Reduzir em 40% o número de sessões amplia a capacidade de atendimento
Estudo HYPNO com 792 pacientes em 10 países comprova que reduzir sessões de radioterapia de 33 para 20 não compromete eficácia no câncer de cabeça e pescoço avançado. Brasil contribuiu com 148 pacientes (19% da amostra) através do Hospital de Amor em Barretos, consolidando pesquisa oncológica nacional em revista de alto impacto internacional.
- Estudo HYPNO com 792 pacientes em 10 países comprova eficácia equivalente entre 20 e 33 sessões
- Brasil contribuiu com 148 pacientes (19% da amostra) através do Hospital de Amor em Barretos
- Redução de 40% no número de sessões mantém taxas semelhantes de controle da doença e efeitos colaterais
Pesquisa de fase 3 publicada em revista internacional demonstra que 20 sessões de radioterapia mantêm eficácia equivalente a 33 sessões no tratamento do câncer de cabeça e pescoço localmente avançado, com participação significativa de instituição brasileira.
Julho é o mês dedicado à conscientização sobre os cânceres que afetam cabeça e pescoço, e este ano traz consigo uma notícia que pode mudar a forma como milhares de pacientes recebem tratamento. Um estudo de fase 3 chamado HYPNO, publicado no International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics, demonstrou que reduzir o número de sessões de radioterapia de 33 para 20 não compromete a eficácia no tratamento de tumores localmente avançados nessa região — aqueles que já ultrapassaram o local onde surgiram e afetam estruturas vizinhas ou gânglios linfáticos, mas ainda não se espalharam para outras partes do corpo.
A pesquisa acompanhou 792 pacientes em 12 centros distribuídos por 10 países de renda média e baixa ao longo de aproximadamente três anos e meio. O Brasil teve participação significativa nesse trabalho: o Hospital de Amor, em Barretos, no interior de São Paulo, foi responsável pela inclusão de 148 pacientes — cerca de 19% de toda a amostra estudada, a segunda maior contribuição entre todos os centros participantes. O radio-oncologista Alexandre Arthur Jacinto, da instituição, é o único pesquisador brasileiro a constar como autor do artigo publicado.
Ao final do acompanhamento, os pesquisadores observaram algo notável: as taxas de controle local da doença, sobrevida global e ocorrência de efeitos colaterais graves foram semelhantes entre os dois grupos — aquele que recebeu 20 sessões e aquele que recebeu 33. Para Jacinto, membro da Sociedade Brasileira de Radioterapia, os resultados têm importância especial para contextos onde o acesso ao tratamento oncológico enfrenta limitações. Reduzir em 40% o número de sessões significa também diminuir o tempo total de tratamento, o que traz mais comodidade aos pacientes e pode ampliar a capacidade de atendimento dos serviços de radioterapia, particularmente em sistemas de saúde que lidam com restrições de infraestrutura.
A radioterapia é uma das principais modalidades terapêuticas no tratamento do câncer. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 60% dos pacientes oncológicos precisarão receber radioterapia em algum momento de sua jornada de tratamento, seja isoladamente ou combinada com cirurgia, quimioterapia, imunoterapia ou outras abordagens. Nos tumores que acometem boca, língua, garganta, faringe e laringe, a radioterapia desempenha papel crucial tanto no controle da doença quanto na preservação de funções essenciais como fala, mastigação, deglutição e respiração. A tecnologia mais utilizada atualmente é a Radioterapia de Intensidade Modulada (IMRT), que permite moldar os feixes de radiação ao formato exato do tumor, direcionando doses mais elevadas à área doente enquanto estruturas saudáveis ao redor recebem menor exposição.
Apesar dos avanços tecnológicos, especialistas alertam que o acesso à radioterapia ainda representa um desafio em diversas regiões do país. A concentração dos serviços nos grandes centros faz com que muitos pacientes precisem percorrer longas distâncias diariamente durante semanas para realizar o tratamento. Nesse cenário, estratégias capazes de reduzir o número de sessões beneficiam tanto os pacientes quanto a organização dos serviços de saúde.
Os cânceres de cabeça e pescoço compreendem um grupo de tumores que podem surgir em diferentes estruturas — cavidade oral, faringe, laringe, tireoide, seios paranasais, glândulas salivares e nariz. Embora acometam regiões distintas, muitos compartilham fatores de risco importantes, especialmente tabagismo e consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Nos últimos anos, a infecção pelo HPV também passou a desempenhar papel relevante, principalmente nos tumores de orofaringe.
A detecção precoce continua sendo um dos principais desafios desses cânceres. Wilson de Almeida Jr, presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia, aponta que muitos pacientes apresentam sinais e sintomas nas fases iniciais, mas frequentemente esses sinais são confundidos com problemas benignos, atrasando o diagnóstico. Diferentemente de outros tipos de câncer, não há um método de rastreamento estabelecido para a população em geral. Consultas regulares com médicos, dentistas e estomatologistas podem contribuir para identificar alterações suspeitas. Feridas na boca que não cicatrizam por mais de duas semanas, rouquidão persistente, dificuldade para engolir, dor de garganta prolongada, sangramentos sem causa aparente ou caroços no pescoço merecem investigação. Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de sucesso do tratamento e menores tendem a ser os impactos na qualidade de vida do paciente.
Citações Notáveis
Além de reduzir em cerca de 40% o número de sessões, a estratégia também diminui o tempo total de tratamento. Isso representa mais comodidade para os pacientes e pode contribuir para ampliar a capacidade de atendimento dos serviços de radioterapia— Alexandre Arthur Jacinto, radio-oncologista do Hospital de Amor
Feridas na boca que não cicatrizam por mais de duas semanas, rouquidão persistente, dificuldade para engolir, dor de garganta prolongada, sangramentos sem causa aparente ou caroços no pescoço merecem investigação— Wilson de Almeida Jr, presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que reduzir de 33 para 20 sessões faz tanta diferença se o resultado é o mesmo?
Porque para um paciente que precisa se deslocar diariamente até um centro de radioterapia, essa redução de 40% significa semanas a menos longe de casa, menos dias de trabalho perdidos, menos desgaste físico e emocional durante um período já muito difícil.
E para o sistema de saúde?
Significa que um mesmo equipamento e uma mesma equipe conseguem atender mais pacientes. Em países onde há fila de espera e infraestrutura limitada, isso é a diferença entre alguém começar o tratamento em duas semanas ou em dois meses.
O estudo foi feito em países pobres. Isso muda algo?
Muda tudo. Porque prova que a inovação não precisa ser cara ou sofisticada para funcionar. É uma estratégia que qualquer centro pode implementar imediatamente, sem investimento em tecnologia nova.
E os efeitos colaterais? Não pioram com doses mais concentradas?
Não. O estudo acompanhou os pacientes por três anos e meio e não encontrou diferença. A radioterapia moderna, com a tecnologia de modulação de intensidade, consegue ser precisa o suficiente para isso.
Qual é o próximo passo?
Agora é questão de implementação. Os resultados estão publicados em uma revista de alto impacto. O desafio é convencer os sistemas de saúde a adotar o protocolo e treinar as equipes para isso.