Fechamento do Estreito de Ormuz amplia incerteza no agronegócio brasileiro

O fertilizante tem que chegar na frente. Esse é o grande problema.
Marcos Jank, professor de agronegócio global, sobre a urgência de importações antes do início da safra em setembro.

Brasil exporta US$ 12,4 bilhões em commodities agrícolas para Oriente Médio via Ormuz, com frango e milho como principais produtos. Restrições no estreito forçam rotas alternativas mais caras e arriscadas, aumentando tempo de entrega em 50% e adicionando 'taxa de guerra' aos custos.

  • Brasil exportou US$ 12,4 bilhões em commodities agrícolas para Oriente Médio em 2025
  • Tempo de entrega aumentou de 40 para mais de 60 dias — aumento de 50%
  • 40% das exportações mundiais de ureia passam pelo Estreito de Ormuz
  • Safra brasileira começa em setembro, mas fertilizantes precisam chegar antes

O fechamento intermitente do Estreito de Ormuz amplia incerteza no agronegócio brasileiro, afetando exportações de commodities e importações de fertilizantes essenciais para a próxima safra.

O Estreito de Ormuz abriu e fechou novamente no fim de semana, e dessa vez o impacto ricocheteou direto para as lavouras e granjas do Brasil. A região que passa pelo estreito é destino de boa parte da carne de frango e do milho brasileiro — produtos que alimentam o Oriente Médio e chegam até a China. Quando a passagem fecha, como aconteceu no sábado 18 de abril, o agronegócio brasileiro fica preso numa encruzilhada: continuar exportando ou aceitar que os custos vão disparar.

O Irã havia sinalizado que permitiria a passagem de navios durante uma trégua com os Estados Unidos, mas recuou. No domingo, o estreito permanecia fechado. Para as empresas brasileiras que operam na região, a incerteza é o pior inimigo. Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou o equivalente a 169,2 bilhões de dólares. Desse total, 12,4 bilhões foram em commodities agrícolas para o Oriente Médio — 7,4% de tudo que o país vende para fora. Não é um número pequeno, e quando a rota principal fecha, o efeito cascata é imediato.

Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, é direto sobre o problema: o prejuízo maior não é perder clientes, é o custo de manter os volumes. Os operadores de logística adicionaram uma "taxa de guerra" para desviar os navios cargueiros por rotas alternativas. Santin reconhece que as vendas continuam — a primeira parcial de abril indicava que as entregas prosseguiam — mas admite que é complicado manter os volumes quando cada rota alternativa custa mais caro e leva mais tempo.

As commodities agrícolas agora seguem pelo Mar Vermelho, pelo Canal de Suez e pelo Estreito de Bab el-Mandeb. É uma rota de alto risco, especialmente por causa dos ataques dos rebeldes houthis do Iêmen. Alguns navios cargueiros optam por um desvio ainda maior: contornam o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África. Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos são alguns dos principais compradores das commodities brasileiras. Marcos Jank, professor de agronegócio global do Insper, acredita que as empresas brasileiras acabarão encontrando um caminho para chegar até esses mercados — afinal, esses países dependem fortemente dos produtos brasileiros. O Irã, por exemplo, é um dos maiores compradores de milho do Brasil, e esse milho é fundamental para a produção de frango lá.

Mas o verdadeiro problema não está nas exportações. Está nas importações. O Brasil é o maior importador de fertilizantes do mundo, e o Estreito de Ormuz tem um papel crucial para o escoamento desses insumos. É por ali que passa 40% das exportações mundiais de ureia, 30% da amônia, 24% dos fosfatos e 50% do enxofre — todos itens fundamentais para a produção agrícola. O Brasil depende fortemente dessas importações, e a imprevisibilidade sobre o futuro do estreito adiciona uma insegurança real para a próxima safra. Se os insumos não chegarem a tempo, os preços dos alimentos no país podem subir no segundo semestre. Jank é claro: "A gente está numa situação muito complicada pelo lado dos fertilizantes. Esse é o principal problema hoje." A safra começa em setembro, mas o fertilizante precisa chegar antes.

A MBRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, já sente os impactos na pele. O tempo médio para entrega na região passou de 40 para mais de 60 dias — um aumento de pelo menos 50%. Leonardo Dallorto, vice-presidente de mercado internacional e cadeia de suprimentos da empresa, explica que há um aumento de frete por conta da "taxa de guerra", como os parceiros logísticos chamam. A logística terrestre também encareceu, assim como as armazenagens. Cada camada de custo se soma à anterior, e no fim, quem paga é a estrutura inteira do agronegócio brasileiro.

O que vem pela frente é uma corrida contra o tempo. Se o Estreito de Ormuz permanecer fechado ou continuar abrindo e fechando de forma imprevisível, o desabastecimento de fertilizantes pode impactar não apenas os custos de produção, mas também os preços dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. A incerteza geopolítica virou, de repente, uma questão de segurança alimentar.

O principal prejuízo é relativo aos custos e ao grande esforço para viabilizar as entregas através de rotas alternativas
— Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal
A gente está numa situação muito complicada pelo lado dos fertilizantes. Esse é o principal problema hoje.
— Marcos Jank, professor de agronegócio global do Insper
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que o Estreito de Ormuz importa tanto para o Brasil se a gente nem fica perto de lá?

Model

Porque 40% das exportações mundiais de ureia passam por ali. O Brasil precisa desses fertilizantes para plantar, e a maioria vem de países que só consegue escoar a produção por Ormuz.

Inventor

Mas o Brasil não exporta fertilizantes? Por que importa tanto?

Model

Exporta, mas não o suficiente. O país é o maior importador de fertilizantes do mundo. Sem eles, a safra não sai do chão.

Inventor

E as exportações de frango e milho? Elas não sofrem tanto?

Model

Sofrem, mas de forma diferente. As empresas conseguem desviar a rota, pagar mais caro e entregar. O problema é que leva 50% mais tempo e custa muito mais. Mas o fertilizante é crítico — se não chegar a tempo, a próxima safra inteira fica comprometida.

Inventor

Então o Irã fechou o estreito de propósito?

Model

O Irã anunciou que abriria durante uma trégua com os EUA, mas recuou. A razão exata não está clara, mas o efeito é que a incerteza virou a maior inimiga. As empresas não conseguem planejar.

Inventor

Qual é o pior cenário?

Model

Se o estreito ficar fechado até setembro, quando começa a safra, os fertilizantes não chegam a tempo. Aí os preços dos alimentos disparam no Brasil no segundo semestre.

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