cascas descartadas viraram um recipiente que desaparece
Copos de 50ml feitos com cascas de pinhão, glicerina, gelatina e sementes biodegradáveis armazenam bebidas quentes ou frias com isolamento térmico. Projeto surgiu da preocupação com plástico descartável e aproveita resíduo sazonal abundante no Sul do Brasil durante consumo de pinhão.
- Copos de 50 mililitros feitos com cascas de pinhão, glicerina, gelatina, ágar-ágar e sementes
- Degradação completa em até cinco semanas, contra anos do plástico convencional
- Terceiro lugar na categoria Terra da Feira de Iniciação Científica do Colégio Bom Jesus em 2024
- Isolamento térmico permite armazenar bebidas quentes e frias sem alterar sabor
Aluna de 6º ano em Curitiba desenvolve copos biodegradáveis a partir de cascas de pinhão que se degradam em até cinco semanas, oferecendo alternativa sustentável aos recipientes plásticos.
Maria Clara Badin Salvalaggio, uma estudante do sexto ano em Curitiba, observava diariamente pessoas consumindo café e água em copos plásticos descartáveis. Essa observação simples a levou a uma pergunta que muitos adultos nunca se fazem: por que não criar um recipiente que desaparece da natureza em semanas em vez de anos? A resposta veio durante as aulas de Iniciação Científica do Colégio Bom Jesus Divina Providência, onde ela transformou cascas de pinhão — um resíduo abundante e descartado em massa durante o inverno do Sul do Brasil — em copos biodegradáveis funcionais de 50 mililitros.
O projeto nasceu de uma preocupação genuína com o tempo de decomposição do plástico. Enquanto um copo convencional leva anos para desaparecer do ambiente, o recipiente que Maria Clara desenvolveu se degrada completamente em até cinco semanas. Essa diferença radical no ciclo de vida do material foi o motor que impulsionou toda a investigação. A escolha do pinhão como matéria-prima não foi aleatória: a araucária é nativa do Sul do país e possui forte valor simbólico regional, além de gerar toneladas de cascas descartadas a cada temporada de consumo.
A fórmula final combina cascas de pinhão com glicerina, gelatina, ágar-ágar, água e vinagre, recebendo também sementes de salsa e alecrim. O vinagre funciona como conservante, enquanto as fibras naturais do pinhão oferecem isolamento térmico — uma propriedade que permite aos copos armazenar bebidas quentes como café e chá sem queimar as mãos, além de manter bebidas frias em temperatura adequada. O tratamento correto das fibras elimina odores que poderiam interferir no sabor do líquido, garantindo que o material do recipiente não altere a experiência de consumo.
Chegar a essa composição exigiu rigor científico. Sob orientação da professora Daniele Cecilia Ulsom de Araújo Checo, Maria Clara testou diferentes combinações de ingredientes, experimentou outras sementes e produziu versões sem vinagre para avaliar o impacto de cada componente. Ela também realizou uma pesquisa na própria escola sobre o uso de copos plásticos e investigou alternativas como cascas de banana. Os testes incluíram estudos sobre decomposição de materiais, comportamento do plástico e reação de substâncias quando expostas a temperaturas elevadas — conhecimento essencial porque os recipientes precisavam funcionar tanto com líquidos frios quanto quentes.
O trabalho conquistou o terceiro lugar na categoria "Terra" da Feira de Iniciação Científica do Ensino Fundamental do Colégio Bom Jesus em 2024, reconhecimento que validou uma proposta reunindo reaproveitamento de resíduos, redução de plástico e aplicação prática de conhecimentos científicos. Mais importante que o prêmio, porém, é o que o projeto demonstra: soluções ambientais podem começar com a observação atenta de hábitos cotidianos simples. Uma estudante de onze ou doze anos viu um problema que passa despercebido para a maioria e decidiu investigá-lo com método.
Agora Maria Clara planeja aperfeiçoar o bioplástico e testar sua associação com outras espécies vegetais, ampliando as possíveis aplicações da solução. O pinhão, que era apenas resíduo, tornou-se ponto de partida para uma alternativa de menor impacto ambiental. O projeto avança com a intenção de escalar o que começou em um laboratório escolar, transformando cascas descartadas em recipientes que cumprem sua função e depois desaparecem.
Citas Notables
Eu sempre via as pessoas tomando água ou café nos copos de plástico e nunca gostei disso, porque sei que esses materiais demoram muito tempo para se decompor na natureza— Maria Clara Badin Salvalaggio
O copinho de pinhão vai levar no máximo cinco semanas para se degradar. Já o plástico leva anos— Maria Clara Badin Salvalaggio
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
O que te fez perceber que as cascas de pinhão poderiam virar copos?
Eu via muita gente usando copos plásticos todos os dias e sabia que aquilo levava anos para desaparecer. Ao mesmo tempo, no inverno aqui do Sul, a gente descarta toneladas de cascas de pinhão. Pensei: por que não juntar essas duas coisas?
Mas como você sabia que as fibras do pinhão tinham propriedades térmicas?
Não sabia no começo. A gente testou muitas combinações diferentes. A professora me orientou a estudar as características do material, e foi através dos testes que descobrimos que as fibras isolam bem o calor.
Cinco semanas é muito rápido. Você acha que isso muda alguma coisa na forma como as pessoas pensam sobre descarte?
Acho que sim. Quando você sabe que aquilo vai desaparecer em um mês e meio, é diferente de saber que vai ficar ali por anos. Muda a responsabilidade que você sente ao descartar.
E se o projeto crescer? Como você imaginaria isso funcionando em escala?
Seria preciso estudar mais, testar com outras plantas, talvez melhorar a resistência. Mas o princípio é o mesmo: usar o que a gente já descarta e transformar em algo útil.
Qual foi o momento em que você percebeu que tinha funcionado?
Quando o copo aguentou café quente sem deformar e depois se degradou normalmente. Aí eu soube que tinha dado certo.
Você acha que outras pessoas deveriam fazer projetos assim?
Com certeza. Não precisa ser complicado. Só precisa observar o que está ao seu redor e pensar em como melhorar.