Do ábaco japonês à franquia de R$ 187 mi: engenheiro do ITA cria rede de estimulação cognitiva

Metodologia presencial e analógica em um setor cada vez mais digital
Perpétuo apostou no ábaco e nas aulas presenciais enquanto escolas avançam com telas e aplicativos.

Antônio Carlos Perpétuo desenvolveu o Supera em 2006 após buscar alternativas pedagógicas para filho com problemas de concentração, combinando soroban com exercícios cognitivos e dinâmicas de grupo. Estudo da USP com 207 idosos mostrou benefícios em funções executivas, qualidade de vida e redução de sintomas depressivos entre participantes do programa de 18 meses.

  • Antônio Carlos Perpétuo, engenheiro do ITA, criou o Supera em 2006 em São José dos Campos
  • Rede opera 250+ unidades no Brasil com faturamento de R$ 187 milhões em 2025
  • Estudo da USP com 207 idosos mostrou benefícios em funções executivas e qualidade de vida
  • 79,5% dos 28 mil alunos ativos são idosos
  • Empresa projeta 311 unidades e crescimento de 35% em 2026

Engenheiro do ITA criou metodologia de estimulação cognitiva usando ábaco japonês para ajudar filho com dificuldades de concentração, transformando a ideia em rede com 250 unidades e faturamento de R$ 187 milhões em 2025.

Antônio Carlos Perpétuo, engenheiro aeronáutico formado pelo ITA, não estava procurando criar uma rede de franquias quando começou a pesquisar formas de ajudar seu filho caçula. O menino tinha dificuldade para se concentrar nas aulas, não acompanhava o conteúdo e suas notas refletiam o problema. A família tentou as rotas convencionais: terapia, reforço escolar, ambientes mais adequados para estudo. Nada funcionava como esperado.

Em conversas com membros da comunidade japonesa em São José dos Campos, Perpétuo conheceu o soroban — o ábaco japonês. Procurou professores e praticantes para entender os possíveis benefícios do instrumento. Como sua formação não era em educação, buscou educadores das redes pública e privada local para estruturar uma metodologia que pudesse ser aplicada em sala de aula. A primeira unidade do Supera abriu em 2006. Um ano depois, a empresa entrou no sistema de franquias.

Vinte anos depois, o Supera opera mais de 250 unidades no Brasil. Em 2025, a rede faturou R$ 187 milhões. O método combina o soroban com exercícios em apostilas, jogos de tabuleiro, dinâmicas de grupo e recursos digitais como apoio pedagógico. As aulas ocorrem uma vez por semana, com duração de duas horas, organizadas por faixa etária. A empresa define o curso como estimulação cognitiva — não como escola regular, reforço escolar ou tratamento médico. O público vai desde crianças a partir dos 5 anos até idosos sem limite máximo de idade. Dos 28 mil alunos ativos, 79,5% são idosos.

A metodologia trabalha memória, concentração, raciocínio lógico, foco, criatividade, autoestima, disciplina e coordenação motora. O ábaco é a ferramenta central, exigindo atenção contínua, cálculo mental, coordenação e organização do pensamento. O programa também inclui práticas neuróbicas — como escrever com a mão não dominante ou realizar tarefas fora do padrão habitual — e uma plataforma online de suporte.

Em 2025, pesquisadores da Universidade de São Paulo publicaram um estudo sobre a metodologia na revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria. O ensaio clínico randomizado, controlado e cego acompanhou 207 idosos saudáveis por 24 meses. Um grupo participou do método Supera por 18 meses, enquanto os outros receberam informações sobre envelhecimento saudável ou apenas avaliações periódicas. Os participantes que fizeram o programa apresentaram benefícios em funções executivas — planejamento, tomada de decisão, resolução de problemas — além de melhora na percepção de qualidade de vida e redução de sintomas depressivos. A pesquisadora Thais Bento Lima Silva afirmou que atividades cognitivamente estimulantes podem contribuir para a reserva cognitiva, a capacidade do cérebro de lidar com alterações relacionadas ao envelhecimento.

O modelo de franquia varia conforme o porte da cidade. A rede informa investimento mínimo entre R$ 139 mil e R$ 199 mil, potencial de faturamento acima de R$ 500 mil a R$ 1 milhão por ano, payback estimado de 18 a 24 meses e lucratividade entre 15% e 25%. Para 2026, a empresa projeta crescimento de 35% em receita e número de unidades, com meta de chegar a 311 operações. A expansão tem foco em capitais e cidades de médio porte, com planos de chegar aos 27 estados brasileiros.

Claudia Mouro, consultora do Sebrae-SP, avalia que a trajetória de Perpétuo reúne características comuns ao empreendedorismo: identificação de demanda, busca por conhecimento e persistência. Ela relaciona o crescimento do Supera ao envelhecimento da população e ao interesse de adultos e idosos por atividades ligadas à cognição e qualidade de vida. Porém, destaca que a padronização é um ponto de atenção em uma rede com muitas unidades. Franquias dependem de processos bem definidos, capacitação recorrente de franqueados e treinamento de equipes para reduzir diferenças na aplicação da metodologia. A franqueadora informa que oferece acompanhamento na implantação, capacitações presenciais e remotas ao longo do ano.

O Supera mantém uma proposta centrada em aulas presenciais e ferramentas analógicas em um setor educacional cada vez mais marcado por recursos digitais. Perpétuo afirmou ao UOL que a empresa apostou em uma metodologia "presencial e analógica" justamente em contraste com o avanço de telas e aplicativos nas escolas. A expansão da franquia, porém, dependerá de fatores empresariais como demanda local, capacidade de gestão, treinamento das equipes e adesão dos alunos ao curso.

A empresa apostou em uma metodologia presencial e analógica em um ambiente educacional marcado pelo avanço de recursos digitais
— Antônio Carlos Perpétuo, fundador do Supera
Atividades cognitivamente estimulantes podem contribuir para a reserva cognitiva, capacidade do cérebro de lidar com alterações relacionadas ao envelhecimento
— Thais Bento Lima Silva, pesquisadora da USP
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Como um engenheiro aeronáutico termina criando uma rede de estimulação cognitiva com ábaco japonês?

Model

Perpétuo não saía procurando uma oportunidade de negócio. Ele estava tentando resolver um problema pessoal — o filho não conseguia se concentrar na escola. Quando as soluções óbvias não funcionaram, ele pesquisou, conversou com pessoas que conheciam o soroban, e estruturou uma metodologia com educadores. O negócio veio depois.

Inventor

Por que o ábaco funciona melhor que as outras coisas que a família tentou?

Model

O soroban exige algo que terapia ou reforço escolar isolados não conseguem oferecer: atenção contínua, movimento das mãos, cálculo mental simultâneo. É uma atividade que demanda foco total. Não é passivo. Você tem que estar ali, presente.

Inventor

O estudo da USP prova que funciona para todo mundo?

Model

Não. O estudo acompanhou idosos saudáveis por 24 meses. Mostrou benefícios reais em funções executivas e qualidade de vida. Mas isso não autoriza dizer que funciona para crianças com transtorno de déficit de atenção, ou para pessoas com Alzheimer, ou para qualquer outra condição. É um programa específico para um público específico.

Inventor

Por que a empresa insiste em aulas presenciais quando tudo está indo para digital?

Model

Porque o ábaco é analógico. Você não pode treinar coordenação motora e atenção através de uma tela. A empresa vê isso como diferencial — enquanto escolas correm atrás de aplicativos, o Supera oferece algo que exige presença física, movimento, contato.

Inventor

Qual é o risco real para uma franquia que cresce tão rápido?

Model

Padronização. Com 250 unidades espalhadas pelo país, como garantir que o método está sendo aplicado da mesma forma em São Paulo e no Amapá? A consultora do Sebrae foi clara: franquias precisam de processos bem definidos e treinamento recorrente. Se isso falhar, a qualidade cai e a marca sofre.

Inventor

E se a moda passar? Se as pessoas perderem interesse em estimulação cognitiva?

Model

O envelhecimento da população não é moda. É demografia. Enquanto houver idosos buscando qualidade de vida e adultos preocupados com cognição, haverá demanda. O desafio é manter a consistência e não deixar o crescimento comprometer a qualidade do que funciona.

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