Estudo Gallup revela que trabalhadores brasileiros enfrentam estresse, tristeza e raiva

Trabalhadores brasileiros sofrem impactos na saúde mental e qualidade de vida, com efeitos que se estendem da esfera profissional para a vida familiar e pessoal.
As emoções são apenas uma informação sobre conforto ou desconforto
Lucia Barros reposiciona raiva, tristeza e estresse não como sentimentos negativos, mas como sinais necessários para impulsionar mudanças.

Brasil fica em 7º lugar em estresse na América Latina, mas sobe para 4º em raiva e tristeza entre trabalhadores. Fatores externos como precarização do trabalho, pejotização e trauma da pandemia intensificam emoções desafiadoras nos profissionais.

  • 46% dos trabalhadores brasileiros vivenciam estresse diário
  • Brasil ocupa 4º lugar em raiva (18%) e tristeza (25%) na América Latina
  • 128 mil funcionários em 160 países foram entrevistados pela Gallup
  • Pejotização e precarização do trabalho intensificam emoções desafiadoras

Pesquisa da Gallup com 128 mil funcionários em 160 países revela que 46% dos trabalhadores brasileiros vivenciam estresse diário, ocupando quarto lugar em raiva e tristeza na América Latina.

Weslen Araújo, psicólogo de 34 anos, tinha um ritual que se repetia quase todos os dias. Cinco minutos antes de chegar ao trabalho em uma casa de recuperação para dependentes químicos em Rondonópolis, Mato Grosso, ele parava à sombra de uma árvore e rezava pedindo um dia tranquilo, sem estresse, sem situações difíceis. Tentava acalmar a pressão que subia conforme se aproximava do portão. O que o atormentava era a sobrecarga de responsabilidades e a frustração de não ser reconhecido pelos seus esforços. "Estava estressado porque tinha que resolver muita coisa, triste por não ser promovido e com raiva ao mesmo tempo", conta. Esse sentimento, diz ele, só cresceu dentro dele.

Weslen não está sozinho. Uma pesquisa da Gallup, consultoria especializada em análise comportamental no trabalho, entrevistou 128 mil funcionários em mais de 160 países para entender como se sentem em relação ao trabalho e suas vidas. Os dados revelam que uma parcela considerável de trabalhadores brasileiros enfrenta exatamente o que Weslen vivencia: estresse, tristeza e raiva. Quando perguntados se vivenciaram estresse no dia anterior, 46% dos trabalhadores brasileiros responderam que sim. Apesar de esse número representar quase metade dos entrevistados, o Brasil fica em sétimo lugar entre os países da América Latina nesse quesito. Bolívia (55%), República Dominicana (51%), Costa Rica (51%), Equador (50%), El Salvador (50%) e Peru (48%) apresentam índices ainda maiores. Apenas Paraguai (34%) e Jamaica (35%) têm trabalhadores menos estressados.

Mas quando o assunto muda para raiva e tristeza, o Brasil sobe três posições no ranking. Em raiva, os brasileiros (18%) perdem apenas para Bolívia (25%), Jamaica (24%) e Peru (19%), enquanto Uruguai e México ficam com os menores índices, 9% e 7% respectivamente. Em tristeza, trabalhadores da Bolívia (32%), El Salvador (26%) e Jamaica (26%) aparecem na frente dos brasileiros (25%). Apenas Paraguai (34%) e Panamá (15%) apresentam números diferentes.

Especialistas ouvidos pela reportagem concordam que fatores externos impactam e intensificam essas emoções, interferindo nas esferas de subjetividade do trabalhador. Nilton Ota, professor do departamento de Psicologia Social e do Trabalho da USP, explica que é preciso levar em consideração a complexidade dos sentimentos e dos ambientes em que estão inseridos. As emoções variam culturalmente de país para país e são diretamente influenciadas pelo contexto em que ocorrem: a dinâmica familiar, o regime de trabalho, as mudanças econômicas. "O trabalho molda aspectos importantes da subjetividade, que não ficam restritos ao ambiente profissional, mas se estendem à vida privada e familiar", afirma. Um problema no trabalho pode impactar a dinâmica familiar, atribuindo novos significados às emoções envolvidas. No Brasil especificamente, o aumento da pejotização é um fator relacionado a vulnerabilidades, pois interrompe a continuidade da proteção ao trabalhador. Sem acesso a direitos trabalhistas, muitos circulam pelo mercado de forma instável, alternando entre emprego e desemprego. Ota ressalta que políticas públicas conduzidas pelo Estado são essenciais para garantir essa proteção contínua.

Além disso, a pandemia de Covid-19 ainda influencia a saúde mental dos trabalhadores. "Mesmo após dois anos, o trauma coletivo permanece", afirma Lucia Barros, criadora do primeiro curso de mindfulness e ciência da felicidade na ESPM. Barros também é autora do livro Filosofia de Bem Viver e enfatiza que é importante não rotular emoções como raiva, tristeza e estresse como negativas, mas como desafiadoras ou desconfortáveis. "Vivemos numa sociedade que acredita que todos devem estar alegres o tempo todo, o que é completamente irreal", diz. "As emoções são apenas uma informação, que indica se uma situação é confortável ou desconfortável. Elas são necessárias para impulsionar mudanças."

O psiquiatra Arthur Danila, coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explica que o estresse é causado pelo hormônio cortisol, como uma reação natural do corpo. Porém, passa a ser um problema emocional quando se torna crônico ou mal administrado. "A desregulação do estresse pode nos deixar em um estado ineficiente, e a raiva e a tristeza acabam surgindo como o resultado final desse estresse mal gerido", afirma. Uma pessoa estressada vive em nível de alerta constante, preocupada, mais irritada e mais triste. Danila também aponta que o estresse tende a ser menos reconhecido, o que talvez explique por que o Brasil ocupe o quarto lugar no ranking de tristeza e raiva entre trabalhadores, mas o sétimo em estresse.

Práticas como mindfulness, meditação e gerenciamento da atenção podem ajudar a reduzir o impacto negativo desses sentimentos no dia a dia. Barros ressalta que a colaboração e o cultivo de relacionamentos saudáveis são fundamentais para promover bem-estar. "Encontrar e nutrir um propósito de vida, especialmente no trabalho e nas conexões sociais, pode proporcionar um sentido de realização e felicidade", afirma. Para trabalhadores como Weslen, que enfrentam diariamente a pressão de responsabilidades não reconhecidas, essas estratégias podem fazer a diferença entre um dia de paz e mais um dia de luta contra emoções que crescem silenciosamente.

O trabalho molda aspectos importantes da subjetividade, que não ficam restritos ao ambiente profissional, mas se estendem à vida privada e familiar
— Nilton Ota, professor de Psicologia Social e do Trabalho da USP
A desregulação do estresse pode nos deixar em um estado ineficiente, e a raiva e a tristeza acabam surgindo como o resultado final desse estresse mal gerido
— Arthur Danila, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que você acha que o Brasil fica em sétimo lugar em estresse, mas sobe para quarto em raiva e tristeza?

Model

Acho que o estresse é mais invisível. As pessoas não reconhecem quando estão estressadas da mesma forma que reconhecem quando estão com raiva ou tristes. O estresse é silencioso, cresce por dentro. A raiva e a tristeza são mais óbvias, mais fáceis de nomear.

Inventor

E o que a pejotização tem a ver com isso tudo?

Model

Tudo. Quando você não tem direitos trabalhistas, você vive em instabilidade constante. Emprego, desemprego, emprego de novo. Essa trajetória ioiô desgasta. Você não consegue planejar, não consegue descansar de verdade.

Inventor

Weslen rezava antes de entrar no trabalho. Isso é comum?

Model

Muito comum. As pessoas criam rituais para se proteger, para tentar controlar o que não conseguem controlar. É uma forma de lidar com a ansiedade. Mas o ritual não resolve o problema real.

Inventor

Então mindfulness resolve?

Model

Ajuda, mas não é solução mágica. Mindfulness te ensina a observar a emoção sem ser consumido por ela. Mas se o ambiente de trabalho é tóxico, se você não tem segurança, se não é reconhecido, nenhuma meditação vai mudar isso.

Inventor

O que mudaria as coisas de verdade?

Model

Políticas públicas que protejam o trabalhador. Ambientes que reconheçam esforço. Relacionamentos saudáveis. E parar de achar que estar triste ou com raiva é errado. Essas emoções estão dizendo algo importante.

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