Transferir os estoques para os Estados Unidos porque as tarifas podem voltar
Em um momento em que as regras do comércio global se reescrevem a cada decreto, a indústria brasileira corre para embarcar seus produtos aos Estados Unidos antes que novas tarifas de 25% fechem a janela aberta pela Suprema Corte americana em fevereiro. O movimento revela não apenas a vulnerabilidade de um setor manufatureiro que perdeu mercados alternativos, mas também a fragilidade de uma diplomacia econômica que enfrenta, ao mesmo tempo, tensões tarifárias e crises de segurança pública. O relógio corre até julho, e o que está em jogo é mais do que uma fatia de mercado — é a trajetória de desindustrialização silenciosa de um país que vê seus manufaturados encolherem na pauta de exportações há quinze anos.
- A audiência pública de 6 de julho pode formalizar tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, e as empresas têm semanas para agir antes que a janela se feche.
- Químicos, máquinas, calçados e embarcações aceleraram embarques em ritmo atípico — um sinal claro de que o setor não confia na durabilidade do alívio tarifário atual.
- A designação de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas pelos EUA criou um novo obstáculo diplomático, esfriando as negociações iniciadas após o encontro Lula-Trump em maio.
- Diferentemente das tarifas derrubadas em fevereiro, as novas medidas se amparam na Seção 301 da legislação americana, com respaldo jurídico sólido e pouca chance de reversão judicial.
- A indústria brasileira não encontrou mercados alternativos: a participação dos manufaturados nas exportações do país caiu de 38,9% em 2010 para 26,4% no ano passado, enquanto a China absorve as commodities.
A indústria brasileira vive uma corrida contra o relógio. Fabricantes de máquinas, calçados, produtos químicos e embarcações aceleraram seus embarques para os Estados Unidos nos últimos meses, tentando aproveitar uma janela tarifária que pode se fechar em julho. A Suprema Corte americana derrubou em fevereiro as alíquotas de até 50% impostas por Trump e as substituiu por uma tarifa global de 10%, devolvendo competitividade temporária aos exportadores brasileiros. Novas encomendas chegaram, projetos foram retomados — mas a trégua durou pouco.
Investigações sobre práticas consideradas prejudiciais a multinacionais americanas abriram caminho para uma tarifa de 25% específica sobre produtos brasileiros, com audiência pública marcada para 6 de julho. Os números já revelam o comportamento de antecipação: as exportações de químicos saltaram 29% em março e recuaram abruptamente em abril; os embarques de máquinas superaram 320 milhões de dólares em abril, patamar não visto desde outubro de 2024. José Velloso, da Abimaq, admite ter orientado suas associadas a transferir estoques para os EUA antes que as tarifas voltem.
Empresas como a Triton Yachts, no Paraná, haviam planejado ampliar a fatia americana de sua produção após o alívio de fevereiro. Agora, tudo é incerteza. Na indústria calçadista, um sócio-diretor de Franca trabalha em coleções para 2027 temendo perder o fim de ano e o primeiro trimestre seguinte caso o tarifaço se confirme. As negociações entre Brasília e Washington, abertas após o encontro entre Lula e Trump em maio, perderam fôlego com a designação do PCC e do Comando Vermelho como grupos terroristas pelos EUA — um novo foco de atrito que complica qualquer solução negociada.
O que agrava o quadro é que as novas medidas se amparam na Seção 301 da legislação americana, com respaldo jurídico consolidado e pouca chance de reversão judicial — diferentemente das tarifas anteriores. E a indústria brasileira não encontrou rotas alternativas: a participação dos manufaturados nas exportações do país caiu de 38,9% em 2010 para 26,4% no ano passado. Para o aço e o alumínio, a situação é ainda mais crítica — as compras americanas de semiacabados siderúrgicos brasileiros já recuaram 48% entre janeiro e abril, em um mercado global com excesso de oferta que não deixa para onde correr.
A indústria brasileira está em uma corrida contra o relógio. Fabricantes de máquinas, calçados, produtos químicos e embarcações aceleraram seus embarques para os Estados Unidos nos últimos meses, antecipando a chegada de novas tarifas que ameaçam comprometer suas vendas ao maior mercado consumidor de seus produtos manufaturados. A janela de oportunidade é estreita e o tempo está se esgotando.
Em fevereiro, a Suprema Corte americana derrubou as alíquotas mais altas impostas pelo presidente Donald Trump em seu primeiro mandato — que chegavam a 50% para produtos brasileiros — e as substituiu por uma tarifa global de 10%. Por algumas semanas, os exportadores brasileiros respiraram aliviado. Máquinas, calçados e químicos voltaram a competir em pé de igualdade com concorrentes internacionais. Novas encomendas chegaram. Projetos foram retomados. Mas essa trégua durou pouco. Investigações sobre práticas consideradas prejudiciais a multinacionais americanas terminaram com a sugestão de aplicação de uma tarifa de 25% especificamente sobre os produtos brasileiros, e a audiência pública para formalizar essa decisão está marcada para 6 de julho.
Os números revelam o comportamento clássico de antecipação. As exportações de produtos químicos ao mercado americano atingiram 209,7 mil toneladas em março — um crescimento de 29% em relação ao mesmo mês do ano anterior — mas caíram abruptamente para 144 mil toneladas em abril, voltando à média mensal típica. Na indústria de máquinas, os embarques superaram os 320 milhões de dólares em abril, marca não alcançada desde outubro de 2024. Nas montadoras de motos, as exportações cresceram 35% em comparação anual. José Velloso, presidente executivo da Abimaq, admite ter alertado seus associados: "Eu alertei as empresas a transferir os estoques para os Estados Unidos porque as tarifas podem voltar."
Para empresas como a Triton Yachts, que produz lanchas e iates no Paraná, o cenário é particularmente delicado. Com o alívio tarifário de fevereiro, a empresa havia planejado aumentar a produção destinada aos Estados Unidos de cerca de 50% para até 60% do total. Agora, tudo depende de como o mercado americano se abrirá após as novas sanções. Na indústria de calçados, Giuliano Spinelli Gera, sócio-diretor da PG4 Calçados em Franca, São Paulo, recebeu mais pedidos dos EUA após a decisão da Suprema Corte, mas trabalha agora em coleções para 2027 com a incerteza pairando sobre suas exportações. "Se o tarifaço voltar, perderemos o fim do ano e o primeiro trimestre do ano que vem," diz ele.
As negociações entre os governos brasileiro e americano, abertas após encontro na Casa Branca em 7 de maio entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, continuam em andamento. Mas o otimismo arrefeceu. A designação do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho como grupos terroristas nos Estados Unidos abriu um novo foco de atrito entre os governos, complicando uma solução negociada.
O que torna essa situação particularmente grave é que as sanções aplicadas via Seção 301 da legislação americana têm respaldo jurídico amplamente consolidado. Diferentemente do tarifaço anterior, que foi invalidado porque a Suprema Corte entendeu que Trump não poderia impor tarifas econômicas de grande impacto sem aval do Congresso, essas novas medidas dificilmente serão derrubadas pelos magistrados.
Mais preocupante ainda é que a indústria brasileira não encontrou rotas alternativas viáveis para seus produtos. Desde que Trump voltou à Casa Branca para seu segundo mandato, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras de manufaturados caiu de 21,4% para 19,7%. A Argentina absorveu um pouco mais — passando de 12,3% para 13,8% — mas outros mercados pouco mudaram. Enquanto isso, a China continua absorvendo as commodities brasileiras, aprofundando a perda de participação dos manufaturados na pauta comercial do país: de 38,9% em 2010 para 26,4% no ano passado. Para o aço e alumínio, a situação é ainda mais crítica. Essas vendas continuam pagando tarifa de 50%, e as compras americanas de semiacabados siderúrgicos brasileiros já recuaram 48% entre janeiro e abril deste ano. Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto Aço Brasil, aponta que o excesso de oferta global de aço agrava o quadro: com uma ociosidade entre 35% e 36% em suas usinas, ele deveria exportar muito mais, mas não consegue porque também sobra capacidade no resto do mundo.
Notable Quotes
Eu alertei as empresas a transferir os estoques para os Estados Unidos porque as tarifas podem voltar— José Velloso, presidente executivo da Abimaq
Se o tarifaço voltar, perderemos o fim do ano e o primeiro trimestre do ano que vem— Giuliano Spinelli Gera, sócio-diretor da PG4 Calçados
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que as empresas não simplesmente redirecionam seus produtos para outros mercados? Parece haver demanda em outros lugares.
A resposta é mais complicada do que parece. Máquinas, calçados e químicos têm nos EUA seu principal destino de exportação — não por acaso, mas porque o mercado americano é estruturado para absorver esses produtos. Redirecionar para a China, por exemplo, significa competir com fabricantes locais que têm custos muito menores. A Argentina absorveu um pouco mais, mas não o suficiente para compensar.
E quanto aos acordos comerciais? Não há alternativas legais para contornar essas tarifas?
Há negociações em andamento, mas elas enfrentam obstáculos políticos novos. A designação de grupos criminosos brasileiros como terroristas pelos EUA criou um atrito adicional que complica qualquer acordo. Além disso, essas tarifas têm respaldo jurídico muito mais sólido do que as anteriores.
Então a indústria está basicamente apostando que consegue vender tudo antes de julho?
Exatamente. É uma corrida contra o tempo. As empresas estão transferindo estoques, antecipando embarques, porque sabem que em julho as condições mudam. Alguns setores já mostram sinais de que essa antecipação está funcionando — março teve números extraordinários, abril voltou ao normal.
E se as tarifas forem aplicadas? Qual é o impacto real?
Para setores como calçados e máquinas, é devastador. Uma tarifa de 25% torna seus produtos muito menos competitivos. Para o aço, que já paga 50%, a situação é ainda pior — as compras americanas caíram 48% em poucos meses. A indústria brasileira está perdendo participação no comércio global enquanto isso acontece.