O zumbido é real, mas vem de dentro
Durante décadas, pessoas em vários continentes descreveram um zumbido grave e persistente que ninguém conseguia localizar nem explicar — o chamado The Hum. Investigadores noruegueses propõem agora que a origem pode estar dentro do próprio ser humano: uma forma de acufenos subjetivos de baixa frequência gerados pelo sistema auditivo, e não por qualquer fonte externa. A descoberta não encerra o mistério por completo, mas devolve às pessoas afetadas algo que lhes faltava há muito — uma explicação plausível e a certeza de que não estão sozinhas.
- Há décadas, pessoas em todo o mundo ouvem um zumbido grave e inexplicável que perturba o sono e a vida quotidiana, sem que ninguém ao redor o consiga confirmar.
- A raridade do fenómeno deixou os afetados a sentir-se isolados e desacreditados, enquanto as teorias oscilavam entre causas industriais, governamentais e até extraterrestres.
- Investigadores noruegueses testaram 28 participantes alemães e descartaram a hipótese de sensibilidade auditiva excecional como explicação principal, estreitando o campo de possibilidades.
- A equipa aponta agora para acufenos subjetivos de baixa frequência — sons gerados pelo próprio sistema auditivo — como a explicação mais provável para a maioria dos casos.
- A descoberta oferece alívio e validação a quem sofria em silêncio, mas a investigação continua, pois causas ambientais não foram totalmente excluídas.
Durante décadas, pessoas espalhadas por vários continentes descreveram a mesma experiência: um zumbido grave e persistente, semelhante ao ronco distante de um motor diesel, que ecoa durante a noite sem origem identificável. O fenómeno, conhecido como The Hum, ganhou atenção pública em Bristol nos anos 1970 e rapidamente surgiram relatos idênticos noutras cidades britânicas, norte-americanas, australianas e europeias. Apesar da dispersão geográfica, apenas uma pequena fração da população consegue ouvi-lo, deixando os afetados a sentir-se isolados e incompreendidos.
Ao longo dos anos, investigadores consideraram uma longa lista de culpados externos — equipamentos industriais, turbinas eólicas, vibrações do solo — mas as ondas de baixa frequência, pelos seus comprimentos de onda alongados, escapam a uma localização precisa e nenhuma fonte isolada conseguiu explicar a totalidade dos relatos.
Agora, investigadores da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia propõem uma resposta que aponta para dentro. Estudaram 28 pessoas na Alemanha que relatavam ouvir regularmente o zumbido e testaram primeiro a hipótese de sensibilidade auditiva excecional a baixas frequências. Os resultados, publicados na PLOS One, ofereceram apenas apoio limitado: a maioria dos participantes apresentava limiares auditivos normais. A equipa explorou também a possibilidade de o ouvido interno estar a produzir o som através de emissões otoacústicas, mas os testes não encontraram indícios de que esse fosse o mecanismo principal.
O que resta é uma explicação menos dramática, mas mais esclarecedora: uma forma de acufenos subjetivos de baixa frequência. Os acufenos não são apenas sons agudos — podem manifestar-se como um zumbido grave gerado dentro do sistema auditivo, sem origem externa identificável. Isto explica por que muitos afetados assumem inicialmente que o ruído vem do ambiente, só suspeitando de uma origem interna depois de o ouvirem em locais completamente diferentes. A investigação continua, mas agora com uma direção mais clara: compreender como o próprio sistema auditivo humano pode gerar este som perturbador.
Durante décadas, pessoas espalhadas por vários continentes descrevem a mesma experiência perturbadora: um zumbido grave e persistente que ecoa nos ouvidos durante a noite, semelhante ao ronco distante de um motor diesel. Ninguém consegue localizá-lo. Ninguém consegue explicá-lo. O fenómeno, batizado simplesmente como The Hum, começou a ganhar atenção pública em Bristol, Inglaterra, nos anos 1970, quando jornais locais foram inundados de cartas de leitores descrevendo este som fantasmagórico de baixa frequência. Pouco depois, relatos idênticos surgiram noutras cidades britânicas, depois em cidades norte-americanas, australianas, neozelandesas, sul-africanas e em partes da Europa. Um dos casos mais documentados ocorreu em Taos, no Novo México, onde o incómodo foi tão generalizado que cientistas foram chamados para investigar. Apesar da sua dispersão geográfica, o fenómeno permanece raro. Apenas uma pequena fração da população consegue ouvi-lo, o que deixa muitos dos afetados a sentir-se isolados e incompreendidos.
Ao longo dos anos, investigadores ponderaram uma lista extensa de possíveis culpados: equipamentos industriais, sistemas de ventilação, tráfego rodoviário, turbinas eólicas, ondas do mar, fenómenos atmosféricos, vibrações do solo. A dificuldade reside numa característica fundamental da física do som: as ondas de baixa frequência comportam-se de forma radicalmente diferente dos ruídos mais agudos. Os seus comprimentos de onda alongados permitem-lhes viajar grandes distâncias, contornar obstáculos e escapar a uma localização precisa. Esta ambiguidade abriu espaço para especulações cada vez mais criativas — desde projetos governamentais secretos até atividade extraterrestre — mas nenhuma fonte externa isolada conseguiu explicar a totalidade dos relatos.
Agora, investigadores da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia propõem uma resposta que aponta para dentro, não para fora. Markus Drexl e os seus colegas estudaram 28 pessoas na Alemanha que relatavam ouvir regularmente este zumbido inexplicável. A primeira hipótese que testaram era simples: talvez estas pessoas tivessem uma audição excepcionalmente sensível a frequências baixas. Os resultados, publicados na revista PLOS One, ofereceram apenas apoio limitado a esta teoria. A maioria dos participantes apresentava limiares auditivos dentro dos valores normais; apenas alguns mostraram sensibilidade acima da média em determinadas frequências baixas. Drexl reconheceu que os testes-padrão podem não conseguir detetar intervalos extremamente estreitos de sensibilidade aumentada, mas os dados não apontavam nesta direção como explicação principal.
A equipa explorou então uma segunda possibilidade: a de o próprio ouvido interno estar a produzir o som. A cóclea, a estrutura espiral no interior do ouvido, não é completamente silenciosa. Consegue gerar sons ténues chamados emissões otoacústicas, resultantes do modo como o ouvido amplifica os sinais que recebe. Algumas pessoas conseguem efetivamente sentir estes sons gerados pelo seu próprio organismo, e estes podem ser medidos objetivamente. Dado que estas emissões podem estar associadas a acufenos — aquele zumbido nos ouvidos que muitas pessoas conhecem — os investigadores questionaram-se se poderiam explicar The Hum. Os testes, porém, não encontraram indícios de que este fosse o mecanismo principal entre os participantes.
O que resta é uma explicação que, embora menos dramática do que conspiração ou fenómeno desconhecido, oferece uma compreensão real: uma forma de acufenos subjetivos de baixa frequência. Embora os acufenos sejam frequentemente associados a sons agudos e estridente, também podem manifestar-se como um zunido, rugido, estalido, sibilo ou zumbido grave. Os acufenos não são uma doença, mas a perceção de um som gerado dentro do sistema auditivo, sem origem externa identificável. Isto explica por que muitos dos afetados inicialmente assumem que o ruído vem do ambiente circundante, só começando a suspeitar de uma origem interna depois de o ouvirem em locais completamente diferentes. A descoberta oferece alívio a pessoas que se sentiam isoladas pela raridade do sintoma e pela falta de explicação clara, embora também deixe em aberto a possibilidade de que, em alguns casos, causas ambientais possam estar envolvidas. A investigação continua, mas agora com uma direção mais clara: não procurar o zumbido no mundo exterior, mas compreender como o sistema auditivo humano pode gerar este som perturbador por si próprio.
Citações Notáveis
Sabemos que há pessoas que ouvem sons de baixa frequência que podem efetivamente ser medidos, mesmo que outras pessoas não os ouçam. Determinar a origem dessas ondas é uma luta constante.— Markus Drexl, professor na NTNU
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Se o zumbido é gerado dentro do ouvido, por que é que as pessoas o ouvem como se viesse de fora?
Porque o sistema auditivo não distingue bem entre sons externos e internos quando estão a uma frequência muito baixa. À noite, quando tudo está silencioso, o cérebro concentra-se em sons subtis e o ouvido interno pode amplificar estas emissões otoacústicas de forma que parecem vir do ambiente.
Mas então por que é que nem toda a gente o ouve?
Nem todos têm a mesma sensibilidade auditiva ou a mesma forma de processar sons de baixa frequência. É como a capacidade de ver certas cores ou ouvir certos tons — varia de pessoa para pessoa.
O estudo descarta completamente as causas ambientais?
Não. Os investigadores deixam a porta aberta. Dizem que em muitos casos é acufenos subjetivos, mas reconhecem que noutros casos pode haver realmente uma fonte externa. O problema é que é muito difícil medir e localizar sons de baixa frequência.
Isso significa que as pessoas que ouvem o zumbido não estão loucas?
Exatamente. O zumbido é real, pode ser medido em alguns casos através das emissões otoacústicas. O que mudou é a compreensão de onde vem — não é uma conspiração ou um mistério cósmico, é o próprio corpo a produzir um som que o cérebro interpreta como externo.
E agora? O que fazem as pessoas que sofrem com isto?
Agora sabem que não estão sozinhas e que há uma explicação científica. Isso por si só é importante. A próxima etapa é compreender melhor por que alguns ouvidos produzem estas emissões mais intensas e como é que se podem gerir.