Vacinar em ambiente de saúde, onde há resposta imediata à reação
Em Belo Horizonte, entre 2024 e 2025, pesquisadores identificaram uma frequência de reações alérgicas à vacina Qdenga superior à registrada em ensaios clínicos e no restante do país — um achado que não questiona a eficácia do imunizante, mas convida à reflexão sobre a importância da vigilância pós-vacinação. Das 146 mil doses aplicadas em crianças, 28 apresentaram hipersensibilidade, todas com recuperação completa, lembrando que a segurança coletiva se constrói também na atenção cuidadosa ao indivíduo. A ciência, aqui, não encontrou uma razão para recuar, mas uma razão para observar com mais rigor.
- A taxa de reações alérgicas em Belo Horizonte foi quase cinco vezes maior do que a registrada no restante do Brasil — 191,6 contra 36,4 casos por milhão de doses.
- Nove crianças desenvolveram anafilaxia e duas sofreram choque anafilático, com 12 casos surgindo nos primeiros 15 minutos após a injeção.
- A Takeda reagiu com cautela, argumentando que o recorte geográfico e temporal limitado não altera o perfil de segurança global da Qdenga.
- Pesquisadores suspeitam de subnotificação em outras regiões, sugerindo que Belo Horizonte pode ter detectado mais casos simplesmente por ter uma vigilância mais estruturada.
- Apesar dos achados, os autores do estudo defendem a continuidade da vacinação e reforçam que a aplicação deve ocorrer em ambientes preparados para atendimento imediato.
Entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025, Belo Horizonte aplicou 146.115 doses da vacina Qdenga em crianças de 6 a 14 anos. Em meio a essa campanha, 28 crianças apresentaram reações de hipersensibilidade — número que chamou a atenção dos profissionais de saúde e motivou uma investigação formal, publicada na revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.
Dos 28 casos, 9 foram classificados como anafilaxia e 2 como choque anafilático. A idade média das crianças afetadas era de 9,4 anos. Todas as reações ocorreram após a primeira dose, e quase 70% se manifestaram dentro de meia hora. Apesar da gravidade de alguns episódios, todas as crianças se recuperaram completamente em até 48 horas após atendimento médico.
A taxa calculada foi de 191,6 reações por milhão de doses em Belo Horizonte — comparada a 36,4 por milhão no restante do país. O infectologista Alexandre Sampaio Moura, autor correspondente do estudo, explicou que profissionais da prefeitura notaram durante a campanha que o número de reações parecia acima do esperado. Ao revisar as notificações, confirmaram uma incidência real de hipersensibilidade superior à de outras vacinas do calendário infantil. Moura também apontou que a ausência de um perfil predominante entre os pacientes e o envolvimento de diferentes lotes dificultavam a identificação de uma causa específica.
A Takeda respondeu com cautela, reafirmando que os dados de um recorte geográfico limitado não alteram o perfil de segurança global da Qdenga, e que a ocorrência de anafilaxia já estava prevista na bula. A fabricante reforçou a recomendação de que a vacina seja aplicada exclusivamente em ambientes de saúde estruturados, com equipes e insumos prontos para emergências.
Moura foi enfático ao dizer que o objetivo do estudo não era desacreditar o imunizante, mas aumentar a consciência sobre o acompanhamento pós-injeção. Ele também levantou a hipótese de subnotificação em outras regiões, onde a vigilância pode ser menos preparada. Sua conclusão foi direta: a Qdenga continua sendo uma ferramenta importante no combate à dengue no Brasil, e deve seguir sendo usada — com atenção redobrada.
Pesquisadores em Belo Horizonte descobriram algo que os deixou intrigado: a vacina Qdenga contra a dengue estava provocando reações alérgicas em crianças com uma frequência notavelmente maior do que aquela registrada nos ensaios clínicos e nos primeiros estudos após o lançamento do imunizante. Entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025, foram aplicadas 146.115 doses da vacina da Takeda em crianças de 6 a 14 anos na capital mineira. Desse total, 104.286 eram primeiras doses e 41.829 eram segundas doses. Em meio a esses números, 28 crianças apresentaram reações de hipersensibilidade — um resultado que chamou a atenção dos pesquisadores e dos profissionais de saúde que acompanhavam a campanha.
O estudo, publicado na revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical no final de junho, revelou que dos 28 casos identificados, 9 foram classificados como anafilaxia e 2 como choque anafilático. A idade média das crianças que tiveram reações foi de 9,4 anos. Um detalhe importante: todas as reações adversas ocorreram após a primeira dose do imunizante. Apesar da gravidade de alguns casos, todas as crianças receberam atendimento médico e se recuperaram completamente em até 48 horas. Doze das 28 reações surgiram nos primeiros 15 minutos após a injeção, e quase 70% delas manifestaram-se dentro de meia hora.
Quando os pesquisadores converteram esses números em taxas, o padrão ficou ainda mais claro. A incidência de eventos adversos pós-vacinação em Belo Horizonte foi de 191,6 casos por milhão de doses — ou aproximadamente 1 a cada 10 mil doses. Para os casos especificamente classificados como anafilaxia, a taxa chegou a 61,6 por milhão. Em comparação, o restante do país registrou uma incidência de 36,4 casos por milhão de doses. A diferença era significativa o suficiente para justificar uma investigação mais profunda.
Alexandre Sampaio Moura, infectologista da Faculdade da Santa Casa e autor correspondente do estudo, explicou como a pesquisa começou. Profissionais de saúde da Prefeitura de Belo Horizonte notaram durante a campanha de vacinação que o número de reações parecia estar acima do esperado. Os pesquisadores então revisaram todas as notificações registradas no sistema e-SUS Notifica e reclassificaram os casos usando critérios padronizados de anafilaxia. "Inicialmente, pensamos que podia ser pelo fato de ser uma vacina nova, então há um cuidado maior em relatar eventos adversos. Mas ao tabular as notificações verificamos que realmente havia uma incidência maior de hipersensibilidade do que nas vacinas que estão habitualmente no calendário de vacinação infantil", disse Moura. O pesquisador também observou que, como os casos foram distribuídos entre diferentes pacientes sem um perfil predominante e envolveram diversos lotes da vacina, era difícil identificar um padrão específico para as reações alérgicas.
A Takeda respondeu ao estudo com cautela. Em nota enviada à imprensa, a fabricante recomendou cuidado na interpretação dos dados, destacando que se tratava de um recorte temporal e geográfico limitado. A empresa enfatizou que esses dados, isoladamente, não alteravam o perfil de segurança da Qdenga, que permanecia sustentado por evidências clínicas, acompanhamento de longo prazo e estudos de vida real conduzidos em diferentes cenários. A farmacêutica também ressaltou que a ocorrência de anafilaxia já estava prevista na bula do imunizante e que todos os casos foram acompanhados de perto pela empresa. A recomendação da Takeda era que a aplicação ocorresse exclusivamente em ambientes de saúde estruturados e regulamentados, com equipes habilitadas e insumos obrigatórios para pronto atendimento.
Moura reforçou que o objetivo do estudo não era desacreditar a eficácia da vacina ou levantar suspeitas sobre sua segurança, mas sim trazer maior conscientização sobre a importância do acompanhamento pós-injeção, especialmente após a primeira dose. Ele também apontou que provavelmente havia subnotificação de reações adversas em outras regiões, uma vez que uma vigilância mais equipada e preparada para observar os efeitos relacionados à vacinação era o que garantiria a qualidade das notificações. Apesar dos achados, Moura defendeu que a vacina continuasse sendo usada. "É uma ferramenta importante na minimização do impacto da dengue no nosso país", afirmou.
A Qdenga é formulada com os quatro sorotipos da dengue e aplicada em duas doses subcutâneas com intervalo de três meses. A aprovação pela Anvisa foi para pessoas de 4 a 60 anos, mas o Ministério da Saúde iniciou a aplicação em crianças e adolescentes de 10 a 14 anos — faixa etária que concentra um número significativo de hospitalizações por dengue. Belo Horizonte ampliou a faixa etária para incluir crianças a partir de 6 anos. A eficácia geral da vacina foi de 80% contra casos confirmados e 90,4% na redução de hospitalizações, embora a proteção variasse por sorotipo: 69,8% contra o tipo 1, 95,1% contra o tipo 2, abaixo de 50% contra o tipo 3 e inconclusiva para o tipo 4. Até o final de 2025, foram aplicadas 10 milhões das 15 milhões de doses previstas inicialmente. A Takeda assinou um novo contrato para fornecer 9 milhões de doses em 2026 e outros 9 milhões até o final de 2027.
Citas Notables
Realmente havia uma incidência maior de hipersensibilidade do que nas vacinas que estão habitualmente no calendário de vacinação infantil— Alexandre Sampaio Moura, infectologista e autor do estudo
A gente defende que a vacina continue sendo usada, é uma ferramenta importante na minimização do impacto da dengue no nosso país— Alexandre Sampaio Moura
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que os pesquisadores em Belo Horizonte decidiram investigar especificamente as reações alérgicas?
Profissionais de saúde da prefeitura notaram durante a campanha de vacinação que estavam vendo mais reações do que o esperado. Não era uma suspeita teórica — era algo que estavam observando na prática, dia após dia.
E quando eles olharam para os dados, o que encontraram?
Confirmaram que a incidência era realmente maior em Belo Horizonte do que em outras partes do país. Não era um artefato de melhor vigilância ou relatório — era uma diferença genuína nos números.
Mas todas as crianças se recuperaram, certo?
Sim, todas tiveram recuperação completa em até 48 horas. O ponto é que 12 das 28 reações aconteceram nos primeiros 15 minutos. Se uma criança estivesse em casa ou em um lugar sem equipe médica preparada, isso poderia ter sido muito diferente.
Então o estudo está dizendo que a vacina é perigosa?
Não. Os pesquisadores deixam claro que não é isso. A vacina continua sendo uma ferramenta importante contra a dengue. O que eles estão dizendo é: saibam que isso pode acontecer, preparem-se para isso, vacinem em lugares onde há profissionais prontos para responder.
A Takeda concordou com as conclusões?
A Takeda pediu cautela. Disse que esses dados, isoladamente, não mudam o perfil de segurança da vacina, que a anafilaxia já estava prevista na bula, e que todos os casos foram acompanhados. É uma resposta defensiva, mas não é uma negação dos fatos.
O que vem depois? Isso muda algo na forma como a vacina é aplicada?
Ainda não sabemos. O estudo foi publicado há pouco. O que está claro é que há uma conversa acontecendo entre pesquisadores, a agência reguladora e a fabricante sobre vigilância pós-vacinação e preparação das equipes de saúde.