Especialista explica obesidade como doença inflamatória crônica, não falta de disciplina

Milhões de brasileiros afetados pela obesidade mórbida enfrentam impacto na qualidade de vida, mobilidade e saúde metabólica, com necessidade de tratamento contínuo e integrado.
Não é apenas alimentação, mas desequilíbrio hormonal e inflamação
A medicina reconhece que a obesidade é uma doença crônica complexa, não um problema de disciplina pessoal.

Por décadas, a obesidade foi tratada como falha de caráter — um problema de vontade, não de biologia. A medicina brasileira agora formaliza o que a ciência já sinalizava: trata-se de uma doença crônica inflamatória e multifatorial, com raízes hormonais, genéticas e metabólicas que nenhuma dieta isolada consegue alcançar. Com 9 milhões de brasileiros vivendo com obesidade mórbida em 2024, essa reclassificação não é apenas semântica — é um convite para que a sociedade abandone o julgamento e abrace o cuidado.

  • A Abeso reclassificou oficialmente a obesidade como doença crônica inflamatória, rompendo com a narrativa de que o problema é comportamental e individual.
  • O Brasil registrou 9 milhões de casos de obesidade mórbida em 2024 e um crescimento de 42,4% em cirurgias bariátricas entre 2020 e 2024 — números que revelam uma crise de saúde pública em escala.
  • O efeito sanfona persiste porque dietas isoladas ignoram o estado inflamatório do corpo: o organismo reage aumentando a fome e reduzindo o gasto energético, sabotando qualquer intervenção superficial.
  • O acompanhamento médico contínuo, com avaliação metabólica, hormonal e nutricional personalizada, emerge como o caminho mais consistente para resultados duradouros.
  • O estigma permanece como barreira invisível: enquanto a obesidade for vista como falta de disciplina, milhões de pacientes evitarão buscar ajuda ou receberão tratamentos inadequados.
  • Reduzir esse estigma por meio de informação qualificada pode antecipar diagnósticos, prevenir complicações cardiovasculares e metabólicas e, no limite, devolver qualidade de vida a uma população inteira.

A obesidade deixou de ser interpretada como fraqueza de vontade. Uma nova diretriz da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) formalizou o que pesquisadores já defendiam: a condição é uma doença crônica inflamatória e multifatorial, envolvendo hormônios, neurotransmissores, inflamação sistêmica e predisposição genética. Essa mudança de paradigma altera profundamente como médicos tratam, como pacientes se percebem e como a sociedade compreende o problema.

Os números traduzem a dimensão do desafio. Em 2024, cerca de 9 milhões de brasileiros viviam com obesidade mórbida. Entre 2020 e 2024, foram realizadas aproximadamente 292 mil cirurgias bariátricas — crescimento de 42,4% em quatro anos. Esses dados não descrevem apenas uma tendência estatística; descrevem uma população buscando saída de uma condição que a medicina tradicional frequentemente atribuía a falhas pessoais.

O Dr. Gean Carlos Oliveira, cirurgião e diretor técnico da clínica Longevitá em Santa Catarina, explica que tratar apenas a alimentação, ignorando o estado inflamatório e os desajustes hormonais, produz resultados superficiais. O organismo reage com mecanismos de defesa — aumenta a fome, reduz o gasto energético — perpetuando o efeito sanfona. Uma dieta isolada não rompe esse ciclo porque não trata a causa raiz.

O acompanhamento médico contínuo é central para o sucesso terapêutico. Na Longevitá, o modelo inclui avaliação metabólica e hormonal, correção de deficiências nutricionais e medicações modernas, tudo personalizado ao padrão metabólico de cada paciente. Os resultados vão além da balança: pacientes relatam recuperação de energia, melhora no sono, clareza mental e autoestima reconstruída — a retomada de uma vida.

Persiste, porém, um obstáculo invisível: o estigma. Enquanto a obesidade for vista como falta de disciplina, muitos não buscarão ajuda ou receberão abordagens inadequadas. O Dr. Oliveira insiste que ampliar a informação sobre sua natureza crônica é essencial para reduzir esse estigma e melhorar o acesso ao tratamento — com impacto direto na prevenção de doenças cardiovasculares, diabetes e câncer. É um reposicionamento ainda em curso, mas que já está mudando como o Brasil cuida de seus cidadãos.

A obesidade deixou de ser um problema de vontade fraca. Nos últimos anos, a medicina brasileira reposicionou completamente o entendimento dessa condição, e uma nova diretriz da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) formalizou o que pesquisadores já sabiam: trata-se de uma doença crônica inflamatória e multifatorial, não apenas um fator de risco comportamental. Essa mudança de paradigma tem consequências práticas profundas — muda como os médicos tratam, como os pacientes se veem, e como a sociedade compreende um problema que afeta milhões.

Os números revelam a escala do desafio. Em 2024, o Brasil contabilizava cerca de 9 milhões de pessoas vivendo com obesidade mórbida. Entre 2020 e 2024, foram realizadas aproximadamente 292 mil cirurgias bariátricas, um crescimento de 42,4% em apenas quatro anos. Esses dados, compilados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica com informações do Ministério da Saúde, não descrevem apenas uma tendência estatística — descrevem uma população inteira buscando saída de uma condição que a medicina tradicional frequentemente atribuía a falhas pessoais.

O Dr. Gean Carlos Oliveira, cirurgião e diretor técnico da clínica Longevitá em Santa Catarina, articula essa transformação com clareza. A obesidade, explica, envolve um desequilíbrio complexo de hormônios, neurotransmissores, inflamação sistêmica e predisposição genética. Quando se trata apenas a alimentação, ignorando o estado inflamatório do corpo e seus desajustes hormonais, o resultado é superficial. O organismo reage com mecanismos de defesa — aumenta a fome, reduz o gasto energético — criando o ciclo conhecido como efeito sanfona, onde o peso sobe e desce repetidamente. Uma dieta isolada não consegue romper esse padrão porque não está tratando a causa raiz.

O acompanhamento médico contínuo emerge como elemento central do sucesso terapêutico. Uma doença crônica exige monitoramento constante, ajustes personalizados e individualização para evitar reganho de peso, complicações clínicas e perda de massa muscular. Mas o impacto vai além dos números na balança. Pacientes relatam transformações que tocam a vida cotidiana: recuperação de energia, melhora na qualidade do sono, clareza mental restaurada, autoestima reconstruída. Conseguem usar roupas que não cabiam, retomam mobilidade, viajam sem limitações, realizam atividades simples com liberdade que tinham perdido. São mudanças que representam muito mais que perda de peso — representam a recuperação de uma vida.

Na Longevitá, o modelo de cuidado funciona através de protocolos estruturados e personalizados, considerando o padrão metabólico individual de cada paciente. O tratamento inclui avaliação metabólica e hormonal, correção de deficiências nutricionais, nutrição estratégica e medicações modernas. A proposta é tratar a causa da obesidade, não apenas o peso, gerando resultados mais consistentes e duradouros.

Mas há um obstáculo invisível que persiste: o estigma. Enquanto a obesidade for entendida como falta de disciplina, muitos pacientes não procurarão ajuda ou receberão abordagens inadequadas. O Dr. Gean Carlos Oliveira insiste que ampliar a informação sobre a obesidade como doença crônica é essencial para reduzir esse estigma e melhorar o acesso ao tratamento apropriado. Essa mudança de percepção tem implicações que vão além do consultório — pode impactar diretamente a redução de complicações como doenças cardiovasculares, diabetes e câncer. Informação correta gera diagnóstico precoce, tratamento eficaz e transformação de vidas. É um reposicionamento que ainda está em curso, mas que já está mudando como o Brasil cuida de seus cidadãos.

Hoje sabemos que não se trata apenas de alimentação, mas de um desequilíbrio envolvendo hormônios, neurotransmissores, inflamação sistêmica e fatores genéticos
— Dr. Gean Carlos Oliveira, cirurgião e diretor técnico da clínica Longevitá
Enquanto a obesidade for vista como falta de disciplina, muitos pacientes continuarão sem procurar ajuda ou receberão abordagens inadequadas
— Dr. Gean Carlos Oliveira
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que essa reclassificação da obesidade como doença inflamatória muda tanto a forma como os médicos tratam o problema?

Model

Porque sai do campo do comportamento individual e entra no campo da biologia. Se é falta de disciplina, o tratamento é culpa e restrição. Se é inflamação sistêmica e desajuste hormonal, o tratamento é investigação e correção.

Inventor

Mas as pessoas ainda precisam mudar o que comem, certo?

Model

Precisam, mas não é só isso. É como tratar um incêndio apenas movendo os móveis para longe das chamas, em vez de apagar o fogo. A alimentação é importante, mas sem tratar a inflamação e os hormônios desajustados, o corpo continua lutando contra você.

Inventor

O efeito sanfona que você mencionou — por que acontece?

Model

Porque o corpo tem mecanismos de defesa. Quando você restringe calorias sem tratar o estado inflamatório, o organismo interpreta como ameaça e aumenta a fome, reduz o gasto energético. É uma resposta fisiológica, não uma falha de vontade.

Inventor

E o acompanhamento contínuo — por que é tão importante?

Model

Porque uma doença crônica não se resolve com uma intervenção isolada. Precisa de monitoramento constante, ajustes personalizados. Cada corpo é diferente, cada metabolismo responde de forma única. Sem acompanhamento, você volta aos padrões antigos.

Inventor

Qual é o maior impacto que você vê nos pacientes além da perda de peso?

Model

A recuperação da vida. Pessoas que conseguem viajar novamente, que dormem melhor, que se sentem confortáveis nas próprias roupas. Não é vaidade — é liberdade. É poder fazer coisas simples sem limitação.

Inventor

E o estigma? Como isso afeta o acesso ao tratamento?

Model

Profundamente. Se você acredita que é fraco, que é sua culpa, não procura ajuda. Ou procura ajuda inadequada. Quando a sociedade entende que é uma doença, as pessoas buscam tratamento apropriado e recebem o cuidado que precisam.

Quer a matéria completa? Leia o original em Bem Paraná ↗
Fale Conosco FAQ