Eles não podem e não devem retornar a uma área de risco
Luigi de Jesus Auricho morreu soterrado em deslizamento em dezembro; família agora mora de favor com parentes e tenta reconstruir vida. Vaquinha online arrecadou apenas 4,6% da meta de R$ 150 mil para comprar ou construir moradia fora de área de risco.
- Luigi de Jesus Auricho, 5 anos, morreu soterrado em deslizamento em dezembro de 2025 em Sabará (MG)
- Família vive de favor desde dezembro; vaquinha online arrecadou apenas 4,6% dos R$ 150 mil necessários
- Rua Zilda Caldeira de Oliveira, no Bairro Morro do São Francisco, foi marcada como área de risco pela Defesa Civil
Família de Luigi, menino de 5 anos morto em deslizamento em Sabará (MG), arrecada fundos para reconstruir casa em área segura. Vivem de favor desde dezembro e buscam R$ 150 mil.
Luigi de Jesus Auricho tinha cinco anos quando a terra cedeu embaixo da casa onde sua família dormia. Isso foi em dezembro, em Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte, num bairro chamado Morro do São Francisco. A chuva forte havia saturado o solo. O menino foi soterrado. Seus pais, seus dois irmãos — um de sete anos, outro de dez — estavam todos lá dentro. Ele foi reanimado por cinquenta minutos no caminho para o hospital, mas a morte cerebral foi confirmada dois dias depois, no dia 18 de dezembro. Luigi se tornou a primeira morte registrada no período chuvoso daquele ano em Minas Gerais.
Agora, quase dois meses depois, a família segue vivendo de favor na casa de uma prima do pai. Betânia, a mãe, e Leonardo, o pai, dormem num espaço que não é seu. Os dois filhos sobreviventes — Lavínia e Lorenzo — também. A rua onde moravam, a Rua Zilda Caldeira de Oliveira, foi marcada pela Defesa Civil como área de risco. Não era a primeira vez que o bairro dava sinais de perigo: na madrugada de 23 de janeiro, o muro de outra casa desabou. Desta vez ninguém morreu, mas o aviso estava claro.
A família decidiu que não voltaria para lá. Precisava de um novo lugar, seguro, longe da encosta. Precisava também de móveis, roupas, eletrodomésticos, colchões — tudo aquilo que desaparece quando uma casa cai. O alvo era R$ 150 mil. Victor Hugo Marciano Silva, marido de Kênia Mateus Fernandes (tia de Luigi), criou uma vaquinha online para arrecadar o dinheiro. Mas até a terça-feira de fevereiro, quando a reportagem foi feita, apenas 4,6% da meta havia sido alcançado.
Kênia descreveu a situação com clareza: a família está tendo dificuldade em conviver com o luto e, ao mesmo tempo, com a falta de moradia. Sabará, disse ela, é uma cidade carente de imóveis. Eles queriam ficar na cidade, mas não queriam ficar em risco. Victor, na descrição que fez da vaquinha, chamou a situação de urgente. "Eles não podem e não devem retornar a uma área de risco", escreveu. "Este não é apenas um apelo por recursos; é um convite para ser parte da rede de apoio que impedirá que essa tragédia se torne ainda mais profunda."
A família também buscava ajuda por outras vias. Um pastor da igreja que frequentavam estava tentando arrecadar recursos. Kênia pediu que a divulgação fosse ampliada. "Estamos precisando dar um 'up' na divulgação para ver se conseguimos atingir nossa meta, de retribuir uma parte da perda que eles tiveram e apartar o grande sofrimento que estão passando ainda", disse.
O caso de Luigi, porém, aponta para algo maior que a tragédia de uma família. Richard Moreira, professor do Departamento de Demografia da Universidade Federal de Minas Gerais, estuda vulnerabilidades populacionais em contextos de realocação. Ele observa que moradores de áreas de risco enfrentam o temor constante de que suas casas sejam destruídas, de que percam a vida. Esse perigo, porém, não é distribuído igualmente. Ele se concentra nas parcelas de menor renda da população.
Moreira explica que quem tem renda maior consegue se precaver. Consegue guardar dinheiro, investir em proteção contra chuvas, construir muros de contenção, escolher formas de construção que absorvam o fluxo de água. Quem é pobre não consegue fazer nada disso. Não por falta de vontade, mas por falta de recursos. E com as mudanças climáticas, a tendência é que tudo piore. "A tendência é que a situação piore como um todo. E para as pessoas que estão numa situação de vulnerabilidade maior, a perspectiva é que piore ainda mais", disse o demógrafo. A morte de Luigi não foi um acidente isolado. Foi o resultado visível de uma desigualdade que mata em silêncio, toda vez que chove.
Notable Quotes
Eles estão morando de favor na casa de uma prima do pai, e ainda com muita dificuldade de aceitar o acontecido. Sabará é uma cidade que está carente de imóveis.— Kênia Mateus Fernandes, tia de Luigi
Se tenho um nível de renda maior, consigo me precaver, ter uma reserva financeira para desenvolver formas de me proteger da chuva. A gente não vê isso acontecendo nas partes mais pobres da cidade, justamente por uma questão de desigualdade socioeconômica.— Richard Moreira, professor de Demografia da UFMG
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a vaquinha arrecadou tão pouco até agora? Apenas 4,6% em quase dois meses.
Porque a maioria das pessoas não sabe que essa história existe. Uma criança morre soterrada, a família perde tudo, e eles ficam invisíveis — morando de favor, sem casa, sem recursos. A vaquinha está lá, mas quem a vê? Precisa de divulgação, de pessoas compartilhando, de gente que tenha empatia e dinheiro ao mesmo tempo.
A família poderia ter recebido ajuda do governo ou da prefeitura?
Teoricamente sim. Mas Sabará é uma cidade carente de imóveis, segundo a tia. E a Defesa Civil já sabia que aquela rua era de risco — marcou como tal. O que faltou foi ação preventiva antes da tragédia, não depois.
O que o professor da UFMG quis dizer com "desigualdade geológica"?
Que o risco não é o mesmo para todos. A encosta perigosa é onde os pobres conseguem pagar aluguel. Os ricos moram em lugares seguros. Quando chove, a morte escolhe endereço.
E se a família conseguir os R$ 150 mil? Isso resolve o problema?
Resolve para eles. Mas não resolve para os outros que ainda moram em Morro do São Francisco, ou em outros bairros como aquele. Luigi foi o primeiro a morrer naquele período chuvoso em Minas Gerais. Não será o último se nada mudar.