A ferramenta está prejudicando minhas empresas, o que se pode fazer para mudar esse cenário
O Tesouro dos EUA perguntou como o PIX poderia beneficiar empresas norte-americanas e qual seria a cooperação possível, sugerindo que a ferramenta estaria prejudicando negócios americanos. Especialistas brasileiros argumentaram que transações com cartões de crédito continuam crescendo no Brasil e que plataformas norte-americanas como Google Pay são maiores iniciadores de pagamentos do PIX.
- Audiência do USTR com sete sessões temáticas; PIX foi tema de uma delas
- Tesouro dos EUA questionou como o PIX poderia beneficiar empresas norte-americanas
- Google Pay é o maior iniciador de pagamentos do PIX, com mais de 900 prestadores de serviços
- Brasil ofereceu redução tarifária em cerca de 300 linhas, mas deixou o PIX fora das negociações
- Ameaça de tarifa de 25% contra o Brasil fundamentada na investigação da "seção 301"
Durante audiência do USTR sobre possível tarifa de 25% contra o Brasil, o Tesouro norte-americano questionou especialistas sobre como os EUA poderiam se beneficiar do PIX, enquanto o governo brasileiro mantém a ferramenta como inegociável.
Na primeira sessão de uma audiência comercial que poderia resultar em tarifas de 25% contra o Brasil, representantes do Tesouro dos Estados Unidos fizeram uma pergunta direta aos especialistas brasileiros: como o PIX poderia beneficiar empresas norte-americanas?
A audiência do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) foi organizada em sete sessões temáticas. O PIX ocupou uma delas, e nela compareceram Gustavo Pessoa, professor da Fundação Getulio Vargas, e Vinícius Nunes, executivo com trajetória em pagamentos digitais. Cada participante tinha cinco minutos para apresentar seu argumento, depois enfrentava perguntas de uma banca composta por oito técnicos do governo americano — gente do Tesouro, da agricultura, do comércio.
O tom das perguntas revelava a lógica por trás da investigação. Os americanos queriam saber não apenas como o PIX funcionava, mas como ele poderia ser ajustado para favorecer suas empresas. "A lógica deles é: a ferramenta está prejudicando minhas empresas, o que se pode fazer para mudar esse cenário e beneficiar minhas companhias", explicou Pessoa à CNN Brasil. Nunes recebeu questionamento semelhante e respondeu com uma proposta concreta: integração entre o PIX e o FedNow, o sistema de pagamentos instantâneos do Federal Reserve. "Defendi especialmente a cooperação entre os bancos centrais do Brasil e dos EUA para aperfeiçoar os sistemas", disse o executivo.
Os especialistas brasileiros apresentaram dados que contradiziam a premissa da pergunta. Desde o lançamento do PIX, as transações com cartões de crédito, débito e pré-pagos no Brasil continuaram crescendo — não havia, portanto, prejuízo aos negócios americanos. Mais de 900 prestadores de serviços de pagamento participam do sistema, e entre eles está o Google Pay, plataforma norte-americana que se tornou o maior iniciador de pagamentos do PIX. A ferramenta, em outras palavras, já estava beneficiando empresas dos EUA.
Mas enquanto os americanos pressionavam por concessões sobre o PIX, o governo brasileiro estava traçando uma estratégia diferente. Na semana anterior à audiência, representantes federais apresentaram aos EUA um plano com medidas que o Brasil poderia adotar para contornar a investigação da "seção 301" — o mecanismo legal que fundamenta a ameaça de tarifa de 25%. O plano abordava os seis eixos da investigação, desde corrupção até controle do desmatamento. Mas havia uma linha que não estava no documento: o PIX. O governo brasileiro deixou claro que a ferramenta era inegociável.
O foco real das negociações estava em outro lugar. O Brasil ofereceu aos americanos a possibilidade de reduzir tarifas em cerca de 300 linhas tarifárias — setores nos quais os Estados Unidos teriam maior capacidade de competir e que não prejudicariam a indústria brasileira. Essa abordagem contornava uma restrição da Organização Mundial do Comércio: o Brasil não poderia reduzir tarifas para um único país. A solução foi oferecer as reduções a vários países, criando um cenário onde os americanos ganhariam acesso sem que o Brasil violasse suas obrigações internacionais.
O que emergiu dessa audiência foi um contraste claro entre o que os americanos queriam discutir e o que o Brasil estava disposto a negociar. Os EUA viam o PIX como um obstáculo a seus interesses comerciais e buscavam maneiras de transformá-lo em uma ferramenta que os beneficiasse. O Brasil, por sua vez, tratava o PIX como um ativo nacional não negociável — uma ferramenta que já estava funcionando, já incluía empresas americanas, e não seria reformada sob pressão tarifária. A negociação prosseguia em terreno mais tradicional: tarifas, setores, acesso a mercados. O PIX permanecia fora da mesa.
Citações Notáveis
A lógica deles é: a ferramenta está prejudicando minhas empresas, o que se pode fazer para mudar esse cenário e beneficiar minhas companhias— Gustavo Pessoa, professor da FGV
Defendi especialmente a cooperação entre os bancos centrais do Brasil e dos EUA para aperfeiçoar os sistemas— Vinícius Nunes, executivo de pagamentos digitais
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o Tesouro americano perguntou especificamente como o PIX poderia beneficiar empresas dos EUA? Não é estranho questionar uma ferramenta de pagamento de outro país dessa forma?
Não é estranho se você vê a ferramenta como um obstáculo. Os americanos estavam investigando o Brasil sob a "seção 301", que permite ao governo dos EUA impor tarifas se achar que está sendo prejudicado comercialmente. Eles queriam entender se o PIX estava criando barreiras aos seus negócios.
E estava criando?
Não, segundo os dados que os especialistas apresentaram. Cartões de crédito americanos continuavam crescendo no Brasil. O Google Pay, que é americano, era o maior iniciador de pagamentos do PIX. Mas a pergunta em si revela algo: os americanos queriam saber se havia espaço para negociar, para transformar o PIX em algo que os favorecesse.
Como o Brasil respondeu a essa pressão?
Deixando o PIX completamente fora da mesa de negociações. O governo apresentou um plano com medidas em vários eixos — corrupção, desmatamento, outras coisas — mas o PIX não estava lá. Inegociável.
Então o Brasil cedeu em outras áreas?
Em tarifas, sim. Ofereceu reduzir taxas em cerca de 300 linhas tarifárias, em setores onde os americanos têm vantagem competitiva. Mas fez isso de forma inteligente, oferecendo as mesmas reduções a vários países, não apenas aos EUA, para não violar as regras da OMC.
Qual é a importância real do PIX nessa negociação?
O PIX é um símbolo de soberania tecnológica e financeira brasileira. Não é apenas uma ferramenta de pagamento — é um sistema que o Brasil construiu, que funciona bem, que já inclui empresas estrangeiras. Ceder sobre ele seria ceder sobre a capacidade do Brasil de controlar sua própria infraestrutura financeira.