O cérebro acende-se com três pedais, apaga-se com dois
Um neurocientista japonês da Universidade de Tohoku revelou que conduzir com caixa manual ativa o córtex pré-frontal — região do cérebro associada às funções cognitivas superiores — enquanto a condução com caixa automática deixa essa mesma zona em repouso. A descoberta, feita por Ryuta Kawashima, insere-se numa tradição de investigação sobre o envelhecimento cerebral e levanta uma questão silenciosa: à medida que os automáticos dominam as estradas europeias, estaremos a abdicar, sem o saber, de um exercício mental quotidiano que protegia os mais velhos da demência?
- A coordenação exigida pela embraiagem, alavanca e acelerador acende uma zona do cérebro que o simples carregar de dois pedais nunca alcança.
- Com 70% a 80% do parque automóvel europeu ainda manual, a janela de oportunidade cognitiva existe — mas está a fechar-se à medida que os automáticos e elétricos dominam as novas vendas.
- Portugal, com 24,5% de população com mais de 65 anos, está entre os países onde a transição para automáticos pode ter consequências cognitivas mais visíveis e urgentes.
- A equipa de Kawashima alerta que a mudança gradual de transmissão pode acelerar a deterioração mental dos condutores mais velhos, favorecendo o desenvolvimento de demência numa população que já envelhece rapidamente.
Ryuta Kawashima, neurocientista da Universidade de Tohoku e figura por detrás da série de videojogos Brain Age da Nintendo, demonstrou que o cérebro humano responde de forma radicalmente diferente consoante o tipo de transmissão do veículo. Conduzir com caixa manual — com os seus três pedais, a alavanca e a constante coordenação entre embraiagem e acelerador — ativa o córtex pré-frontal, região essencial para as funções cognitivas superiores. Conduzir com caixa automática deixa essa mesma zona completamente em repouso.
O exercício não é trivial: repetido centenas de vezes por dia, o raciocínio sobre engrenagens, a suavidade na embraiagem e a modulação do acelerador constituem uma forma mensurável de estimulação cerebral. É precisamente este tipo de desafio cognitivo contínuo que Kawashima tem investigado no contexto do envelhecimento e da prevenção da demência — uma preocupação central no Japão, onde 30% da população já tem mais de 65 anos.
A descoberta ganha contornos urgentes quando confrontada com a realidade do mercado automóvel. Na Europa e em Portugal, os veículos novos são hoje predominantemente automáticos ou elétricos, com as caixas manuais a representar apenas 30% a 35% das novas vendas. O parque em circulação ainda é maioritariamente manual, mas a transição está em curso. Para os condutores mais velhos — em Portugal, 24,5% da população tem mais de 65 anos — esta mudança silenciosa pode significar a perda de um estímulo cognitivo diário que os protegia sem que soubessem.
Ryuta Kawashima, neurocientista da Universidade de Tohoku no Japão, fez uma descoberta que recoloca a conversa sobre caixas de velocidades manuais versus automáticas longe do simples debate tecnológico. O seu trabalho demonstrou que o cérebro humano responde de forma radicalmente diferente consoante o tipo de transmissão que se está a conduzir. Quando alguém está ao volante de um carro com caixa manual — com os seus três pedais, a alavanca de velocidades, a necessidade constante de coordenação entre embraiagem e acelerador — uma zona específica do cérebro acende-se. Essa mesma zona permanece apagada quando a pessoa conduz um automático, onde apenas dois pedais existem e o raciocínio sobre mudanças de engrenagem desaparece.
Kawashima é figura conhecida no mundo científico e tecnológico. Além das suas pesquisas no Instituto de Desenvolvimento, Envelhecimento e Cancro de Tohoku, foi ele quem forneceu a base científica para a série de videojogos Brain Age, lançada pela Nintendo. Esses jogos, vendidos aos milhares, foram concebidos como ferramentas de estimulação cerebral para combater a demência — uma preocupação particularmente aguda no Japão, onde 30% da população tem atualmente mais de 65 anos. A Europa não fica muito atrás, com uma média de 21,6% de população idosa, e Portugal situa-se em 24,5%.
O estudo de Kawashima e da sua equipa revelou que a condução de um veículo com caixa manual é, na verdade, um exercício complexo de coordenação, gestão e estratégia. O condutor precisa de lidar com o pedal da embraiagem, com o manuseamento da alavanca, com a modulação do acelerador, e de raciocinar sobre qual a engrenagem apropriada para cada momento. Tudo isto exige suavidade e precisão, especialmente a baixa velocidade. Repetido centenas de vezes por dia, este exercício estimula o cérebro de forma mensurável.
A região ativada é o córtex pré-frontal — uma zona do cérebro crucial para funções cognitivas superiores. Quando alguém conduz um automático, este córtex permanece desativado. As caixas automáticas, sem embraiagem e sem as mesmas solicitações de raciocínio, não exigem o mesmo tipo de funções cognitivas. Não puxam pelo cérebro da mesma forma.
A realidade do mercado automóvel europeu e português torna esta descoberta particularmente relevante. Nos últimos anos, os veículos novos vendidos em Portugal e na Europa são predominantemente automáticos, ou até sem caixa tradicional, como é o caso dos carros elétricos. As caixas manuais representam apenas entre 30% a 35% das novas vendas. No entanto, o parque automóvel em circulação ainda é dominado por veículos com pedal de embraiagem e caixa manual — entre 70% a 80% do total. Esta transição gradual para automáticos, segundo a equipa de Kawashima, pode ter consequências cognitivas significativas, especialmente para os condutores mais velhos. A mudança pode acelerar a deterioração das suas capacidades mentais e favorecer o desenvolvimento de demência. Numa população que envelhece, esta é uma questão que merece atenção.
Citações Notáveis
A condução de um veículo com caixa manual é um exercício complexo de coordenação, gestão e estratégia que estimula o cérebro quando repetido centenas de vezes por dia— Ryuta Kawashima e equipa
As caixas automáticas podem acelerar a deterioração da capacidade cognitiva dos condutores mais velhos e favorecer o desenvolvimento de demência— Equipa de Kawashima
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Porque é que o cérebro reage de forma tão diferente a estes dois tipos de caixa? Não é apenas uma questão de hábito?
Não é hábito. É a quantidade de informação que o cérebro precisa processar em tempo real. Com uma caixa manual, está constantemente a tomar decisões — quando mudar, como suavizar a transição, como coordenar três pedais diferentes. Com um automático, essas decisões desaparecem.
E essa estimulação específica do córtex pré-frontal — por que é que isso importa tanto para pessoas mais velhas?
O córtex pré-frontal é onde vivem as funções executivas, o raciocínio, a memória de trabalho. É exatamente o que começa a falhar na demência. Se o está a usar constantemente, está a manter aquela região ativa e resistente.
Mas as pessoas não podem simplesmente fazer outros exercícios para estimular o cérebro? Porque é que a condução é especial?
Porque é involuntária. Não é algo que se faz uma vez por semana durante meia hora. É algo que se faz todos os dias, centenas de vezes. É estimulação constante, integrada na vida real.
Isto significa que as pessoas que compram automáticos estão a fazer uma escolha que prejudica o seu cérebro?
Não é tão simples. Mas sim, há uma troca. Ganham conforto e conveniência, mas perdem um estímulo cognitivo que era gratuito e diário. Para alguém com 70 anos, essa perda pode ser significativa.
E o Japão — porque é que este estudo vem de lá?
Porque o Japão enfrenta um envelhecimento populacional extremo e tem estado a investigar formas de manter os cérebros dos idosos ativos. Kawashima já tinha feito este trabalho com videojogos. Agora está a olhar para o que as pessoas já fazem no seu dia a dia.