EUA preparam Guerra Híbrida 2.0 contra BRICS+, alerta Pepe Escobar

A Guerra Híbrida 2.0 ainda nem começou. Estados-pêndulo, vocês foram avisados.
Escobar encerra seu alerta sobre a estratégia americana de conter a expansão do BRICS e a desdolarização no Sul Global.

EUA identificam Brasil, Índia, Indonésia, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia como alvos de sedução, bajulação e intimidação para manter domínio geopolítico. BRICS+ possui instrumentos como Novo Banco de Desenvolvimento para criar sistema alternativo ao Bretton Woods, independente dos mecanismos de coerção do Hegêmona.

  • Seis países identificados como alvos: Brasil, Índia, Indonésia, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia
  • Três desses países já são membros dos BRICS; os outros três são candidatos sérios para adesão
  • Cúpula do BRICS prevista para agosto na África do Sul acelerará decisões de expansão
  • Rússia registra inflação de 2,5%, desemprego de 3,5%, e projeta retorno ao crescimento em 2024
  • BRICS possui Novo Banco de Desenvolvimento como instrumento para criar sistema econômico alternativo

Analista geopolítico alerta que Estados Unidos planejam ofensiva híbrida contra BRICS+ e países-pêndulo para conter expansão da desdolarização e influência sino-russa no Sul Global.

O analista geopolítico Pepe Escobar, presidente do Grupo Eurásia sediado em Nova York, soa um alarme sobre o que ele vê como uma estratégia americana em formação: uma "Guerra Híbrida 2.0" direcionada contra o BRICS+ e um conjunto de seis nações que ele chama de "estados-pêndulo". Esses países — Brasil, Índia, Indonésia, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia — ocupam uma posição incômoda no tabuleiro geopolítico global, membros do G20 e atores significativos tanto na geopolítica quanto na geoeconomia, mas ainda não totalmente comprometidos com nenhum bloco.

O que Escobar identifica é um padrão de comportamento americano que ele diz ser previsível: os think-tanks de Washington telegrafam suas intenções com antecedência, revelando estratégias através de relatórios e análises que, embora apresentados como estudos acadêmicos, funcionam como manifestos de ação. Neste caso, o alvo real não é simplesmente manter a influência americana, mas conter a expansão do BRICS e, mais especificamente, impedir que esses seis países se alinhem mais estreitamente com a China e a Rússia. Três desses países — Brasil, Índia e África do Sul — já são membros dos BRICS. Os outros três — Indonésia, Arábia Saudita e Turquia — são candidatos sérios para adesão, decisões que serão aceleradas na próxima cúpula do BRICS prevista para agosto na África do Sul.

Escobar argumenta que a estratégia americana repousa em uma série de equívocos fundamentais sobre o poder real dos BRICS e sobre as capacidades econômicas que esses países desenvolveram. O BRICS, segundo ele, não é uma simples repetição do Movimento Não-Alinhado da Guerra Fria. Possui instrumentos concretos — particularmente o Novo Banco de Desenvolvimento — que lhe permitem construir um sistema econômico alternativo, independente do Bretton Woods e dos mecanismos de coerção que Washington historicamente utilizou para manter sua hegemonia. A ideia de que os BRICS "não têm muito poder de fogo" revela, em sua visão, ignorância profunda sobre o que esses países representam.

O analista aponta que as pressões americanas sobre esses estados-pêndulo variam em intensidade. O Brasil enfrenta pressões muito mais pesadas do que a Arábia Saudita ou a Indonésia, particularmente em questões de tecnologia, semicondutores, inteligência artificial e 5G. Mas em todos os casos, a dinâmica é a mesma: Washington busca seduzir, bajular, intimidar e ameaçar esses países para assegurar sua lealdade à "ordem internacional baseada em regras". A Turquia, por exemplo, é acusada de canalizar mercadorias de duplo uso para a Rússia, enquanto o sistema financeiro americano força bancos turcos a rejeitar cartões de pagamento russos.

No coração dessa estratégia está a obsessão com a Ucrânia. Os estados-pêndulo são culpados, em graus variados, de se oporem ou boicotarem as sanções contra a Rússia. Escobar observa que a Rússia, longe de estar em colapso econômico como Washington previu, está se recuperando: a inflação está em 2,5%, o desemprego em 3,5%, e o banco central russo projeta retorno ao crescimento em 2024. Moscou já demonstrou que pode reorientar seu comércio para o sul e o leste, lastreando tanto o rublo quanto o yuan.

O manifesto americano que Escobar analisa propõe táticas específicas para reconquistar esses estados-pêndulo: convites para o G-7, mais visitas diplomáticas de alto nível, e o que ele chama de "estratégias comerciais mais ágeis" — essencialmente, ofertas que não podem ser recusadas sobre acesso ao mercado americano. Há também ameaças veladas sobre proliferação nuclear, particularmente direcionadas ao Irã. E há a acusação de que a China está tentando cooptar os BRICS, com a sugestão implícita de que os estados-pêndulo não podem se aliar a um bloco "dirigido pelos chineses e auxiliado pela Rússia que se opõe ativamente aos Estados Unidos".

O que Escobar vê como o verdadeiro objetivo é forçar um "desacoplamento" — um cenário em que as tensões Estados Unidos-China aumentam drasticamente, transformando-se em um confronto tipo Guerra Fria, e os estados-pêndulo são obrigados a escolher um lado. É o velho ultimato: "você está do nosso lado ou está contra nós". Enquanto isso, a desdolarização avança inexoravelmente no Sul Global. Quando a escala completa da situação na Ucrânia se revelar — o que Escobar sugere acontecerá em meados do verão — o processo de substituição do dólar já estará em movimento irreversível. A Guerra Híbrida 2.0 ainda nem começou, mas os avisos já foram dados.

Os BRICS possuem os instrumentos — incluindo o Novo Banco de Desenvolvimento — para criar o arcabouço de um novo sistema que dispensasse o Bretton Woods e os mecanismos de coerção entrelaçada do Hegêmona.
— Pepe Escobar
A Rússia já está se dando muito bem por toda a Eurásia e em uma vasta parte do Sul Global, com economia funcionando, inflação em 2,5% e desemprego em 3,5%.
— Pepe Escobar
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que você acredita que Washington está telegrafando essas intenções tão abertamente? Não seria mais eficaz manter a estratégia em segredo?

Model

Porque a arrogância é parte da estrutura. Os think-tanks americanos presumem que sua análise é tão superior que podem publicá-la sem consequências. Eles já fizeram isso antes — com o 11 de setembro, com os planos para sobrecarregar a Rússia. Mas o que eles não entendem é que quando você nomeia seus alvos e suas táticas, você avisa os alvos.

Inventor

E esses seis países — Brasil, Índia, Indonésia, Arábia Saudita, África do Sul, Turquia — eles realmente têm a capacidade de resistir a essa pressão?

Model

Depende do país. O Brasil enfrenta pressões muito mais pesadas porque é economicamente mais vulnerável. Mas todos eles têm algo em comum: estão vendo que o BRICS oferece uma alternativa real. Não é ideologia. É pragmatismo econômico. O Novo Banco de Desenvolvimento existe. A desdolarização está acontecendo.

Inventor

Você mencionou que a Rússia está se recuperando economicamente. Como isso muda o cálculo para esses estados-pêndulo?

Model

Muda tudo. Se a Rússia estivesse em colapso, seria fácil para Washington dizer: "Vejam, aliar-se a Moscou não funciona". Mas a inflação russa está em 2,5%. O desemprego está em 3,5%. Isso contradiz toda a narrativa americana. Os estados-pêndulo veem isso e começam a questionar as premissas.

Inventor

A China está realmente tentando "cooptar" os BRICS, como o manifesto americano sugere?

Model

Essa é uma palavra carregada. A China é um membro poderoso, sim. Mas os BRICS não é um bloco monolítico dirigido por Pequim. Brasil, Índia e Rússia têm seus próprios interesses. O que Washington chama de "cooptação" é apenas o funcionamento normal de um bloco econômico onde a China é um ator importante.

Inventor

E se Washington conseguir forçar esse "desacoplamento" que você menciona?

Model

Então teríamos uma nova Guerra Fria, exatamente o que Washington diz querer evitar. Mas a ironia é que quanto mais Washington pressiona, mais rápido a desdolarização avança. É um ciclo que se alimenta de si mesmo.

Quer a matéria completa? Leia o original em Brasil 247 ↗
Fale Conosco FAQ