Informações confiáveis sobre o clima não deveriam desaparecer quando a política muda
Cerca de 118 mil funcionários foram demitidos de agências científicas federais americanas, com cortes de 79% no financiamento para pesquisa ambiental e inovação. O novo site Climate.us oferecerá dados, notícias, blogs de especialistas e recursos educacionais sobre fenômenos climáticos como ondas de calor e elevação do nível do mar.
- 118 mil funcionários demitidos de agências científicas federais entre setembro de 2024 e fevereiro de 2026
- Cortes de 79% no financiamento para pesquisa ambiental e inovação
- Climate.gov registrou 15 milhões de visualizações em 2024 antes de ser desmontado
- 75% de 1.600 cientistas americanos pesquisados pela Nature consideram trabalho no exterior
Especialistas demitidos pelo governo Trump criaram o Climate.us para manter informações climáticas acessíveis após o desmonte do Climate.gov. O projeto é financiado por doações e conta com voluntários para validar conteúdo científico.
Rebecca Lindsey editou o Climate.gov por mais de uma década. Era um trabalho que ela considerava vocação — um site que oferecia informações precisas sobre aquecimento global, ondas de calor, tempestades e elevação do nível do mar para cerca de 15 milhões de visitantes por ano. Em fevereiro de 2025, ela foi demitida. Junto com ela, aproximadamente 118 mil outros funcionários foram desligados de agências científicas federais americanas nos meses seguintes à posse do presidente Trump em seu segundo mandato.
O que começou como demissões em cascata se transformou em um desmonte sistemático. O Climate.gov, operado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa), foi redirecionado para outra página controlada por indicados políticos. O orçamento para pesquisa ambiental e inovação caiu 79%. A proposta de redução orçamentária para a Noaa no próximo ano chega a 1,6 bilhão de dólares. Cerca de 40% das perdas de empregos no serviço público federal ocorreram em agências científicas — um corte que especialistas alertam estar custando aos Estados Unidos sua liderança global em pesquisa climática.
Mas Lindsey e seus colegas não aceitaram o silêncio. Conseguiram financiamento através de doações — milhares de pequenas contribuições vindas dos Estados Unidos e do exterior — e relançaram o site sob um novo nome: Climate.us. A plataforma estreou em 2025 como um repositório dos dados do antigo site governamental. Agora, uma versão expandida oferecerá notícias, reportagens, blogs de especialistas, visualizações de dados, relatórios sobre indicadores climáticos e materiais educacionais. Cientistas atuarão voluntariamente para validar a precisão do conteúdo.
Quando Lindsey fala sobre o apoio internacional que o projeto recebeu, há uma mistura de gratidão e constrangimento em sua voz. "É muito reconfortante ver esse apoio vindo de outros países, porque sei que outros lugares teriam todo o direito de pensar: bem, os Estados Unidos deram um tiro no próprio pé", disse ela à DW. A questão subjacente é clara: informações confiáveis sobre o clima não deveriam desaparecer quando a política muda. As pessoas nos Estados Unidos querem dados imparciais. Estão preocupadas com isso. E agora precisam procurar fora do governo para encontrá-los.
O custo humano é profundo e ainda está se desdobrando. Lindsey perdeu o seguro de saúde — geralmente vinculado ao emprego nos EUA — e enfrentou a decisão angustiante entre se aposentar antecipadamente ou mudar de carreira. Sua história se multiplica por dezenas de milhares. Aproximadamente 10 mil dos profissionais que deixaram o serviço público em 2025 tinham doutorado em ciência, tecnologia, engenharia, matemática ou saúde. Alguns permanecem desempregados. Outros migraram para governos locais ou estaduais, ou para o setor privado. Mas uma pesquisa da revista Nature revelou que 75% de 1.600 cientistas americanos avaliados consideram buscar trabalho no exterior — no Canadá, na China, na União Europeia.
Jules Barbati-Dajches, da Union of Concerned Scientists, coloca o problema em termos que qualquer pessoa entende: "Quando penso em sentar na cadeira de um dentista ou embarcar em um avião, quero alguém qualificado fazendo o trabalho corretamente. É a mesma lógica para milhares de especialistas no governo federal que atuam com toxicologia ambiental, epidemiologia e meteorologia. Precisamos desses profissionais para garantir nossa segurança." Os cortes representam uma perda de "centenas de anos de expertise acumulada" e uma "ameaça à inovação".
O impacto já é sentido em comunidades reais. Contratos foram cancelados abruptamente. Centros de pesquisa fecharam de forma repentina. Comunidades ficam mais vulneráveis à poluição da água e do ar, a eventos climáticos extremos e a doenças transmitidas por insetos — cuja área de atuação cresce com o aumento das temperaturas. Brandon Lardy, diretor de dados da Partnership for Public Service, resume: "Isso também tem impactos claros sobre as comunidades e sobre sua saúde e bem-estar no longo prazo".
Lindsey está profundamente preocupada com o que isso significa para jovens cientistas. "Há áreas da ciência que só o governo realiza", disse ela, citando a regulação da indústria nuclear e a proteção de recursos pesqueiros. "Isso não é algo que o setor privado faria, porque não dá lucro. O que acontece quando os jovens pensam: não posso confiar que, se estudar isso, terei um emprego no governo nesse campo?" A fuga de cérebros não é mais uma abstração teórica. É um êxodo em andamento. E enquanto isso, um site criado em uma garagem digital por cientistas demitidos tenta fazer o trabalho que o governo abandonou.
Notable Quotes
Há áreas da ciência que só o governo realiza. Isso não é algo que o setor privado faria, porque não dá lucro.— Rebecca Lindsey, diretora-executiva do Climate.us
A fuga de cérebros é uma preocupação real. Recebemos relatos de cientistas indo para o Canadá, China ou União Europeia.— Brandon Lardy, diretor de dados da Partnership for Public Service
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Climate.us importa se existem outros sites sobre clima na internet?
Porque o Climate.gov não era apenas um site — era a fonte oficial do governo americano. Tinha credibilidade institucional, financiamento, equipes dedicadas. Quando desaparece, as pessoas perdem um ponto de referência confiável. O Climate.us tenta reconstruir isso, mas com voluntários e doações.
Rebecca Lindsey perdeu o emprego. Por que ela não simplesmente procurou outro trabalho?
Ela fez exatamente isso — criou o Climate.us. Mas a questão é mais profunda. Ela tinha uma vocação específica. Trabalhar em pesquisa climática no governo é diferente de trabalhar em uma empresa privada. Não há lucro nisso. Então quando o governo sai, a carreira desaparece para muitos.
A pesquisa da Nature mostra que 75% dos cientistas querem sair do país. Isso é realmente uma "fuga de cérebros" ou apenas pessoas buscando melhores oportunidades?
É ambos. Mas o contexto importa. Esses cientistas não estão saindo porque encontraram algo melhor — estão saindo porque o que tinham foi destruído. Há uma diferença entre escolher partir e ser forçado a partir.
Se os cortes são tão severos, como o Climate.us conseguiu financiamento?
Doações. Milhares de pequenas contribuições. O que é notável é que pessoas em outros países também doaram. Isso sugere que o problema é visto como global, não apenas americano.
Qual é o risco real aqui? Pessoas ainda podem acessar informações sobre clima em outros lugares.
O risco é a perda de capacidade institucional. Quando você demite 118 mil pessoas de agências científicas, não é apenas sobre informações — é sobre pesquisa em andamento, monitoramento contínuo, expertise que leva décadas para construir. Isso não se reconstrói rapidamente.