A confiança demora muito tempo a ganhar, mas perde-se facilmente
Portugal encontra-se numa encruzilhada energética: dotado de recursos hídricos e de uma taxa de adoção de veículos elétricos invejável, o país hesita entre consolidar uma liderança renovável de longo prazo ou deixar que a burocracia lenta e a incerteza regulatória desviem o investimento para mercados mais previsíveis. O que está em jogo não é apenas eletricidade, mas a capacidade de um país pequeno afirmar soberania económica num setor que definirá o próximo século.
- Portugal gera 27% da sua eletricidade a partir de hídrica, mas sem uma decisão governamental clara sobre armazenamento, esse potencial permanece por explorar.
- O projeto Tâmega — 1.500 milhões de euros e três barragens — prova que o país atrai capital internacional, mas os licenciamentos lentos ameaçam desfazer essa confiança duramente conquistada.
- A Atlante, operadora italiana de carregamento elétrico rápido, avisa que o novo modelo regulatório foi tão disruptivo que as oportunidades prometidas nunca chegaram a concretizar-se.
- Com mais de 20% dos carros novos a serem elétricos — o dobro de Espanha —, Portugal tem vantagem competitiva real, mas pode perdê-la se a regulamentação de mobilidade elétrica não chegar antes do final de 2026.
- Operadores de carregamento estão impedidos de participar no mercado de flexibilidade da rede, deixando por monetizar uma peça essencial da transição energética.
Portugal produz uma fatia significativa da sua eletricidade a partir de fontes hídricas, mas o setor energético aguarda uma escolha que o Governo ainda não fez: investir em armazenamento hidroelétrico de grande escala ou contentar-se com baterias de curto prazo. É essa ambiguidade que preocupa quem investe.
David Rivera, da Iberdrola Portugal, usou o projeto Tâmega como argumento central numa conferência organizada pelo Jornal Económico em Lisboa. O complexo de três barragens, com um investimento de 1.500 milhões de euros, já presta serviços ao sistema elétrico nacional e demonstra que as renováveis têm valor económico real. Mas Rivera foi claro: a confiança dos investidores internacionais demora anos a construir e pode desaparecer rapidamente se os processos burocráticos continuarem lentos e a previsibilidade regulatória não melhorar.
Carlos Ferraz, CEO da Atlante Portugal, trouxe uma perspetiva complementar. A empresa italiana, presente no país desde 2023 e especializada em carregamento rápido com energia 100% renovável, debate-se com um modelo regulatório que prometeu novas oportunidades mas não as entregou. O corte abrupto com o regime anterior deixou os operadores sem clareza sobre armazenamento e sem acesso ao mercado de flexibilidade da rede.
O paradoxo é evidente: Portugal tem mais de 20% dos carros novos elétricos — o dobro de Espanha —, o que o torna um dos mercados mais atrativos do sul da Europa. Mas essa vantagem pode evaporar-se se a regulamentação de mobilidade elétrica, esperada até ao final de 2026, não criar as condições de estabilidade que os investidores exigem para apostar num mercado ainda em maturação.
Portugal produz energia hidroelétrica em quantidade considerável — em 2023, representou 27% de toda a eletricidade gerada no país. Mas segundo executivos do setor, o país está num ponto de decisão crítico: tem a capacidade técnica e geográfica para armazenar muito mais dessa energia limpa, mas precisa que o Governo escolha se quer investir nessa direção ou se prefere, por enquanto, depender apenas de baterias de curto prazo.
David Rivera, responsável pela Iberdrola em Portugal, colocou a questão de forma direta durante uma conferência sobre energia realizada pelo Jornal Económico em Lisboa. O executivo apontou o projeto Tâmega como prova de que Portugal consegue competir nos mercados internacionais. O investimento, de cerca de 1.500 milhões de euros, envolve três barragens — Alto Tâmega, Daivões e Gouvães — e visa aumentar significativamente a produção de energia limpa. Segundo Rivera, o Tâmega já está a prestar um serviço importante ao sistema elétrico português, demonstrando que as energias renováveis têm valor económico real e permitem ao país ser competitivo.
Mas há obstáculos. Rivera sublinhou que é preciso criar ferramentas que deem previsibilidade aos investidores. O setor está a viver uma revolução, disse, e é necessário retribuir adequadamente as tecnologias renováveis para que possam oferecer preços competitivos. Todas as tecnologias precisam colaborar, não competir destrutivamente. A questão dos licenciamentos é particularmente delicada: Portugal conquistou a confiança de muitos investidores internacionais, mas essa confiança demora muito tempo a ganhar e perde-se facilmente. Os processos burocráticos lentos são um risco direto ao investimento.
Carlos Ferraz, CEO da Atlante Portugal — empresa italiana presente no país desde 2023, especializada em carregamento rápido e ultrarrápido de automóveis com energia 100% renovável — reforçou o alerta. Os processos burocráticos continuam demasiado lentos, disse. É essencial que sejam céleres e respondam às necessidades reais do mercado. Ferraz reconheceu que o mercado português está mais evoluído do que outros países do sul da Europa em matéria de postos de carregamento rápido, mas a incerteza regulatória é um problema sério.
A Atlante está à espera de nova regulamentação sobre mobilidade elétrica, prevista para o final do ano. Ferraz expressou preocupação com a falta de estabilidade e previsibilidade — elementos cruciais quando se investe num mercado ainda imaturo. O novo modelo regulatório, que entrará em transição até final de 2026, foi demasiado disruptivo face ao que existia antes. Pareceu trazer novas oportunidades, mas quando os regulamentos foram implementados, essas oportunidades não se concretizaram. A questão do armazenamento não está definida, e os operadores não têm permissão para entrar no mercado de flexibilidade da rede.
Os números falam por si. Em Portugal, mais de 20% dos automóveis ligeiros novos são elétricos. Em Espanha, esse número anda nos 12%. As empresas tendem a investir onde os mercados são mais robustos e previsíveis. Ferraz não consegue ainda dizer que se está a mudar para melhor com o novo decreto. O corte radical em relação ao modelo anterior deixou sequelas nos operadores de mercado. A regulamentação de mobilidade elétrica que se aproxima será decisiva para determinar se Portugal consegue manter a sua vantagem competitiva ou se perde investimento para vizinhos melhor regulados.
Citações Notáveis
Portugal tem condições para armazenar mais energia hidroelétrica, mas o Estado português tem de decidir se quer investir nisto ou se fica apenas com as baterias a curto prazo— David Rivera, Country Manager da Iberdrola em Portugal
Continuamos a demorar muito tempo nos processos burocráticos. É essencial que sejam céleres e vão de encontro às necessidades do mercado— Carlos Ferraz, CEO da Atlante Portugal
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Porque é que o armazenamento hidroelétrico é tão importante agora? Portugal não tem já barragens suficientes?
Portugal tem barragens, sim, mas a questão é diferente. Com mais energia renovável a ser produzida — eólica, solar — precisamos de formas de a guardar para quando não há vento ou sol. As baterias fazem isso, mas para períodos curtos. O armazenamento hidroelétrico permite guardar energia durante semanas ou meses. É uma decisão de longo prazo que o Governo tem de fazer.
E o projeto Tâmega? Isso não é já armazenamento?
É, mas é um projeto específico da Iberdrola. O que Rivera está a dizer é que Portugal tem potencial para muito mais do que isto. Mas investimentos desta escala — 1.500 milhões de euros — só fazem sentido se houver estabilidade regulatória e processos burocráticos rápidos.
Qual é o problema com os licenciamentos?
Demora muito tempo. Uma empresa ganha confiança em Portugal, mas se os processos são lentos demais, ela pode decidir investir noutro país. A Atlante está à espera de regulamentação desde há meses. Essa incerteza afasta investimento.
A Atlante parece estar numa posição frágil, não é?
Está. O mercado português de carregamento rápido é melhor do que em Espanha — 20% de carros elétricos contra 12%. Mas o novo modelo regulatório foi demasiado disruptivo. Ferraz diz que pareceu trazer oportunidades, mas depois não se concretizaram. Agora está à espera de ver o que vem até 2026.
Isto é um problema português ou europeu?
É português, principalmente. Outros países têm regulamentações mais estáveis. A questão é que Portugal conseguiu atrair investidores internacionais, mas está a arriscar perder essa vantagem com incerteza regulatória.
O que é que precisa acontecer?
Decisões claras e rápidas. O Governo precisa dizer se quer armazenamento hidroelétrico ou não. A regulamentação de mobilidade elétrica precisa ser estável e previsível. Sem isto, o investimento vai para outro lado.