Nós dominamos o Hemisfério Ocidental, ponto final
Num momento em que a ordem multipolar corrói as certezas do poder unipolar, os Estados Unidos voltam os olhos para o próprio hemisfério e encontram na Venezuela o lugar onde a vontade imperial pode ainda ser demonstrada com clareza. A nova Estratégia de Segurança Nacional americana ressuscita a lógica da Doutrina Monroe — não como relíquia histórica, mas como programa ativo — sinalizando que, diante da impossibilidade de confrontar China e Rússia simultaneamente, Washington escolheu reafirmar domínio onde a resistência parece menor. O que se passa em Caracas, segundo essa leitura, não é apenas uma crise bilateral: é uma mensagem endereçada ao Sul Global inteiro sobre os limites da soberania num mundo ainda em transição.
- A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA declara abertamente o domínio sobre o Hemisfério Ocidental, ressuscitando a Doutrina Monroe sem disfarce diplomático.
- Washington reconheceu que não pode vencer uma guerra simultânea contra China e Rússia, e redirecionou sua pressão para os elos que considera mais vulneráveis — a América Latina em primeiro lugar.
- Autoridades venezuelanas e críticos internacionais acusam Donald Trump de ter ordenado o sequestro de Nicolás Maduro, elevando a intervenção de pressão econômica a força militar direta.
- A Venezuela deixa de ser apenas um país em crise e passa a funcionar como laboratório e símbolo da nova estratégia imperial americana em ação.
- O Sul Global observa: o que acontece em Caracas é lido como um recado sobre soberania, recursos estratégicos e os custos de alinhar-se fora da órbita de Washington.
A Venezuela voltou ao centro da disputa geopolítica global, mas não pelos motivos habituais. Para o analista Pepe Escobar, o país caribenho funciona hoje como laboratório — um espaço onde os Estados Unidos testam sua capacidade de impor vontade sobre o Hemisfério Ocidental num momento em que esse poder já não é garantido como foi durante décadas.
Escobar encontrou na nova Estratégia de Segurança Nacional americana uma frase reveladora: "Nós dominamos o Hemisfério Ocidental, ponto final." Não há linguagem diplomática. É uma declaração que ressuscita a Doutrina Monroe — a política do século 19 usada historicamente para justificar interferência na América Latina — agora reafirmada num mundo radicalmente diferente.
O mundo que Washington imaginava no início dos anos 2000 não se materializou. China e Rússia consolidaram uma parceria estratégica e criaram um cenário que os analistas americanos finalmente reconheceram como intransponível: não é possível vencer uma guerra simultânea contra as duas potências. Diante disso, segundo Escobar, Washington adotou um "plano B" — concentrar pressão nos pontos identificados como mais frágeis. O Hemisfério Ocidental é exatamente isso: o quintal histórico dos EUA, onde o controle pode ser reafirmado com mais facilidade.
O que torna a análise particularmente grave é o contexto imediato. Autoridades venezuelanas e críticos internacionais denunciam o que descrevem como sequestro de Nicolás Maduro, em operação ordenada por Donald Trump. Se a acusação reflete a realidade, marca um ponto de inflexão: a intervenção deixa de ser econômica ou diplomática e assume dimensão de força direta.
Mas Escobar vai além. O que acontece em Caracas é, na sua leitura, uma mensagem ao Sul Global inteiro — sobre soberania, recursos estratégicos e os custos de alinhar-se fora da órbita americana. Num mundo onde a multipolaridade avança e as antigas hierarquias se desintegram, Washington tenta provar que pelo menos em seu hemisfério as regras antigas ainda valem. A Venezuela é o exemplo. O resto observa.
A Venezuela voltou ao centro da disputa geopolítica global, mas não pelos motivos que ocupam os noticiários convencionais. Segundo o analista Pepe Escobar, o país caribenho funciona agora como um laboratório — um espaço onde os Estados Unidos testam e demonstram sua capacidade de impor vontade sobre o Hemisfério Ocidental num momento em que esse poder já não é garantido como foi durante décadas.
Escobar examinou a nova Estratégia de Segurança Nacional americana e encontrou nela uma frase que, para ele, resume tudo: "Nós dominamos o Hemisfério Ocidental, ponto final." Não é uma afirmação disfarçada em linguagem diplomática. É uma declaração de intenção tão direta que ressuscita a Doutrina Monroe — aquela política do século 19 que os EUA usaram historicamente para justificar sua interferência em toda a América Latina. A diferença é que agora ela é reafirmada num mundo que mudou radicalmente.
O mundo que Washington imaginava no início dos anos 2000 — aquele em que o século 21 seria "o novo século americano" — não se materializou. China e Rússia não seguiram o roteiro previsto. Desenvolveram-se, consolidaram uma parceria estratégica e criaram um cenário que os analistas em Washington finalmente reconheceram como intransponível: não é possível vencer uma guerra simultânea contra as duas potências. Levou menos de vinte anos para que essa realidade penetrasse, mas quando penetrou, já era tarde demais para mudar o curso.
Face a essa constatação, segundo Escobar, Washington adotou o que ele chama de "plano B". Se não consegue confrontar diretamente as grandes potências, concentra-se nos pontos que identifica como mais frágeis. E o Hemisfério Ocidental — a América Latina — é exatamente isso: o quintal histórico dos EUA, onde a resistência é presumivelmente menor e o controle pode ser reafirmado com mais facilidade. A Venezuela, nesse cálculo, não é apenas um país em crise. É um símbolo, um exemplo prático de como a nova estratégia será aplicada.
O que torna essa análise particularmente grave é o contexto em que ela emerge. Autoridades venezuelanas e críticos internacionais denunciam o que descrevem como sequestro de Nicolás Maduro — uma operação que teriam sido ordenada por Donald Trump. Se essa acusação reflete a realidade, marca um ponto de inflexão: a intervenção deixa de ser econômica ou diplomática e assume uma dimensão de força militar direta. Não é mais pressão. É captura.
Mas Escobar vai além da Venezuela. Sua leitura sugere que o que está acontecendo em Caracas é uma mensagem dirigida a um público muito mais amplo — o Sul Global inteiro. É um recado sobre quem controla o quê, sobre soberania, sobre recursos estratégicos, sobre quem pode alinhar-se com quem. Num mundo onde a multipolaridade avança e as antigas hierarquias se desintegram, Washington está tentando reafirmar que pelo menos em seu hemisfério, as regras antigas ainda valem. A Venezuela é o exemplo. O resto do Sul Global está observando.
Citas Notables
Estamos caminhando para um mundo multipolar— Pepe Escobar
Não podemos entrar numa guerra simultânea contra a Rússia e a China. Isso está absolutamente fora de questão— Pepe Escobar, resumindo a posição de Washington
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que a Venezuela importa tanto agora, se há tantos outros conflitos no mundo?
Porque ela funciona como um teste. Se Washington conseguir demonstrar força ali, consegue reafirmar controle sobre toda a região. É simbólico e prático ao mesmo tempo.
Mas a Doutrina Monroe é coisa do século 19. Por que ressuscitá-la agora?
Porque o mundo mudou e Washington sente isso. Quando você era hegemônico, não precisava reafirmar. Agora precisa. É um sinal de que o poder está sendo questionado.
Você está dizendo que os EUA reconhecem que não conseguem vencer contra China e Rússia simultaneamente?
Exatamente. Levou vinte anos para essa realidade penetrar em Washington, mas quando penetrou, mudou tudo. O "plano B" é concentrar força onde ainda conseguem exercê-la.
E a América Latina é onde conseguem?
Historicamente foi. Mas isso está mudando também. Por isso a urgência, por isso a Venezuela como exemplo. É uma tentativa de congelar a situação antes que mude mais.
O que significa para outros países da região?
Significa que estão sendo observados. A mensagem é: vejam o que acontece quando você desafia. É um aviso disfarçado de demonstração de força.
Isso vai funcionar?
Depende. Num mundo multipolar, as velhas receitas funcionam cada vez menos. Mas Washington ainda tem recursos. A questão é se tem tempo.