O movimento salva vidas, mas Portugal ainda não o prescreveu
Um estudo apresentado na maior conferência de oncologia clínica do mundo revelou que o movimento do corpo humano, quando prescrito com rigor durante o tratamento do cancro colorretal, reduz a probabilidade de recidiva e prolonga a vida. Em Portugal, onde quase três quartos da população nunca pratica exercício, esta descoberta colide com uma cultura de sedentarismo profundamente enraizada. O que a ciência agora demonstra com clareza é que o exercício não é um complemento opcional ao tratamento oncológico — é, ele próprio, uma forma de terapia.
- Pela primeira vez, um estudo clínico quantificou de forma objetiva que doentes com cancro colorretal que fizeram exercício supervisionado durante a quimioterapia viveram mais e recaíram menos.
- O paradoxo é cruel: a fadiga oncológica — um cansaço que o repouso não alivia — leva os doentes a evitar precisamente o movimento que poderia atenuá-la e preservar a sua força muscular.
- Portugal é um dos países mais sedentários da União Europeia, com 73% dos cidadãos sem qualquer prática regular de exercício, tornando a mudança cultural necessária ainda mais urgente e difícil.
- A integração do exercício como terapia prescrita no sistema de saúde português exige equipas dedicadas em contexto hospitalar, programas comunitários supervisionados e gratuitos, e uma transformação profunda de mentalidades.
- O caminho começa em pequenos gestos — caminhar, subir escadas, reduzir o tempo sentado — mas o destino é claro: o exercício precisa de ter o mesmo estatuto clínico que a nutrição e o apoio psicológico no tratamento do cancro.
Um estudo apresentado no congresso anual da American Society of Clinical Oncology trouxe uma conclusão que desafia o comportamento habitual dos doentes oncológicos: aqueles com cancro colorretal que realizaram exercício físico supervisionado durante a quimioterapia adjuvante tiveram menor probabilidade de recidiva e viveram mais tempo. Pela primeira vez, foi possível medir com objetividade o que muitos suspeitavam — o movimento salva vidas.
Em Portugal, porém, a realidade contrasta de forma gritante com esta evidência. Cerca de 73% dos portugueses nunca praticam exercício ou desporto, e apenas 4% o fazem regularmente, colocando o país entre os mais sedentários da União Europeia. A barreira invocada é sempre a mesma: falta de tempo. Este sedentarismo é tanto mais preocupante quanto a ciência demonstra, de forma crescente, o papel do exercício não só na prevenção de doenças, mas também na redução do risco de recidiva oncológica.
Durante o tratamento, um dos efeitos mais debilitantes é a fadiga associada ao cancro — um cansaço físico e mental persistente que o repouso não consegue aliviar. É precisamente aqui que reside o paradoxo: quando o exercício seria mais benéfico, os doentes tendem a evitá-lo. No entanto, a prática adaptada e supervisionada melhora os níveis de energia, preserva a massa muscular, aumenta a tolerância aos tratamentos e contribui para o bem-estar emocional e social.
O que falta em Portugal é integração. Tal como um doente oncológico é encaminhado para nutrição ou psicologia, deveria poder receber uma prescrição de exercício estruturado, com avaliação funcional e plano de treino individualizado, em contexto hospitalar ou comunitário. Para isso, são necessárias equipas dedicadas, programas acessíveis e gratuitos, e uma mudança cultural que reconheça o exercício como terapia — não como luxo ou opção. As alterações não precisam de ser radicais: caminhar mais, subir escadas, reduzir o tempo sedentário. O desafio é tornar o movimento uma parte sustentável e prescrita do tratamento. Os dados agora mostram que pode mudar o resultado final.
Um estudo apresentado recentemente no congresso anual da American Society of Clinical Oncology trouxe uma descoberta que desafia uma prática comum entre doentes oncológicos: aqueles que realizaram exercício físico supervisionado durante o tratamento do cancro colorretal tiveram menor probabilidade de recidiva e viveram mais tempo. Os investigadores acompanharam doentes submetidos a quimioterapia adjuvante que participaram num programa estruturado de exercício, comparando-os com um grupo similar que não recebeu essa intervenção. Os números foram claros. Pela primeira vez, foi possível quantificar de forma objetiva o que muitos suspeitavam: o movimento salva vidas.
Em Portugal, porém, a realidade é bem diferente. Segundo o Special Eurobarometer de 2022, cerca de 73% dos portugueses nunca praticam exercício físico ou desporto. Apenas 4% dizem fazer isso regularmente. O país situa-se entre os mais sedentários da União Europeia, apesar de a população apontar a melhoria da saúde como motivação principal — a barreira é sempre a mesma: falta de tempo. Este contraste é gritante quando se olha para a evidência científica robusta que existe sobre o impacto do exercício na prevenção de múltiplas doenças, incluindo vários tipos de cancro.
Mas o exercício físico faz muito mais do que prevenir. Durante o tratamento oncológico, uma das consequências mais debilitantes é a fadiga associada ao cancro — aquela sensação persistente de cansaço físico e mental, de fraqueza e falta de energia que o repouso não consegue aliviar. É uma toxicidade profundamente incapacitante que compromete significativamente o dia a dia dos doentes. E aqui reside um paradoxo perturbador: precisamente quando o exercício seria mais benéfico, os doentes tendem a evitá-lo. A prática regular e adaptada de movimento contribui para melhorar os níveis de energia, preserva a massa muscular e aumenta a capacidade funcional, permitindo frequentemente uma melhor tolerância aos próprios tratamentos.
Os benefícios vão muito além da fadiga. O exercício pode melhorar o apetite, promover a socialização, reduzir o isolamento e contribuir para o bem-estar físico e emocional. Quando supervisionado e ajustado à condição clínica de cada pessoa, torna-se uma intervenção multifatorial. Medir este impacto em estudos clínicos é desafiante — o exercício é uma componente do estilo de vida, frequentemente acompanhada de outras mudanças comportamentais — mas a evidência científica nesta área continua a crescer.
O que falta agora é integração. Portugal tem um longo caminho a percorrer. Seria desejável que o exercício físico pudesse ser prescrito como qualquer outra terapia oncológica, com doentes a terem acesso a avaliação funcional e planos de treino individualizados, desenvolvidos em contexto hospitalar ou na comunidade, com supervisão adequada. Tal como hoje é possível encaminhar um doente para consultas de nutrição ou psicologia, deveria ser possível fazer o mesmo para programas de exercício estruturados e integrados na terapêutica.
Para que isto aconteça, é necessária uma mudança em múltiplos níveis. Decisores, profissionais de saúde e a sociedade precisam de maior consciencialização. Precisamos de equipas dedicadas ao exercício físico em meio hospitalar, mas também de respostas estruturadas na comunidade que permitam aos doentes beneficiar de programas acessíveis, supervisionados e gratuitos. Isto exige uma transformação cultural profunda. Portugal continua a ser um país onde o exercício físico não está suficientemente enraizado nos hábitos diários. É fundamental reforçar a consciência do seu papel não apenas na prevenção, mas também na redução do risco de recidiva.
As mudanças não precisam de ser radicais. Caminhar, subir escadas, fazer exercícios de reforço muscular ou simplesmente reduzir o tempo sedentário — pequenas alterações podem ter um impacto significativo. O desafio é ajudar as pessoas a encontrar formas concretas e sustentáveis de se moverem mais. Quando um doente com cancro colorretal recebe quimioterapia, recebe também orientações nutricionais e apoio psicológico. Falta apenas uma coisa: a prescrição de exercício, aquela que os dados agora mostram que pode mudar o resultado final.
Citas Notables
Pela primeira vez, foi possível quantificar de forma mais objetiva o impacto do exercício na sobrevivência de doentes com cancro colorretal— Médica oncologista, Hospital São Francisco Xavier
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Porque é que os doentes tendem a evitar exercício precisamente quando mais precisam dele?
Porque a fadiga do cancro é tão profunda que qualquer movimento parece impossível. O corpo grita para parar, e as pessoas ouvem. Mas é exatamente o oposto do que deveriam fazer.
E os médicos? Prescrevem exercício?
Raramente. Não porque não acreditem, mas porque o sistema não está preparado para isso. Não há equipas, não há programas estruturados, não há supervisão. É mais fácil prescrever um medicamento.
O estudo do cancro colorretal muda isso?
Muda a conversa. Pela primeira vez temos números objetivos: menos recidiva, mais sobrevivência. Não é mais uma teoria. É evidência.
Mas Portugal é sedentário. Como é que se consegue mudar isso?
Não é preciso transformar ninguém num atleta. É preciso convencer as pessoas de que caminhar, subir escadas, mover-se — isso conta. E que quando estão doentes, contar ainda mais.
Qual é o primeiro passo?
Integrar o exercício no tratamento como se fosse um medicamento. Avaliação funcional, plano personalizado, supervisão. Depois, criar programas na comunidade que sejam acessíveis e gratuitos. Sem isso, a evidência fica apenas no papel.