 de abril, Lagoa Santa recebe a quarta edição do Festival Viva África, na Casa Crioula — um espaço idealizado pelo guineense João Paulo Esteves como ponte autêntica entre o continente africano e a diáspora brasileira. Durante três dias, música, cinema, gastronomia, literatura e oficinas compõem uma programação que se recusa à superficialidade e se afirma como um dos mais importantes encontros da diáspora africana na região metropolitana de Belo Horizonte.

Minas Gerais carrega uma presença africana que não pode ser apagada: no século 18, quase metade dos africanos escravizados no Brasil colonial passaram por este território. Povos bantos, nagôs, jejes e mandingas recriaram aqui suas formas de existir e resistir — em terreiros, quilombos, irmandades e expressões musicais que sobreviveram à escravidão. O Quilombo do Açude, no caminho da Serra do Cipó, mantém vivo até hoje o Samba de Senzala, com sua matriz banto-congolê de tambores, palmas e canto responsorial.

A programação do festival dá forma concreta a essa história. Mamour Ba e seus filhos, do Senegal, trazem a tradição griot mandinga e wolof, onde música é simultaneamente memória, genealogia e espiritualidade. Sérgio Pererê apresenta sua mistura de congado, ijexá, maracatu e poesia. A gastronomia africana — dendê, quiabo, acarajé, feijão-fradinho — funciona como mapa das rotas do tráfico negreiro. E a oficina Makamba Brincante resgata brincadeiras ancestrais para crianças, plantando raízes que o currículo escolar frequentemente ignora.

O Viva África cumpre um papel que vai além do entretenimento: combate o apagamento histórico, fortalece a autoestima da juventude negra e gera economia criativa para artistas negros, construindo um diálogo Sul-Sul sem intermediação europeia. "A ideia sempre foi criar um espaço onde essas culturas possam se encontrar, dialogar e circular com liberdade", afirma Esteves. O que acontece nesses três dias é, ao mesmo tempo, celebração e reclamação do direito à memória, à presença e à continuidade.

Nos dias 10, 11 e 12 de abril, Lagoa Santa se torna palco de encontro. A quarta edição do Festival Viva África chega à Casa Crioula trazendo consigo três dias de música, cinema, gastronomia, literatura e oficinas — um evento que se consolidou como um dos mais importantes espaços de celebração da diáspora africana na região metropolitana de Belo Horizonte.

Minas Gerais carrega uma história que não pode ser contada sem a presença africana. No século 18, quase metade de todos os africanos trazidos para o Brasil colonial passaram por este território — povos bantos, nagôs, jejes, mandingas, cada um deles recriando suas formas de estar e resistir. Terreiros, quilombos, irmandades e expressões musicais nasceram dessa recriação, sobrevivendo à escravidão e ao latifúndio. O Quilombo do Açude, localizado no caminho da Serra do Cipó, permanece como um dos mais antigos ainda ativos no estado, mantendo vivo o Samba de Senzala com sua matriz banto-congolê — tambores, palmas, roda e canto responsorial que ecoam uma tradição ancestral.

João Paulo Esteves, guineense que idealizou a Casa Crioula, construiu um espaço pensado como ponte autêntica entre o continente africano e a diáspora brasileira. O festival nasceu exatamente desse propósito: aproximar o público das experiências culturais vivas da África e de seus desdobramentos no Brasil, criando um intercâmbio real entre artistas, pesquisadores e comunidade. Essa intenção ganha forma concreta na programação dos três dias.

Mamour Ba e seus filhos, do Senegal, trazem a tradição griot mandinga e wolof, onde a música funciona simultaneamente como memória, genealogia, crítica social e espiritualidade. Sérgio Pererê, um dos maiores compositores mineiros da atualidade, apresenta sua mistura profunda de congado, ijexá, maracatu e poesia, carregando em cada nota o sotaque nagô-banto da terra mineira. O Samba de Senzala representa a resistência quilombola em sua forma viva e pulsante. Além dos palcos, o festival oferece gastronomia africana — dendê, quiabo, feijão-fradinho, acarajé — pratos que funcionam como verdadeiros mapas das rotas do tráfico negreiro. DJs de diferentes territórios, debates, lançamentos de livros e a oficina Makamba Brincante, que resgata brincadeiras ancestrais africanas e afro-brasileiras para crianças, completam uma programação que recusa a superficialidade.

Em um país que ainda hesita em assumir plenamente sua maioria negra, o Viva África cumpre um papel que vai além do entretenimento. Combate o apagamento histórico, fortalece a autoestima da juventude negra, gera economia criativa para artistas negros e constrói um diálogo Sul-Sul sem intermediação europeia. Ao ocupar a Casa Crioula em Lagoa Santa, o festival transforma um território marcado pela história do ouro e do bandeirismo em espaço de reexistência negra. "A ideia sempre foi criar um espaço onde essas culturas possam se encontrar, dialogar e circular com liberdade", afirma Esteves. O que acontece nesses três dias não é apenas celebração — é reclamação do direito à memória, à presença, à continuidade.

A ideia sempre foi criar um espaço onde essas culturas possam se encontrar, dialogar e circular com liberdade
— João Paulo Esteves, idealizador da Casa Crioula
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que Lagoa Santa especificamente? Não seria qualquer cidade mineira?

Model

Lagoa Santa carrega uma história específica. É território marcado pelo ouro, pelo bandeirismo — símbolos de uma Minas que a gente conhece. Transformar esse espaço em lugar de reexistência negra é um ato político deliberado. É dizer: essa terra também é nossa.

Inventor

Reexistência é uma palavra forte. O que significa exatamente?

Model

Não é apenas resistência — aquela ideia de sobreviver apesar de. É reexistência: criar, reconstruir, estar presente de novo. Os quilombos fizeram isso. O Samba de Senzala faz isso. O festival faz isso.

Inventor

A gastronomia parece importante demais para ser apenas comida.

Model

Exatamente. Dendê, quiabo, feijão-fradinho — cada ingrediente é um mapa. Rastreiam as rotas do tráfico, as pessoas que foram trazidas, o que elas carregavam consigo. Comer é um ato de memória.

Inventor

E as crianças na oficina Makamba Brincante — por que resgatar brincadeiras?

Model

Porque brincadeira é transmissão. É como a cultura sobrevive quando tudo tenta apagá-la. Uma criança negra brincando uma brincadeira ancestral africana está conectada a algo que não lhe foi roubado completamente.

Inventor

João Paulo Esteves fala em diálogo Sul-Sul. O que muda quando você tira a Europa do meio?

Model

Tudo. Quando artistas senegaleses encontram quilombolas mineiros sem precisar passar por um intermediário europeu, a conversa é diferente. É entre iguais. É sobre poder contar sua própria história.

Fale Conosco FAQ