Estudo identifica genes que explicam por que alguns pacientes com Covid-19 ficam mais graves

Pacientes em terapia intensiva com Covid-19 enfrentam risco aumentado de inflamação pulmonar grave e morte quando portadores de variações genéticas específicas.
Identificar o momento em que as coisas deram errado para aquele indivíduo
Geneticista descreve como descobertas genéticas permitem medicina de precisão na Covid-19.

Desde que a pandemia começou, a medicina buscou compreender por que o mesmo vírus produz destinos tão distintos em corpos humanos. Um estudo com mais de 2.200 pacientes em terapia intensiva, publicado na Nature, revelou que variações em genes como TYK2, DPP9 e OAS podem determinar a diferença entre uma infecção leve e uma batalha pela sobrevivência. Essa descoberta não apenas ilumina a biologia da vulnerabilidade humana, mas aponta para tratamentos já existentes — como o Baricitinib — que poderiam ser reaproveitados para salvar vidas enquanto a pandemia persiste.

  • A pergunta que perseguiu médicos desde o início — por que o vírus mata alguns e poupa outros — finalmente começa a ter resposta genética concreta.
  • Variações em genes reguladores do sistema imunológico podem desencadear inflamação pulmonar devastadora, colocando certos pacientes em risco muito maior de morte.
  • A deficiência de interferon, presente em quase 15% dos casos críticos globais, dá ao vírus uma vantagem inicial que o sistema imunológico de alguns pacientes simplesmente não consegue superar.
  • Medicamentos anti-inflamatórios já aprovados, como o Baricitinib, surgem como candidatos promissores, mas aguardam confirmação em ensaios clínicos de grande escala.
  • Grupos étnicos minoritários aparecem desproporcionalmente entre os casos graves, tornando urgente a ampliação da pesquisa genômica para além das populações já estudadas.

Desde o início da pandemia, uma pergunta perseguiu médicos e cientistas: por que o mesmo vírus deixa uma pessoa assintomática enquanto outra precisa de respirador? Um estudo com mais de 2.200 pacientes internados em UTIs, publicado na Nature, começou a esboçar uma resposta. Pesquisadores mapearam o DNA desses pacientes e o compararam com o de pessoas saudáveis, encontrando variações genéticas específicas que aumentam drasticamente o risco de Covid-19 severa.

O projeto Genomicc, liderado por Kenneth Baillie em Edimburgo, identificou genes como TYK2, DPP9 e OAS como pontos críticos. O TYK2 controla a reatividade das células imunológicas; quando apresenta falhas, a resposta imune pode se exaurir e deixar os pulmões vulneráveis a uma inflamação devastadora. Uma descoberta promissora aponta para o Baricitinib — medicamento já usado para artrite reumatoide — que atua exatamente no mecanismo biológico comprometido por variações nesse gene. Baillie reconheceu o potencial, mas ressaltou a necessidade de testes clínicos em larga escala antes de qualquer conclusão.

Outra pista levou os cientistas ao interferon, molécula antiviral que ativa o sistema imunológico diante de infecções. Variações no gene IFNAR2 reduzem sua produção, dando ao vírus vantagem para se replicar rapidamente. Dois estudos na revista Science mostraram que deficiências de interferon estão por trás de quase 15% dos casos críticos globais. O professor Jean-Laurent Casanova, da Universidade Rockefeller, acredita que administrar interferon nos primeiros dias de infecção — antes do agravamento — poderia ser a chave para pacientes que não conseguem produzi-lo sozinhos.

A geneticista Vanessa Sancho-Shimizu, do Imperial College de Londres, descreveu as descobertas como um avanço em medicina de precisão: identificar exatamente onde as coisas deram errado para cada indivíduo. Ainda há lacunas — um grupo de genes no cromossomo 3 permanece biologicamente incompreendido — e Baillie anunciou a expansão do estudo, com ênfase em grupos étnicos minoritários, que aparecem desproporcionalmente entre os casos graves. O horizonte que se abre é transformador: em vez de tratar todos os pacientes graves da mesma forma, os médicos poderão identificar a falha genética específica de cada um e prescrever o tratamento mais adequado.

Desde o início da pandemia, uma pergunta perseguiu médicos e cientistas: por que o mesmo vírus deixa uma pessoa assintomática enquanto outra precisa de respirador? Um estudo robusto com mais de 2.200 pacientes internados em unidades de terapia intensiva, publicado na revista Nature, começou a desenhar uma resposta. Pesquisadores britânicos e internacionais mapearam o DNA desses pacientes graves e o compararam com o de pessoas saudáveis, descobrindo variações genéticas específicas que aumentam drasticamente o risco de Covid-19 severa.

O projeto, chamado Genomicc e liderado por Kenneth Baillie, consultor em medicina da Royal Infirmary em Edimburgo, identificou genes como TYK2, DPP9 e OAS como pontos críticos. O TYK2, em particular, controla um mecanismo que deixa as células imunológicas mais inflamadas e reativas. Quando esse gene apresenta imperfeições, a resposta imune pode se exaurir, deixando os pulmões vulneráveis a uma inflamação devastadora. Baillie ressaltou que mesmo com as vacinas em desenvolvimento, os médicos continuarão precisando de novos tratamentos por anos. "As vacinas devem diminuir drasticamente o número de casos, mas é provável que os médicos ainda precisem tratar a doença em cuidados intensivos por vários anos em todo o mundo."

Uma descoberta particularmente promissora aponta para medicamentos anti-inflamatórios já existentes. O Baricitinib, usado há anos para artrite reumatoide, atua exatamente no mecanismo biológico que falha em pacientes com variações no TYK2. Baillie reconheceu o potencial, mas com cautela: "Isso o torna esse remédio candidato muito plausível para novos tratamentos. Mas, é claro, precisamos fazer testes clínicos em grande escala para descobrir se isso se confirma ou não."

Outra pista genética levou os cientistas ao interferon, uma molécula antiviral potente que ativa o sistema imunológico quando uma infecção é detectada. Variações no gene IFNAR2 reduzem a produção de interferon, dando ao vírus uma vantagem inicial para se replicar rapidamente. Dois estudos publicados na revista Science reforçaram essa conexão, mostrando que deficiências de interferon estão por trás de quase 15% dos casos críticos de Covid-19 registrados internacionalmente, segundo o professor Jean-Laurent Casanova, da Universidade Rockefeller em Nova York. Embora um ensaio clínico da Organização Mundial da Saúde tenha concluído que o interferon não ajudou pacientes já em estado grave, Casanova acredita que o timing é essencial: administrado nos primeiros dias de infecção, o interferon poderia fornecer a molécula que o paciente não consegue produzir sozinho.

Vanessa Sancho-Shimizu, geneticista do Imperial College de Londres, descreveu as descobertas como um exemplo de medicina de precisão — a capacidade de identificar exatamente onde as coisas deram errado para cada indivíduo. "As descobertas desses estudos genéticos nos ajudarão a identificar caminhos moleculares específicos que podem ser alvos de intervenção terapêutica."

Mas o genoma ainda guarda segredos. O estudo Genomicc identificou um grupo de genes no cromossomo 3 fortemente ligado a sintomas graves, cuja biologia permanece incompreendida. Baillie anunciou que mais pacientes serão recrutados para a pesquisa, com ênfase especial em pessoas de grupos étnicos minoritários, que aparecem desproporcionalmente entre os casos graves. "Ainda há uma necessidade urgente de encontrar novos tratamentos para esta doença e temos que fazer as escolhas certas sobre os próximos tratamentos, porque não temos tempo para cometer erros."

Essas descobertas abrem um caminho novo: em vez de tratar todos os pacientes com Covid-19 grave da mesma forma, os médicos poderão em breve identificar qual falha genética está por trás da doença de cada um e prescrever o tratamento mais adequado. A corrida contra o tempo continua.

As vacinas devem diminuir drasticamente o número de casos, mas é provável que os médicos ainda precisem tratar a doença em cuidados intensivos por vários anos em todo o mundo.
— Kenneth Baillie, consultor em medicina da Royal Infirmary em Edimburgo
É realmente um exemplo de medicina de precisão, no qual podemos realmente identificar o momento em que as coisas deram errado para aquele indivíduo.
— Vanessa Sancho-Shimizu, geneticista do Imperial College de Londres
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que alguns genes tornam a Covid-19 tão mais perigosa para certas pessoas?

Model

Porque esses genes controlam como o sistema imunológico responde ao vírus. Se um gene como o TYK2 tem uma variação, a resposta imune pode entrar em colapso, deixando os pulmões inflamados demais ou não inflamados o suficiente.

Inventor

E o interferon que aparece no estudo — por que é tão importante?

Model

É a molécula que o corpo usa para avisar ao sistema imunológico que há um invasor. Se você não produz interferon suficiente nos primeiros dias, o vírus tem tempo de se multiplicar rapidamente antes da defesa chegar.

Inventor

Então medicamentos como o Baricitinib poderiam ajudar?

Model

Teoricamente sim. Ele já funciona para artrite reumatoide porque controla exatamente a inflamação que fica descontrolada em alguns pacientes com Covid grave. Mas ninguém sabe ainda se vai funcionar aqui.

Inventor

Por que os pesquisadores estão tão interessados em recrutar pessoas de grupos étnicos minoritários?

Model

Porque esses grupos aparecem desproporcionalmente entre os casos graves. Se as variações genéticas que aumentam o risco são diferentes em populações diferentes, os tratamentos precisam funcionar para todos.

Inventor

Isso muda a forma como os médicos vão tratar a Covid no futuro?

Model

Completamente. Em vez de dar o mesmo tratamento para todos, poderão fazer um teste genético rápido e prescrever exatamente o que aquele paciente precisa. É medicina de precisão.

Inventor

Mas ainda há mistérios, certo?

Model

Muitos. Há genes no cromossomo 3 que claramente aumentam o risco, mas ninguém entende por quê. A ciência está apenas começando.

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