A primeira mulher a doutorar-se em Matemática, a única a presidir à faculdade
Com o falecimento de Fernanda Aragão Aleixo, a Universidade de Coimbra perde uma das suas figuras mais transformadoras — a primeira mulher a doutorar-se em Matemática naquela instituição e a única a presidir à sua Faculdade de Ciências e Tecnologia. Nascida em Mogadouro, construiu ao longo de décadas uma carreira que não foi apenas académica, mas também um ato contínuo de abertura de caminhos onde poucos existiam. O seu legado não reside apenas nos títulos que acumulou, mas nas portas que deixou abertas para as gerações que a seguiram.
- A comunidade científica portuguesa perdeu uma das suas vozes mais pioneiras: Fernanda Aragão Aleixo faleceu deixando um vazio difícil de preencher na história da Matemática em Portugal.
- Primeira mulher a doutorar-se em Matemática na UC em 1971 e única a presidir à FCTUC, a sua trajetória desafiou sistematicamente as barreiras de género numa época em que isso exigia coragem institucional e pessoal.
- A Faculdade de Ciências e Tecnologia e o Departamento de Matemática emitiram nota de pesar, reconhecendo um legado que transcende a carreira individual e marca a própria identidade da instituição.
- O seu impacto estende-se à própria família: dois filhos tornaram-se docentes na UC, perpetuando uma ligação profunda entre a sua vida e a vida académica de Coimbra.
- As cerimónias fúnebres decorreram nos dias 3 e 4 de julho, na Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, em Celas, Coimbra, reunindo a comunidade em torno de uma despedida sentida.
A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra despediu-se de Fernanda Aragão Aleixo Neves de Oliveira, uma das figuras mais marcantes da história da instituição. Natural de Mogadouro, licenciou-se em Ciências Matemáticas pela UC no ano letivo de 1960/1961 e, em 1962, tornou-se uma das duas primeiras mulheres a integrar o corpo docente daquela faculdade.
O seu percurso foi pontuado por marcos históricos. Em dezembro de 1971, defendeu a tese «Sobre a Aplicação da Análise Intervalar à Resolução Numérica de Equações Diferenciais», tornando-se a primeira mulher a doutorar-se em Matemática na Universidade de Coimbra. Ascendeu a Professora Catedrática do Departamento de Matemática, dedicando décadas ao ensino rigoroso e à orientação de investigadores.
Entre 1983 e 1985, presidiu ao então Conselho Diretivo da FCTUC, sendo até hoje a única mulher a ocupar esse cargo. A sua influência estendeu-se ainda à família: foi mãe de Paulo Eduardo Oliveira, futuro diretor da FCTUC, e de Orlando Oliveira, professor do Departamento de Física.
A instituição que ela ajudou a moldar expressou «o mais profundo pesar» pelo seu falecimento, reconhecendo o legado inestimável que deixa à comunidade científica portuguesa. O velório realizou-se a 3 de julho, na Capela de Nossa Senhora de Lourdes, em Celas, e o funeral no dia seguinte, na mesma igreja.
A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra despede-se de Fernanda Aragão Aleixo Neves de Oliveira, uma das figuras mais decisivas na história da instituição e uma das primeiras mulheres a abrir caminho na matemática portuguesa. Nascida em Mogadouro, Fernanda completou a sua licenciatura em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra no ano letivo de 1960/1961. Um ano depois, em 1962, integrou o corpo docente da então Secção de Ciências Matemáticas como assistente — uma das apenas duas primeiras mulheres a ocupar um lugar de professora naquela faculdade.
O seu percurso foi marcado por marcos que desafiaram as barreiras de género da época. Em dezembro de 1971, tornou-se a primeira mulher a doutorar-se em Matemática na Universidade de Coimbra, defendendo uma tese intitulada "Sobre a Aplicação da Análise Intervalar à Resolução Numérica de Equações Diferenciais". Este feito não era apenas pessoal — representava uma abertura institucional e científica que poucos esperavam naquele momento. Ao longo das décadas seguintes, ascendeu a Professora Catedrática do Departamento de Matemática, consolidando uma carreira dedicada ao ensino rigoroso, à orientação de investigadores e ao desenvolvimento da investigação científica em Portugal.
Mas a sua influência estendeu-se muito além da sala de aula e do laboratório. Entre 1983 e 1985, Fernanda Aragão Aleixo presidiu à Direção da Faculdade de Ciências e Tecnologia — então designada Conselho Diretivo — tornando-se a única mulher a ocupar este cargo até à data. Naquela altura, quando as mulheres em posições de liderança académica eram raríssimas, ela conduziu a instituição com uma autoridade que deixou marcas duradouras. A sua família também se enraizou na vida académica de Coimbra: foi mãe de Paulo Eduardo Oliveira, que viria a ser diretor da FCTUC e docente do Departamento de Matemática, e de Orlando Oliveira, professor do Departamento de Física.
A Faculdade de Ciências e Tecnologia e o Departamento de Matemática divulgaram uma nota de pesar expressando "o mais profundo pesar" pelo seu falecimento, destacando o legado inestimável que deixa à Universidade de Coimbra e à comunidade científica portuguesa. Não era apenas uma professora que se ia — era uma testemunha viva de uma transformação institucional, uma mulher que provou que a excelência científica não conhece género, e uma mentora que abriu portas para as gerações que vieram depois.
O velório realizou-se na quinta-feira, 3 de julho, a partir das 16:00, na Capela da Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, em Celas, Coimbra. O funeral estava marcado para sexta-feira, 4 de julho, às 11:00, na mesma igreja. A instituição que ela ajudou a moldar despedia-se de uma das suas filhas mais notáveis, deixando em aberto a questão de quantas outras barreiras ela teria ainda quebrado se tivesse tido a oportunidade.
Citas Notables
O mais profundo pesar pelo falecimento da docente, destacando o legado que deixa à Universidade de Coimbra e à comunidade científica— Faculdade de Ciências e Tecnologia e Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
O que torna Fernanda Aragão Aleixo uma figura tão importante para a história de Coimbra?
Não era apenas ser a primeira mulher a doutorar-se em Matemática — era o que isso significava. Em 1971, uma mulher com um doutoramento em Matemática era quase impensável. Ela abriu uma porta que muitas outras precisavam de atravessar.
Mas havia outras mulheres na faculdade antes dela?
Sim, duas mulheres integraram o corpo docente em 1962, Fernanda entre elas. Mas doutorar-se, alcançar o topo da carreira académica — isso era diferente. Era raro, era visível, era um sinal de que as coisas podiam mudar.
E a presidência da faculdade? Como é que uma mulher chega a esse lugar em 1983?
Porque ela tinha provado, durante duas décadas, que era capaz. Não era um gesto simbólico — era reconhecimento. E mesmo assim, foi a única mulher a ocupar esse cargo até hoje. Isso diz tudo sobre quanto caminho ainda havia para percorrer.
Os seus filhos também foram académicos. Isso foi uma escolha deliberada?
Não sabemos. Mas é significativo que ambos seguissem caminhos científicos. Ela vivia a ciência, respirava-a. Provavelmente era impossível crescer naquela casa sem absorver essa paixão.
O que fica para trás?
Um legado que é simultaneamente pessoal e institucional. Ela não apenas ensinou Matemática — mostrou que as mulheres podiam liderar, investigar, inovar. Isso não desaparece quando alguém morre.