Pesquisadores desvendam formação do Rio Eufrates há quase 2 milhões de anos

A atividade tectônica no leste da Anatólia uniu dois rios em um
Como o Eufrates nasceu de uma colisão geológica entre dois sistemas fluviais antigos há milhões de anos.

Muito antes de Uruk erguer suas primeiras paredes ou da escrita cuneiforme registrar os primeiros grãos colhidos, o Rio Eufrates já moldava silenciosamente a terra que um dia abrigaria a civilização. Pesquisadores revelaram que esse rio nasceu entre 3,6 e 1,6 milhão de anos atrás, quando a atividade tectônica nas Montanhas Taurus fundiu dois sistemas fluviais distintos em um único e poderoso curso d'água. A descoberta nos convida a contemplar uma verdade incômoda e sublime: as civilizações que chamamos de antigas são, na escala geológica, apenas um sopro recente sobre uma terra que nunca parou de se mover.

  • Imagens sísmicas do fundo do Mediterrâneo, originalmente usadas para prospecção de gás, revelaram canais fluviais soterrados com mais de cinco milhões de anos — uma descoberta que ninguém esperava encontrar.
  • A atividade tectônica no leste da Anatólia desviou o rio Murat em direção ao Golfo Pérsico e o fundiu com o Karasu, criando um sistema fluvial cujas vazões antigas superavam as do Nilo e do Tigre-Eufrates combinados.
  • O Eufrates resultante banharia Uruk, Babilônia, Ur e Mari, tornando-se o eixo hídrico sobre o qual a agricultura, as cidades-estado e a escrita cuneiforme floresceram na Mesopotâmia.
  • A pesquisa, publicada na Nature Geoscience, amplia o debate sobre como eventos tectônicos podem redirecionar permanentemente grandes rios — como já aconteceu com o próprio Amazonas antes da formação dos Andes.
  • Compreender essa história geológica reforça que os rios não são cenários fixos da história humana, mas atores dinâmicos cujos movimentos determinam onde as civilizações nascem, prosperam ou desaparecem.

O Rio Eufrates não nasceu com as primeiras cidades da Mesopotâmia. Nasceu muito antes — entre 3,6 e 1,6 milhão de anos atrás — e pesquisadores acaban de reconstruir como isso aconteceu. A descoberta veio de um lugar inesperado: imagens sísmicas do subsolo mediterrâneo, a mesma tecnologia usada em ultrassonografias médicas, originalmente empregadas na busca por reservas de gás. No fundo do mar, os cientistas encontraram canais fluviais fossilizados, relíquias de uma época em que o Mediterrâneo havia secado quase completamente.

Rastreando esses canais até a Turquia continental, os pesquisadores identificaram dois rios antigos — predecessores dos atuais Karasu e Murat — que um dia corriam separados por uma vasta região entre a Turquia e a Síria. Foi a tectônica que os uniu. Nas Montanhas Taurus, movimentos geológicos desviaram o curso do Murat em direção ao Golfo Pérsico; o Karasu se juntou a ele posteriormente. Dessa fusão nasceu o Eufrates que conhecemos: cerca de 2.800 quilômetros de extensão, atravessando Turquia, Síria e Iraque. Os dados geológicos sugerem que esses rios antigos carregavam volumes d'água superiores aos do Nilo e do sistema Tigre-Eufrates atuais combinados.

A importância da descoberta vai além da geologia. O Eufrates e seu irmão Tigre criaram a planície fértil onde surgiram a agricultura primitiva, as primeiras cidades-estado e a escrita cuneiforme. Uruk, Babilônia, Ur e Mari foram todas banhadas por suas águas. A pesquisa, conduzida pelo geocientista Simon Lang da Universidade da Austrália Ocidental e pelo geólogo Andrew Madof da Chevron e publicada na Nature Geoscience, aponta ainda para um padrão mais amplo: o Amazonas também já fluía para o oeste antes da formação dos Andes inverter seu curso. Os rios não são palcos fixos da história humana — são forças geológicas em movimento contínuo, e as civilizações que sobre eles se erguem constroem suas fundações sobre uma terra que nunca para de se transformar.

O Rio Eufrates não nasceu quando as primeiras cidades da Mesopotâmia se ergueram às suas margens. Nasceu muito antes — tão antes que a distância entre seu surgimento e o aparecimento de Uruk, a primeira metrópole do mundo, é quase incompreensível. Pesquisadores acaba de desvendar que o Eufrates se formou entre 3,6 milhões e 1,6 milhão de anos atrás, um período tão remoto que torna a história da civilização humana um capítulo recente em uma narrativa geológica vastamente mais antiga.

A descoberta repousa em uma técnica sofisticada: imagens sísmicas do subsolo terrestre, a mesma tecnologia que permite aos médicos visualizar bebês em desenvolvimento ou joelhos artríticos. Geólogos que originalmente buscavam reservas de gás sob o Mediterrâneo encontraram algo inesperado — estruturas enterradas semelhantes a canais fluviais, relíquias de uma época há mais de cinco milhões de anos quando grandes porções do mar Mediterrâneo secaram completamente, um evento conhecido como crise de salinidade messiniana. Sob o leito marinho, os pesquisadores detectaram os rastros de dois rios distintos, predecessores dos atuais Karasu e Murat, que atravessavam uma região abrangendo a Turquia e a Síria.

O que transformou esses dois cursos de água em um único sistema foi a tectônica. Nas Montanhas Taurus, no sul da atual Turquia, uma região propensa a terremotos, a atividade geológica desviou o curso do rio Murat em direção ao Golfo Pérsico. O rio Karasu, seu predecessor, juntou-se a ele posteriormente. Dessa fusão nasceu um poderoso sistema fluvial único — o Eufrates que conhecemos hoje, estendendo-se por cerca de 2.800 quilômetros desde a Turquia, atravessando a Síria e o Iraque antes de desaguar no Golfo Pérsico. Cidades modernas como Raqqa, Ramadi, Fallujah e Nasiriyah ocupam suas margens; cidades antigas como Ur e Mari também foram banhadas por suas águas.

Os cientistas, trabalhando de trás para frente, rastrearam esses dois rios antigos até a Turquia continental. Examinando dados geológicos de sedimentos em vales e depósitos de carvão agora elevados nas Montanhas Taurus, determinaram que os atuais Karasu e Murat provavelmente eram as fontes originais desses canais soterrados. Mas em algum momento — e esse "algum momento" foi a atividade tectônica no leste da Anatólia — eles ficaram isolados de suas porções ocidentais do vale inferior e se uniram. A modelagem das características subterrâneas revelou que esses dois rios antigos tinham vazões superiores às dos atuais Nilo e do sistema Tigre-Eufrates combinado.

Por que essa história geológica importa? Porque o Eufrates moldou o desenvolvimento humano de formas que ainda ecoam. A fértil planície entre o Eufrates e seu rio irmão, o Tigre, foi um dos berços da civilização. Uruk, berço da escrita, foi banhada por suas águas. Babilônia, a maior cidade da antiga Mesopotâmia, também. As águas do Eufrates e do Tigre se unem perto de Basra para formar um enorme delta na cabeceira do Golfo Pérsico, preenchendo a grande área da planície mesopotâmica onde se desenvolveram a agricultura primitiva, as primeiras cidades-estado e a escrita cuneiforme — elementos vitais para o desenvolvimento da humanidade primitiva.

A pesquisa, publicada na revista Nature Geoscience e conduzida pelo geocientista Simon Lang da Universidade da Austrália Ocidental junto com o geólogo Andrew Madof da Chevron, ilumina uma verdade maior: os rios mais caudalosos do planeta podem ter seus cursos alterados por eventos geológicos dramáticos. O Amazonas, maior rio do mundo, costumava fluir para oeste em direção aos atuais territórios da Colômbia e do Peru, rumo a uma foz deltaica no antigo Pacífico, antes da formação dos Andes. Com o crescimento dos Andes e seus enormes soerguimentos, todos os antigos braços distributários inverteram seu curso ao longo de milhões de anos, e agora o Amazonas deságua no Atlântico. O Eufrates, portanto, não é uma anomalia — é um exemplo de como a Terra se reconstrói continuamente, e como as civilizações humanas, por mais duradouras que pareçam, são construídas sobre fundações que estão sempre em movimento.

Essa tecnologia é o equivalente a usar ultrassom para obter imagens detalhadas de um bebê em desenvolvimento ou de um joelho artrítico, mas, neste caso, a usamos para obter imagens de cascalho, areia, lama, calcário e sal enterrados
— Simon Lang, geocientista da Universidade da Austrália Ocidental
De alguma forma, eles ficaram isolados de suas porções ocidentais do vale inferior e se uniram para formar o que hoje é o rio Eufrates. Esse 'de alguma forma' foi, obviamente, a atividade tectônica no leste da Anatólia
— Simon Lang
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Como exatamente os cientistas conseguiram enxergar rios que desapareceram há milhões de anos?

Model

Usaram imagem sísmica — basicamente ultrassom para a Terra. Ondas sonoras viajam através das camadas rochosas e refletem de formas diferentes dependendo do que encontram. Onde havia antigos canais fluviais, a composição do solo é distinta, então as ondas refletem de um jeito particular. Eles conseguiram mapear essas estruturas enterradas sob o leito marinho.

Inventor

Mas por que dois rios se juntariam? Isso não é raro?

Model

Não é raro, mas o mecanismo aqui é específico. A atividade tectônica nas Montanhas Taurus literalmente desviou o curso de um rio. Não foi erosão gradual ou mudança climática — foi o próprio solo se movendo, forçando a água a encontrar um novo caminho. Quando dois caminhos se encontram, eles se tornam um.

Inventor

E isso tem alguma relevância para hoje?

Model

Tem. Entender como eventos geológicos podem redirecionar rios permanentemente nos ajuda a compreender a vulnerabilidade de civilizações que dependem deles. O Eufrates alimenta milhões de pessoas agora. Saber que seu curso foi completamente reconfigurado no passado nos lembra que a geografia não é fixa.

Inventor

Os pesquisadores mencionaram que esses rios antigos eram maiores que o Nilo?

Model

Sim. Ao modelar as características subterrâneas, descobriram que os dois rios antigos tinham vazões superiores até ao Nilo e ao sistema Tigre-Eufrates combinado. Eram sistemas fluviais verdadeiramente poderosos.

Inventor

Então a Mesopotâmia foi moldada por um rio que já havia sido completamente transformado?

Model

Exatamente. Uruk, Babilônia, toda a civilização mesopotâmica floresceu nas margens de um rio que era o resultado de uma fusão tectônica ocorrida milhões de anos antes. A história humana é recente demais para ter visto o Eufrates em sua forma original.

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