Pode chegar um momento em que não seremos mais capazes de agir com razoabilidade
No espaço frágil entre a guerra e a paz, Estados Unidos e Irã voltam a sentar à mesa em Doha após uma semana em que o cessar-fogo de sessenta dias — assinado em junho com mediação suíça — foi despedaçado por ataques mútuos no Estreito de Ormuz, no Kuwait e no Bahrein. A rota por onde flui boa parte da energia do mundo permanece como palco e como aposta: quem a controla, controla o desfecho. A morte de um cidadão catariano a bordo de uma embarcação lembra que, mesmo nas pausas entre os comunicados diplomáticos, o custo humano não espera.
- O cessar-fogo de 60 dias entre EUA e Irã durou menos de duas semanas antes de ser rompido por ataques americanos a posições iranianas no Estreito de Ormuz.
- O Irã revidou com mísseis e drones contra bases militares dos EUA no Kuwait e no Bahrein, enquanto Trump ameaçava publicamente eliminar a liderança iraniana.
- Um cidadão catariano morreu e outro ficou ferido após estilhaços atingirem uma embarcação desaparecida — vítimas silenciosas de uma escalada que os comunicados oficiais mal mencionam.
- O Irã cancelou conversas técnicas previstas para domingo, citando descumprimento do memorando e falta de acesso a fundos descongelados, expondo a fragilidade do acordo de 14 pontos.
- Apesar da ruptura, ambos os lados anunciaram nova pausa nas hostilidades e reunião diplomática marcada para terça-feira em Doha — uma última janela antes do colapso total.
O pacto que deveria estabilizar o Golfo Pérsico durou pouco mais de uma semana. Assinado em 17 de junho após negociações mediadas na Suíça — com JD Vance e o presidente do Parlamento iraniano Mohammad Baqer Qalibaf à frente — o acordo previa sessenta dias de trégua e a suspensão de sanções americanas como gesto de boa fé. Mas aviões dos EUA atacaram posições iranianas no Estreito de Ormuz, e o frágil cessar-fogo desabou.
A escalada atingiu seu pico neste domingo. Após Trump ameaçar publicamente eliminar a liderança iraniana, a Guarda Revolucionária lançou mísseis e drones contra instalações militares americanas no Kuwait e no Bahrein. O Kuwait acionou suas defesas aéreas e afirmou ter interceptado dois mísseis balísticos; o Bahrein soou sirenes de alerta e registrou danos em um prédio residencial na província de Muharraq. Autoridades americanas confirmaram os ataques, mas disseram não haver baixas significativas.
O custo humano, porém, não foi zero. Um cidadão do Catar morreu em decorrência de ferimentos por estilhaços a bordo de uma embarcação que havia desaparecido no sábado; uma segunda pessoa ficou ferida. O Ministério do Interior catariano não atribuiu responsabilidade pelo incidente.
Paralelamente, Israel continuava sua campanha contra o Hezbollah no Líbano — grupo apoiado pelo Irã —, destruindo infraestrutura subterrânea no sul do país dias após um novo cessar-fogo libanês ser firmado. Teerã deixou claro que esse conflito precisa encerrar para que o acordo mais amplo sobreviva.
A fragilidade do pacto ficou escancarada quando o Irã cancelou conversas técnicas agendadas para domingo. O assessor Mehdi Fazaeili citou o descumprimento de condições do memorando, incluindo o acesso a fundos descongelados. A Guarda Revolucionária declarou que os ataques americanos resultariam 'na interrupção completa de todos os processos diplomáticos'. Ainda assim, os dois países anunciaram nova pausa nas hostilidades e reunião marcada para terça-feira em Doha — uma última chance de evitar que a situação escape completamente do controle.
O acordo que deveria trazer paz ao Golfo Pérsico durou pouco mais de uma semana. No dia 17 de junho, Estados Unidos e Irã haviam assinado um pacto inicial que previa sessenta dias de trégua — tempo suficiente, em tese, para negociar o fim de uma guerra que começou em fevereiro. Mas na semana passada, aviões americanos atacaram posições iranianas no Estreito de Ormuz, e o frágil cessar-fogo desabou.
Agora, após dias de ataques e contra-ataques que ameaçavam inviabilizar qualquer acordo futuro, os dois países concordaram em parar de atirar. O Irã e os Estados Unidos anunciaram neste domingo que interromperão as hostilidades no Golfo e retomarão as negociações sobre a disputa em torno do Estreito de Ormuz — a rota de transporte de energia mais importante do mundo, que Teerã manteve amplamente fechada durante a maior parte do conflito. Os dois lados planejam se reunir na terça-feira em Doha, no Catar, segundo informações confirmadas por uma autoridade da Casa Branca.
Mas antes dessa reunião, a escalada militar atingiu seu pico. Tudo começou na quinta-feira, quando um projétil iraniano atingiu um navio de carga no Estreito de Ormuz. Os americanos responderam com novos ataques. Então, neste domingo pela manhã, logo após o presidente Donald Trump ameaçar publicamente eliminar a liderança iraniana caso não cumprissem o acordo, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã lançou mísseis e drones contra instalações militares dos EUA no Kuwait e no Bahrein. O Exército do Kuwait informou que suas defesas aéreas responderam aos ataques, enquanto o Bahrein acionou sirenes de alerta. Horas depois, alarmes soaram novamente no Bahrein, onde um ataque iraniano danificou um prédio residencial na província de Muharraq. O Exército do Kuwait afirmou ter interceptado dois mísseis balísticos. Uma autoridade dos EUA confirmou que o Irã havia visado instalações americanas, mas disse que não houve relatos de baixas ou danos significativos.
O custo humano, porém, não foi zero. Um cidadão do Catar morreu após sofrer ferimentos causados por estilhaços a bordo de uma embarcação que havia desaparecido no sábado. Uma segunda pessoa ficou ferida no mesmo incidente, causado por operações militares na região. O Ministério do Interior do Catar não especificou o local nem atribuiu responsabilidade pelo ataque.
Enquanto isso, Israel continuava sua própria campanha militar. Neste domingo, as forças israelenses afirmaram ter atacado novamente militantes do Hezbollah — grupo apoiado pelo Irã — no Líbano, destruindo uma infraestrutura subterrânea utilizada pelo grupo em uma vila no sul do país. A ação ocorreu logo após outro ataque no sábado, realizado poucos dias depois de um novo acordo de cessar-fogo com o Líbano ter sido firmado na sexta-feira. Segundo o Irã, esse conflito precisa terminar para que o acordo mais amplo seja mantido.
A fragilidade do pacto ficou evidente quando o Irã cancelou conversas técnicas com os EUA que estavam agendadas para este domingo. Um membro do Gabinete de Preservação e Publicação das Obras do Líder Supremo do Irã, Mehdi Fazaeili, citou ataques recentes ao país e o não cumprimento de condições do Memorando de Entendimento. "Por exemplo, uma das razões é verificar se temos acesso aos fundos descongelados; se não houver acesso, então essa condição não foi cumprida", disse Fazaeili. A Guarda Revolucionária Islâmica declarou que ataques dos EUA violaram o cessar-fogo e resultariam "na interrupção completa de todos os processos diplomáticos".
O acordo de paz provisório de 14 pontos havia sido negociado uma semana antes, em uma rodada de negociações mediadas na Suíça, liderada pelo vice-presidente americano JD Vance e pelo presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf. Washington havia suspendido sanções contra Teerã como gesto de boa fé. Mas os combates foram retomados e intensificados desde então. Agora, com a reunião de terça-feira em Doha, ambos os lados têm uma última chance de evitar que a situação escape completamente do controle — embora as ameaças públicas de Trump e as declarações da Guarda Revolucionária sugiram que essa chance é cada vez mais frágil.
Citações Notáveis
Se isso acontecer, a República Islâmica do Irã deixará de existir!— Donald Trump, presidente dos EUA, em rede social
Por exemplo, uma das razões é verificar se temos acesso aos fundos descongelados; se não houver acesso, então essa condição não foi cumprida— Mehdi Fazaeili, membro do Gabinete de Preservação e Publicação das Obras do Líder Supremo do Irã
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que um acordo assinado há apenas onze dias desabou tão rapidamente?
Porque nenhum dos lados confiava realmente no outro. Os americanos atacaram posições iranianas, o Irã respondeu com mísseis e drones, e ambos acusaram um ao outro de violar o cessar-fogo. Quando Trump ameaçou publicamente eliminar a liderança iraniana, ficou claro que a diplomacia estava em segundo plano.
O que o Irã quer dizer quando fala sobre "fundos descongelados"?
Parte do acordo envolvia Washington suspender sanções contra o Irã. Mas o Irã está questionando se realmente tem acesso ao dinheiro que deveria ter sido liberado. Se não tiver, então os americanos não cumpriram sua parte do acordo.
Por que Israel continua atacando o Hezbollah se há um cessar-fogo com o Líbano?
Porque o Hezbollah é apoiado pelo Irã, e o Irã insiste que esse conflito precisa terminar para que o acordo mais amplo seja mantido. Israel não parece estar disposto a parar, mesmo com o novo cessar-fogo assinado na sexta-feira.
Qual é o verdadeiro prêmio aqui — por que o Estreito de Ormuz importa tanto?
É a rota de transporte de energia mais importante do mundo. O Irã manteve-a amplamente fechada durante a maior parte do conflito. Se ela permanecer fechada, afeta o comércio global de petróleo e gás. Reabrí-la é essencial para qualquer paz duradoura.
A reunião de terça-feira em Doha pode realmente funcionar?
É difícil dizer. O Irã já cancelou conversas técnicas agendadas para este domingo. Ambos os lados estão fazendo ameaças públicas. A confiança desapareceu. Mas é a última chance antes que tudo desabe completamente.