A NATO parece forte, mas não consegue agir sem os EUA
Em Bruxelas, dois momentos simultâneos revelaram a tensão que define a Europa de hoje: Zelensky sentou-se à mesa dos líderes europeus para celebrar o início das negociações de adesão à UE, enquanto o secretário de Defesa americano Pete Hegseth descrevia a NATO como um 'tigre de papel' e condicionava a presença militar dos EUA ao cumprimento de metas de despesa em defesa. A semana que Kiev chamou histórica carrega, assim, um asterisco — o progresso ucraniano avança sobre uma aliança atlântica em plena reconfiguração. A celebração e a ameaça coexistiram na mesma cidade, a poucas ruas de distância, como metáfora de uma ordem europeia que ainda não sabe o que será.
- Zelensky chegou ao Conselho Europeu como símbolo de resistência, mas partiu com novos pedidos — acelerar a adesão à UE — que dividem os 27 Estados-membros.
- Hegseth subiu ao púlpito da NATO com uma linguagem de ultimato: ou os aliados gastam 5% do PIB em defesa até 2035, ou as contribuições americanas serão cortadas.
- A crítica americana estendeu-se ao Irão — Washington acusou os aliados de recusarem apoio militar e de afogarem os EUA em 'debates jurídicos obscuros' enquanto criticavam as ações americanas.
- Mark Rutte tentou absorver o impacto, reinterpretando a redução do contingente americano como uma oportunidade para a Europa reduzir a sua dependência — mas admitiu que a NATO atravessa 'a maior transformação da sua história'.
- O orçamento de longo prazo da UE, ainda por negociar, já mostrava fraturas: os Países Baixos rejeitaram propostas cipriotas e a Grécia alertou contra o aprofundamento das desigualdades entre países.
Bruxelas viveu esta semana uma dualidade difícil de ignorar. De um lado, Volodymyr Zelensky chegou ao Conselho Europeu acompanhado por António Costa e Ursula von der Leyen para assinalar o início das negociações de adesão da Ucrânia à União Europeia — um momento que Costa classificou de 'semana histórica' e que Zelensky descreveu como 'realmente fantástico'. O G7 reafirmou o seu apoio 'claro e firme', e Von der Leyen falou de uma maré a virar, com a Ucrânia a recuperar parcialmente território. Mas Zelensky trouxe também novos pedidos, nomeadamente a aceleração do processo de adesão, uma ideia longe de ser consensual entre os 27. O debate sobre o orçamento de longo prazo do bloco, ainda por vir, já mostrava sinais de fricção — os Países Baixos rejeitaram propostas cipriotas e a Grécia alertou contra desigualdades crescentes.
A poucas ruas de distância, o secretário de Defesa americano Pete Hegseth dirigia-se aos ministros da NATO com uma mensagem que era tudo menos diplomática. Descreveu a Aliança Atlântica como um 'tigre de papel e uma via de sentido único', anunciou uma revisão do número de forças americanas na Europa nos próximos seis meses e condicionou as contribuições futuras dos EUA ao cumprimento da meta de 5% do PIB em defesa até 2035. Alguns aliados 'falhariam' nessa revisão, outros passariam 'com distinção'. Hegseth foi igualmente crítico em relação ao Irão, classificando de 'vergonhosa' a recusa de aliados em permitir operações militares americanas a partir de solo ou portos europeus.
Mark Rutte, secretário-geral da NATO, tentou gerir o impacto. Sublinhou os mais de 90 mil milhões de euros em despesas extra de defesa em 2025 e reinterpretou a redução do contingente americano como uma oportunidade para corrigir uma 'dependência excessiva dos EUA'. Admitiu que a NATO atravessa 'a maior transformação da sua história', com 'águas turbulentas' pela frente — mas defendeu que esse processo era necessário. A semana histórica de Kiev ficou assim marcada por um asterisco cada vez mais visível: o progresso ucraniano avança sobre uma aliança atlântica em plena e incerta reconfiguração.
Bruxelas acordou esta semana dividida entre celebração e ameaça. Enquanto Volodymyr Zelensky chegava ao Conselho Europeu ladeado por António Costa e Ursula von der Leyen para marcar um momento que Costa chamou de "semana histórica", do outro lado da cidade o secretário da Defesa americano Pete Hegseth estava a desmantelar a ilusão de unidade atlântica.
O tom em torno da Ucrânia era de alívio genuíno. As negociações de adesão à União Europeia começaram. O G7 reafirmou o seu apoio "claro e firme". Von der Leyen falou de uma maré a virar — a Ucrânia não apenas resistia, mas recuperava parcialmente o seu território. Zelensky, sentado à mesa com os líderes europeus, chamou-lhe "um momento realmente fantástico". Mas mesmo neste clima de progresso, o presidente ucraniano trouxe novos pedidos: acelerar a adesão à UE, uma ideia que está longe de ser consensual entre os 27 Estados-membros. O Conselho Europeu estender-se-ia até sexta-feira, com a discussão sobre o orçamento de longo prazo do bloco ainda por vir — um terreno minado onde até os aliados mais próximos já mostravam sinais de fricção. Os Países Baixos, através do seu primeiro-ministro Rob Jetten, rejeitaram a proposta cipriota como não merecedora de consideração séria. A Grécia alertava que o próximo orçamento não deveria aprofundar as disparidades entre países.
Mas a verdadeira rutura estava a acontecer a poucas ruas de distância. Um dia após o G7 ter projetado uma imagem de coesão — com Trump a subscrever uma declaração de apoio à Ucrânia — Hegseth subiu ao púlpito perante os ministros da Defesa da NATO com uma mensagem que era tudo menos diplomática. Descreveu a Aliança Atlântica como um "tigre de papel e uma via de sentido único". Não era uma crítica nova, mas o tom era diferente: era uma ameaça estruturada.
O secretário americano deixou claro que Washington estava a rever o número de forças americanas na Europa nos próximos seis meses. Mais importante ainda, condicionou as contribuições futuras dos EUA ao cumprimento de metas de defesa. Cada país-membro da NATO tinha de gastar 5% do PIB em defesa até 2035 — um compromisso assumido na cimeira de Haia do ano anterior, cedendo a uma exigência de Trump. Se não o fizessem com a "urgência necessária", as contribuições americanas seriam reduzidas. Hegseth foi explícito: alguns países "falhariam" na revisão de postura dos EUA, enquanto outros passariam "com distinção". Esta não seria uma mera formalidade burocrática.
O secretário americano estendeu a crítica ao Irão. Descreveu como "vergonhosa" a recusa dos aliados em ajudar nos conflitos no Médio Oriente. Os EUA tinham pedido aos aliados que permitissem que caças americanos levantassem voo de bases europeias ou que navios americanos partissem de portos europeus para atacar alvos iranianos. Muitos aliados disseram não, ou tentaram "afogar-nos em debates jurídicos obscuros", ou criticaram publicamente os EUA por fazerem aquilo que os próprios aliados não estavam preparados para fazer.
Mark Rutte, secretário-geral da NATO, tentou minimizar o impacto das palavras de Hegseth. Sublinhou que os aliados tinham aumentado o investimento em defesa — mais de 90 mil milhões de euros em despesas extra apenas em 2025, um valor que Rutte classificou como histórico. Mas admitiu que alguns aliados eram "um pouco mais cautelosos". O que Hegseth tinha feito, disse Rutte, era manter a pressão. "E isso é bom." O secretário-geral holandês, que desde o regresso de Trump à Casa Branca tinha adotado um discurso cuidadoso para não antagonizar Washington, prosseguiu: "Fico feliz por ele o fazer, porque precisamos de falar a verdade uns com os outros."
Sobre a redução do contingente americano, Rutte reinterpretou-a como uma oportunidade. As mudanças tornavam os planos "mais realistas e, portanto, mais robustos", porque havia "uma dependência excessiva dos EUA". A revisão americana seria "um processo estruturado algures nos próximos seis meses". Rutte reconheceu que a NATO estava a passar por "uma transformação massiva, provavelmente a maior da sua história", o que significava "águas turbulentas" e "uma fase difícil". Mas isso era necessário. "Haverá debates, discussões, e isso é bom."
O contraste era nítido: enquanto a Europa celebrava um passo em frente para a Ucrânia, a estrutura que supostamente a protegia estava a ser reconfigurada sob pressão americana. A semana histórica de Kiev tinha um asterisco cada vez maior.
Citas Notables
As nossas contribuições anuais para a NATO estarão condicionadas ao cumprimento das metas de despesas de defesa de outros países— Pete Hegseth, secretário da Defesa dos EUA
A NATO está a passar por uma transformação massiva, provavelmente a maior da sua história— Mark Rutte, secretário-geral da NATO
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Porque é que Hegseth escolheu este momento, logo após o G7 ter mostrado unidade, para criticar a NATO?
Porque a unidade que Trump mostrou no G7 era condicional. Ele subscreve o apoio à Ucrânia, mas quer que a Europa pague por isso — literalmente, em percentagens de PIB. Hegseth estava a deixar claro que a generosidade americana tem um preço.
Quando ele diz "tigre de papel", o que quer dizer exatamente?
Que a NATO parece forte, mas não consegue agir sem os EUA. É uma via de sentido único — a América defende a Europa, mas quando pede ajuda em troca, muitos aliados recusam ou criam obstáculos legais.
Os 90 mil milhões de euros que Rutte mencionou — isso não prova que os aliados estão a fazer a sua parte?
Prova que alguns estão. Mas Hegseth quer mais, e quer garantias. Quer saber que cada país vai gastar 5% do PIB até 2035. Sem isso, reduz as tropas americanas. É um jogo de pressão.
Rutte parece estar a tentar apaziguar tanto Hegseth como os aliados mais fracos. É possível?
Por enquanto, sim. Ele está a reinterpretar a ameaça como uma oportunidade — diz que a redução de dependência dos EUA torna a Europa mais forte. Mas é uma narrativa frágil se os EUA realmente reduzirem o contingente.
E a Ucrânia nisto tudo? Zelensky estava a celebrar enquanto isto acontecia.
Zelensky estava a celebrar porque a adesão à UE é real. Mas a segurança da Ucrânia ainda depende da NATO, e a NATO está a ser desmontada e reconstruída sob pressão americana. A celebração é prematura.