Equatorial e Iberdrola buscam ativos da Enel no Brasil via M&A

Uma venda ordena a transição; uma caducidade cria vácuo
A razão pela qual o governo pode preferir uma transação a deixar a concessão expirar naturalmente.

No tabuleiro energético brasileiro, Equatorial e Iberdrola movem peças silenciosas em direção aos ativos da Enel — distribuidoras que atendem milhões de brasileiros em São Paulo, Ceará e Rio de Janeiro, com concessões prestes a expirar. A lógica que guia essas tratativas é antiga: o vácuo de poder assusta mais do que a negociação, e o governo prefere uma transição ordenada a uma intervenção de emergência. A Enel, por ora, nega qualquer intenção de vender, mas a história dos grandes desinvestimentos raramente começa com uma confissão pública.

  • Concessões da Enel em São Paulo, Ceará e Rio vencem entre 2028 e 2029, criando uma janela estreita para decisões que afetam milhões de consumidores.
  • Equatorial e Iberdrola propõem um arranjo incomum: renovar a concessão apenas se o controle for transferido, pressionando o governo a escolher entre a venda ou o caos operacional.
  • O fantasma de uma intervenção estatal ou operação emergencial é o principal argumento das interessadas para convencer Brasília de que uma fusão é o caminho menos turbulento.
  • A Enel nega publicamente qualquer negociação, mas já tentou se desfazer de ativos brasileiros em 2022 — o que torna o silêncio atual mais eloquente do que as palavras.
  • Equatorial, recém-tornada acionista de referência da Sabesp, ainda tem fôlego financeiro para uma aquisição de grande porte, segundo fontes do setor.

Equatorial e Iberdrola estão explorando, em silêncio, a possibilidade de adquirir as operações da Enel no Brasil — e as conversas já chegaram aos corredores do governo em Brasília. A lógica das interessadas é estratégica: encerrar uma concessão sem um sucessor definido obrigaria o poder público a organizar uma operação emergencial ou até intervir diretamente no serviço, cenário que ninguém quer.

O arranjo proposto é preciso: a renovação das concessões da Enel condicionada à venda do negócio. Em São Paulo, a concessão vai até 2028. No Ceará, o prazo é ainda mais curto, e a Enel já tenta antecipar a renovação — o que, segundo fontes, serviria para preservar o valor do ativo em uma eventual transação. No Rio, a Aneel recomendou renovação por mais trinta anos em 2025, decisão que o Ministério Público contestou.

Não é a primeira vez que a Enel considera sair do Brasil. Em 2022, a empresa italiana abriu formalmente um processo de desinvestimento, mas recuou meses depois. Agora, a companhia nega qualquer intenção de venda e reafirma o Brasil como mercado estratégico — posição que contrasta com os movimentos que seus potenciais compradores fazem nos bastidores.

A Equatorial, que acaba de assumir posição de referência na Sabesp, tem capacidade financeira para uma aquisição relevante. A Iberdrola não se pronunciou. O que está em jogo não é apenas um negócio bilionário, mas a continuidade de serviços essenciais para milhões de brasileiros — e a pergunta que Brasília ainda não respondeu em voz alta.

Duas das maiores distribuidoras de energia do Brasil estão explorando a possibilidade de adquirir operações da Enel no país, movimentando conversas que já chegaram aos corredores do governo em Brasília. Equatorial e Iberdrola avaliam que uma transação de fusões e aquisições pode ser ainda a solução preferida pelo poder público, especialmente porque encerrar uma concessão geraria uma situação complicada: seria necessário uma operação emergencial de terceiros ou até mesmo intervenção estatal para manter o serviço funcionando até que um novo processo de licitação fosse realizado.

O que essas empresas estão propondo é um arranjo específico: a renovação da concessão da Enel condicionada à sua venda. Fontes indicam que essa proposta já circula entre autoridades federais. Em São Paulo, onde a Enel opera uma das maiores distribuidoras do país, a concessão vigente se estende até 2028. A lógica por trás dessa estratégia é clara: se uma das interessadas conseguisse fechar um acordo com os italianos antes de apresentar a proposta ao governo, o pleito ganharia peso político e viabilidade prática.

Os grupos não descartam uma aquisição da operação completa da Enel no Brasil. No Ceará, a situação é ainda mais urgente. A concessão vence em dois anos, e a Enel está tentando antecipar sua renovação justamente para ter a opção de vender o negócio posteriormente. Esse movimento não é novo: em 2022, a empresa italiana já havia iniciado um processo formal de desinvestimento, mas suspendeu os planos meses depois. No Rio de Janeiro, a Aneel recomendou em 2025 a renovação da concessão por mais três décadas, uma decisão que o Ministério Público questionou.

A Equatorial, que acaba de se tornar acionista de referência da Sabesp, ainda possui capacidade financeira para executar uma transação relevante no setor de energia, segundo apuração. A empresa afirmou estar sempre atenta a oportunidades em suas áreas de atuação, mas recusou comentar sobre possibilidades específicas de negócios ou aquisições. A Iberdrola, por sua vez, não se pronunciou publicamente sobre o assunto.

A Enel, porém, nega qualquer intenção de vender seus ativos brasileiros. Em nota ao Pipeline, a empresa reafirmou seu interesse na renovação da concessão em São Paulo e descartou especulações sobre negociações envolvendo transferência de controle. A companhia enfatizou seu compromisso de longo prazo com o Brasil, descrevendo o país como estratégico para um dos maiores grupos econômicos de energia do mundo. Essa posição pública contrasta com os movimentos que Equatorial e Iberdrola estão fazendo nos bastidores, sugerindo que as negociações, se existem, ainda estão em estágio inicial e longe de qualquer acordo formal.

A Enel reafirma o interesse na renovação da concessão em São Paulo e nega especulações sobre negociações envolvendo a troca de controle da distribuidora
— Enel, em nota
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que o governo preferiria uma venda a simplesmente deixar a concessão caducar?

Model

Porque deixar caducar criaria um vácuo operacional. Você teria que colocar alguém no lugar da noite para o dia, ou intervir diretamente. Uma venda ordena isso: há continuidade, há um novo operador pronto, há menos risco de apagão ou serviço ruim.

Inventor

E por que a Enel estaria disposta a vender se diz que não quer?

Model

Ela pode estar sendo pressionada de formas que não aparecem em nota pública. Reguladores insatisfeitos, pressão política, concessões difíceis de renovar. Às vezes você nega até o momento em que não pode mais negar.

Inventor

A Equatorial tem dinheiro para isso?

Model

Tem. Acabou de entrar na Sabesp como acionista de referência. Isso mostra músculo financeiro. Um M&A em energia seria grande, mas não impossível para uma empresa desse tamanho.

Inventor

Qual é o risco para quem compra?

Model

Você está comprando uma concessão que pode ser contestada, reguladores insatisfeitos, infraestrutura que pode precisar de investimento pesado. Mas também está comprando escala, clientes, receita previsível. É um negócio de longo prazo.

Inventor

E se ninguém comprar?

Model

Aí o governo intervém, relicita, e a Enel sai do Brasil de qualquer forma. Mas isso é mais caótico, mais caro para o estado, mais risco para o serviço. Por isso uma venda ordenada é o cenário que todos preferem, mesmo que ninguém queira admitir.

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