A paridade de preços entre o biocombustível e a gasolina tende a se ampliar contra o etanol
No coração da matriz energética brasileira, o etanol enfrenta uma encruzilhada silenciosa: a possível queda de até 10% no preço da gasolina nas refinarias ameaça desequilibrar a paridade que sustenta a escolha do consumidor pelo biocombustível. Em Paulínia, referência simbólica e prática do setor, os números de setembro já antecipavam essa tensão. O que está em jogo não é apenas o preço por litro, mas a viabilidade de uma cadeia produtiva que entrelaça energia, agricultura e desenvolvimento regional no Brasil.
- A gasolina americana já é negociada R$ 0,23 por litro abaixo do preço praticado pela Petrobras no Brasil, criando pressão concreta por um ajuste doméstico para baixo.
- Se a gasolina cair entre 5% e 10% nas refinarias, o etanol perde competitividade nos postos e o consumidor tende a migrar para o combustível fóssil.
- A oferta de etanol de cana segue restrita na safra 2025/26, enquanto o etanol de milho cresce — uma substituição que não resolve o problema de preços.
- Produtores anteciparam vendas como proteção contra a queda esperada, apostando em capturar margens antes que a pressão se intensifique.
- Se o reajuste da gasolina não se concretizar, a entressafra pode inverter o jogo e valorizar o etanol — transformando a cautela de alguns em custo de oportunidade.
No final de setembro, o etanol hidratado era vendido a R$ 2,82 por litro em Paulínia — principal referência do mercado brasileiro —, com média mensal de R$ 2,85, segundo levantamento do Itaú BBA. O movimento refletia algo maior: a queda nos preços internacionais de energia começava a reverberar dentro do país.
O cenário projetado para os próximos meses é de compressão adicional. Agentes do setor enxergam espaço para a gasolina recuar entre 5% e 10% nas refinarias brasileiras. Caso isso ocorra, o etanol enfrentará um problema direto: a paridade de preços com a gasolina — o limiar em que o consumidor se torna indiferente entre os dois combustíveis — se ampliará contra o biocombustível. Os mercados futuros americanos já negociavam gasolina a R$ 2,62 por litro em outubro, enquanto a Petrobras praticava R$ 2,85 em Paulínia, reforçando a expectativa de ajuste doméstico.
Do lado da oferta, a situação é igualmente delicada. A cana-de-açúcar, matéria-prima tradicional, está menos abundante na safra 2025/26, e o Itaú BBA aponta que o mix de produção voltado ao biocombustível deve permanecer restrito. Diante desse quadro, produtores anteciparam vendas como estratégia de proteção, tentando capturar preços mais favoráveis antes que a pressão se intensifique.
Há, porém, um caminho alternativo. O analista Lucas Brunetti, da Consultoria Agro do Itaú BBA, observa que, se o reajuste da gasolina não se concretizar, o etanol tende a se valorizar na entressafra — período de menor produção e fundamentos mais apertados. Para quem antecipou vendas, seria uma aposta perdida; para quem mantém estoque, uma oportunidade. O que os próximos meses revelarão é se a lógica dos preços internacionais prevalecerá — ou se o mercado encontrará seu próprio equilíbrio.
No final de setembro, o etanol hidratado era vendido a R$ 2,82 por litro em Paulínia, São Paulo — o principal ponto de referência para o mercado brasileiro. A média do mês ficou em R$ 2,85 por litro, conforme levantamento do Itaú BBA. Esse movimento de preços refletiu uma dinâmica mais ampla: a queda nos valores internacionais de energia, especialmente da gasolina, começava a pressionar o mercado de biocombustíveis dentro do país.
O cenário que se desenha agora é de potencial compressão ainda maior. Agentes do setor acreditam que há espaço para a gasolina cair entre 5% e 10% nas refinarias brasileiras. Se isso acontecer, o etanol enfrentará um problema simples e grave: perderá competitividade nos postos. A paridade de preços entre o biocombustível e a gasolina — o ponto em que o consumidor fica indiferente entre um e outro — tende a se ampliar contra o etanol.
Os números internacionais já apontam nessa direção. No início de outubro, a gasolina negociada nos mercados futuros americanos (CME RBOB Gasoline) estava cotada a R$ 2,62 por litro. No Brasil, a Petrobras vendia o mesmo combustível a R$ 2,85 por litro em Paulínia. Essa diferença de R$ 0,23 por litro reforça a expectativa de que os preços domésticos devem cair para se alinhar com o mercado internacional.
O lado da oferta complica ainda mais a situação do etanol. Embora haja maior disponibilidade de etanol de milho, a cana-de-açúcar — a matéria-prima tradicional — está menos abundante. O Itaú BBA aponta que a redução no mix de produção voltado para biocombustível deve manter a oferta de etanol de cana restrita durante a safra 2025/26. Diante dessa perspectiva de queda de preços e oferta limitada, produtores têm antecipado suas vendas como forma de proteção — uma tentativa de capturar preços melhores antes que a pressão se intensifique.
Mas há um cenário alternativo que poderia beneficiar o etanol. Lucas Brunetti, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, observa que se o reajuste da gasolina não ocorrer nos próximos meses, o etanol tende a se valorizar durante a entressafra. Nesse período, quando a produção é menor, os fundamentos do setor ficam mais apertados — menos oferta, demanda constante — e os preços tendem a subir. Para os produtores que anteciparam vendas como proteção, esse cenário representaria uma aposta perdida. Para aqueles que mantêm estoque, seria uma oportunidade.
O que está em jogo é a viabilidade econômica do etanol como combustível competitivo. Se a gasolina cair significativamente, o consumidor racional escolherá o combustível fóssil. Isso afetaria não apenas o preço do etanol, mas toda a cadeia de produção de cana-de-açúcar — uma indústria que representa bilhões em investimentos e empregos no interior de São Paulo e além. Os próximos meses dirão se o mercado segue a lógica dos números internacionais ou se encontra um equilíbrio diferente.
Notable Quotes
Caso o reajuste da gasolina não ocorra nos próximos meses, o potencial de valorização do etanol durante a entressafra tende a aumentar, diante do quadro de fundamentos apertados no setor— Lucas Brunetti, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o etanol está tão vulnerável a uma queda na gasolina? Não deveria haver outras razões para escolher um biocombustível?
Teoricamente sim, mas no ponto de venda, o que importa é o preço por litro e a eficiência energética. O etanol rende menos quilômetros por litro que a gasolina. Então quando os preços ficam próximos, o consumidor escolhe gasolina. É pura matemática do bolso.
E por que os produtores estão antecipando vendas agora, se há chance do etanol se valorizar na entressafra?
Porque a incerteza é maior que a esperança. Se a gasolina cair 10% e o etanol despencar junto, quem esperou perde muito. Antecipando, eles garantem um preço hoje. É um seguro.
A oferta de etanol de milho não deveria compensar a falta de cana?
Não, porque o mercado prefere etanol de cana. É mais eficiente, tem melhor reputação ambiental. O etanol de milho é um complemento, não um substituto. E mesmo assim, não há milho em quantidade suficiente para preencher o vazio.
Então o Brasil está perdendo sua vantagem competitiva no etanol?
Não exatamente. O Brasil ainda produz etanol de cana mais barato que qualquer outro país. O problema é doméstico: a gasolina internacional está caindo, e o Brasil não consegue se desacoplar disso. É uma questão de mercado global, não de competência.
E se a gasolina não cair? O que muda?
Tudo. O etanol se torna atraente novamente. Os produtores que anteciparam vendas se arrependem, mas o setor respira. É por isso que Lucas Brunetti menciona a entressafra — é o último refúgio de esperança para quem apostou errado.