Estudo revela por que fome causa irritabilidade e como controlar o humor

A fome é uma experiência construída pelo cérebro a partir de vários sinais
Médico nutrólogo explica que irritabilidade por fome vai além da glicemia e envolve percepção corporal.

A irritabilidade por fome (hangry) é mediada pela consciência de estar com fome, não diretamente pela glicemia, segundo estudo de neurocientistas. Pessoas com melhor 'interocepção' – capacidade de interpretar sinais internos do corpo – apresentam menor oscilação emocional relacionada à fome.

  • Estudo publicado em fevereiro de 2026 na The Lancet eBioMedicine
  • Interocepção — capacidade de interpretar sinais internos — é mediadora entre glicose e humor
  • Pessoas com sobrepeso ou obesidade têm precisão interoceptiva reduzida
  • Associação entre fome e irritabilidade é mais forte em mulheres

Pesquisa publicada na The Lancet eBioMedicine mostra que a irritabilidade causada pela fome depende da percepção consciente do estado de fome, não apenas dos níveis de glicose. A capacidade de 'escutar' sinais corporais é chave para regular emoções.

Há um nome para aquele momento em que a fome se transforma em raiva: hangry. A palavra é uma fusão do inglês — hungry e angry — e descreve um estado que a maioria das pessoas reconhece na própria experiência. Mas o que causa esse fenômeno é mais sutil do que parece. Um estudo publicado em fevereiro na revista The Lancet eBioMedicine oferece uma resposta que muda a forma como entendemos a relação entre o corpo vazio e o humor irritado.

A pesquisa partiu de uma pergunta simples: a irritabilidade vem dos níveis baixos de glicose no sangue, ou vem da percepção consciente de que se está com fome? Os resultados apontam para a segunda opção. A glicose influencia as emoções, sim, mas de forma indireta — o sentimento de fome é o intermediário. Na prática, se você não percebe que está com fome, a queda da glicemia tem pouco impacto sobre o seu humor. O neurocientista Nils Kroemer, autor correspondente do artigo, explica que em adultos o estado de hangry é melhor explicado pela percepção consciente da fome. Isso ajuda a contextualizar as crises de irritabilidade em crianças pequenas, que ainda não desenvolveram essa capacidade de interpretação. Aprender a atribuir a irritabilidade a um sinal metabólico é uma ferramenta de regulação emocional que aprimoramos conforme crescemos.

O estudo introduz um conceito central para a saúde mental: a interocepção, que é a capacidade do sistema nervoso de sentir e interpretar sinais internos do organismo. Pessoas com maior precisão interoceptiva — aquelas que "escutam" melhor o próprio corpo — apresentam menor oscilação emocional. Essa consciência corporal funciona como um mecanismo de proteção. Se você entende que uma piora no humor é motivada pela fome, pode simplesmente comer algo e o humor melhorará. O risco surge na desconexão: se o indivíduo não identifica a origem do desconforto, o cérebro pode atribuir o mal-estar a causas externas, gerando conflitos interpessoais ou angústia sem motivo aparente.

O médico nutrólogo Diogo Toledo, do Hospital Israelita Einstein, resume o achado: a fome não é só um número na glicemia. Ela é uma experiência construída pelo cérebro a partir de vários sinais ao mesmo tempo. Algumas atitudes podem ajudar a "escutar" melhor o próprio corpo. Uma delas é saber diferenciar os tipos de fome. A fome física surge aos poucos e aceita qualquer alimento. A fome emocional aparece do nada e quase sempre exige algo muito palatável — um doce, um salgadinho, algo que traga conforto imediato. Outras ferramentas incluem manter um diário alimentar, anotando o estado emocional antes de comer e o nível de fome numa escala de zero a dez, e práticas de atenção plena durante as refeições, como comer sem tela, mastigar devagar e prestar atenção na progressão da saciedade.

A pesquisa também revelou que indivíduos com índice de massa corporal mais alto tendem a apresentar uma precisão interoceptiva reduzida. O paciente com obesidade frequentemente não sabe dizer se está com fome ou não. Come porque é hora de comer, porque o alimento está na frente, porque os outros estão comendo. Os sinais internos foram ficando cada vez mais difíceis de ouvir. Essa desconexão tem base biológica: o excesso de gordura visceral gera um estado inflamatório que interfere nos circuitos cerebrais de regulação do apetite, como a resistência à leptina, hormônio da saciedade. Reverter esse quadro é possível, mas leva tempo e requer uma abordagem além da prescrição alimentar.

A associação entre estado metabólico e humor mostrou-se mais forte entre as mulheres, o que estaria associado à fisiologia hormonal. Ao longo do ciclo menstrual, os níveis de estrogênio e progesterona variam bastante e essas variações afetam diretamente a sensibilidade à insulina e o apetite. Por isso, para mulheres em idade fértil, o planejamento alimentar deve considerar o ciclo como uma variável ativa para garantir estabilidade emocional.

Para evitar que a vontade de comer se transforme em irritabilidade ou episódios de compulsão, a chave é a estabilidade glicêmica. Evite consumir fontes de carboidrato isoladas: combine sempre com proteína, fibra e gordura de boa qualidade. Em vez de comer só um pão com manteiga, adicione ovos, queijos ou alguma fonte de proteína vegetal. Inclua fontes proteicas — elas são o macronutriente com maior poder de saciedade e incluem ovos, carnes, leguminosas e laticínios naturais. Para rotinas intensas, shakes de proteína são estratégias válidas para evitar o improviso alimentar. Preste atenção aos sinais difusos: identifique a fome antes do ronco no estômago. Cansaço súbito, dificuldade de concentração, sensação de frio nas extremidades e irritação sem causa são sinais de que o cérebro já está operando com baixa energia. Aposte em fibras e gorduras boas — aveia, chia, abacate e azeite retardam a absorção de açúcar e prolongam a sensação de saciedade.

Em adultos, o estado de hangry é mais bem explicado pela percepção consciente da fome, o que nos ajuda a contextualizar melhor as conhecidas crises de irritabilidade em crianças pequenas
— Nils Kroemer, neurocientista e autor correspondente do estudo
A fome não é só um número na glicemia. Ela é uma experiência construída pelo cérebro a partir de vários sinais ao mesmo tempo
— Diogo Toledo, médico nutrólogo do Hospital Israelita Einstein
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que a glicose baixa não causa irritabilidade diretamente? Parece contraditório.

Model

Porque o corpo não reage apenas a números químicos. Ele reage à história que o cérebro conta sobre esses números. Se você não sabe que está com fome, o cérebro não interpreta a queda de glicose como um problema que merece raiva.

Inventor

Então é tudo psicológico?

Model

Não. É biológico e psicológico ao mesmo tempo. A glicose baixa cria as condições, mas a percepção consciente é o gatilho. É por isso que crianças pequenas ficam irritadas e adultos conseguem se controlar — aprendemos a reconhecer o sinal.

Inventor

E as pessoas com obesidade? Por que elas perdem essa capacidade?

Model

A inflamação crônica causada pelo excesso de gordura visceral danifica os circuitos cerebrais que interpretam sinais de fome. É como se o corpo gritasse, mas ninguém conseguisse ouvir mais.

Inventor

Isso é reversível?

Model

Sim, mas não é rápido. Requer mais do que apenas comer menos. Requer reaprender a escutar o próprio corpo, e isso leva tempo.

Inventor

E as mulheres? Por que o ciclo menstrual importa?

Model

Os hormônios sexuais mudam como o corpo responde à insulina e ao apetite. Ignorar isso é como tentar dirigir um carro sem saber que o combustível muda de composição a cada semana.

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