Empresas de IA são 'novos impérios' sem plano de negócios real, diz jornalista

Trabalhadores do Sul global são explorados com salários muito baixos em tarefas fundamentais para desenvolvimento de IA, e empregos são prejudicados com maior insegurança e precariedade.
Essas companhias simplesmente investem umas nas outras para inflar valores
Hao explica como empresas de IA carecem de substância financeira real e criam bolha especulativa.

Em meio ao entusiasmo global pela inteligência artificial, a jornalista Karen Hao ergue uma voz dissonante e documentada: as grandes empresas de IA não são apenas negócios disruptivos, mas estruturas de poder que reproduzem a lógica imperial — apropriando-se de recursos coletivos, explorando trabalhadores vulneráveis e envolvendo-se em narrativas morais para justificar sua expansão. Seu alerta, lançado no Hay Festival Cartagena 2026, convida a humanidade a questionar quem realmente controla a infraestrutura do futuro e a que custo.

  • Hao denuncia que empresas como OpenAI e X constroem impérios digitais sobre recursos que não lhes pertencem — dados de usuários, propriedade intelectual de criadores e trabalho barato de profissionais do Sul global.
  • A opacidade é arma estratégica: quanto menos o público souber sobre consumo de energia, centros de dados e modelos de negócio, mais fácil é manipular a narrativa sobre os benefícios da IA.
  • O mercado financeiro está inflado por investimentos cruzados entre as próprias empresas de IA, sem plano de negócios real — uma bolha que, se estourar, pode provocar uma crise comparável à de 2008.
  • A integração de IA generativa — imprecisa e não confiável — em sistemas militares enfraquece normas internacionais e coloca decisões de vida ou morte nas mãos de poucos indivíduos.
  • Apesar do diagnóstico sombrio, Hao se declara otimista: acredita que expor as raízes do problema é o primeiro passo para que a sociedade encontre um caminho mais humano e sustentável.

Karen Hao, jornalista especializada em tecnologia e autora do livro 'Empire of AI', escolheu uma palavra deliberadamente provocadora para descrever as maiores empresas de inteligência artificial do mundo. Durante o Hay Festival Cartagena 2026, na Colômbia, ela explicou que a comparação com impérios não é retórica vazia: essas companhias apropriam-se de recursos alheios, exploram trabalhadores vulneráveis, monopolizam o conhecimento científico e constroem narrativas morais para justificar sua existência — exatamente como os impérios históricos.

A opacidade é, segundo Hao, uma escolha estratégica. As empresas ocultam como treinam seus sistemas, onde constroem centros de dados, quanta água e energia consomem e como vendem seus modelos. Essa névoa deliberada permite manipular a percepção pública sobre impactos reais da tecnologia. Enquanto isso, trabalhadores do Sul global recebem salários irrisórios por tarefas essenciais ao desenvolvimento da IA, e pesquisadores são majoritariamente financiados pelas próprias empresas — distorção comparável à de climatologistas pagos por petroleiras.

Hao desmonta também a imagem pública de figuras como Elon Musk e Sam Altman. Musk nunca foi contra a IA em si — era contra não controlá-la. Altman, por sua vez, usou o discurso sem fins lucrativos para atrair talentos e, uma vez consolidado o poder, converteu a OpenAI em empresa plenamente orientada ao lucro. Ambos seguem o mesmo padrão: ocupar o centro do poder e protegê-lo.

O risco mais imediato, na avaliação da jornalista, é financeiro. Grande parte da valorização das bolsas americanas repousa sobre empresas de IA sem substância real — companhias que investiram umas nas outras para inflar artificialmente seus valores. Um relatório recente já apontava queda na adoção de ferramentas de IA generativa por não gerarem retorno suficiente. Se a bolha estourar, as consequências globais podem rivalizar com a crise de 2008.

Mas Hao termina com otimismo cauteloso. Ela pesquisa e critica porque acredita que o mundo pode ser melhor. O que a preocupa não é a tecnologia em si, mas a estrutura de poder que a controla — insustentável financeira, ambiental e humanamente. Se a sociedade conseguir enfrentar essas raízes, ainda há caminho para um futuro mais justo.

Karen Hao, jornalista americana especializada em tecnologia, olha para as maiores empresas de inteligência artificial do mundo e vê algo que a maioria não quer nomear: impérios. Não no sentido histórico tradicional, mas estruturas de poder que funcionam de forma notavelmente semelhante aos impérios que estudamos nos livros — apropriando-se de recursos alheios, extraindo valor de trabalhadores vulneráveis, monopolizando conhecimento e envolvendo-se em narrativas morais que justificam sua existência.

Hao trabalhou para o Wall Street Journal e estudou no MIT, onde conheceu pessoalmente alguns dos desenvolvedores mais influentes das principais empresas de IA. Seu livro recente, "Empire of AI", se tornou um sucesso de vendas segundo o New York Times, e ela ganhou diversos prêmios por suas investigações. Durante uma entrevista no Hay Festival Cartagena 2026, realizado na Colômbia no final de janeiro, ela explicou por que escolheu esse título provocador: queria que as pessoas compreendessem que existe um argumento profundo por trás da comparação, algo que despertasse curiosidade sobre o que essas companhias realmente estão fazendo.

O que essas companhias estão fazendo, segundo Hao, é manter tudo extremamente opaco. As empresas não querem que saibamos como funcionam, como treinam seus sistemas, onde constroem seus centros de dados, quanta água e energia consomem, ou como vendem seus modelos para diferentes indústrias. Essa opacidade é deliberada: quanto menos as pessoas souberem, mais essas empresas podem manipular narrativas sobre a tecnologia, seus impactos e como nos afetará. As semelhanças com impérios vão além da falta de transparência. Hao aponta que essas companhias reivindicam recursos que não lhes pertencem — coletam dados de pessoas comuns para treinar modelos e apropriam-se da propriedade intelectual de artistas e criadores. Exploram trabalhadores, pagando muito pouco a profissionais do Sul global por tarefas fundamentais para o desenvolvimento de IA. Depois que a tecnologia é desenvolvida, continuam prejudicando empregos com maior insegurança e precariedade. Monopolizam a produção de conhecimento: a maioria dos pesquisadores de IA é financiada pelas próprias empresas de IA, o que distorce a perspectiva científica da mesma forma que seria distorcida se a maioria dos climatologistas fosse financiada por empresas de combustíveis fósseis.

Os impérios sempre se envolvem em narrativas morais sobre sua existência, apresentando-se como boas forças trazendo progresso. As empresas de IA fazem exatamente isso: prometem acesso ao paraíso através da tecnologia, argumentando que sem permitir acesso a recursos, trabalho e conhecimento, perderemos para impérios malignos que levarão a humanidade ao inferno. É uma retórica que os Estados Unidos vêm usando há muito tempo em sua construção imperialista, e a IA a reproduz fielmente. Mark Zuckerberg usou argumentos semelhantes durante a era das redes sociais, dizendo que regulamentação as faria perder vantagem frente à China. Essa narrativa de "nós ou eles" é extremamente eficiente com o público americano, oferecendo a essas companhias o poder de desenvolver atividades que Hao descreve como "verdadeiramente horríveis".

Quanto a Elon Musk, que costumava expressar preocupação com o desenvolvimento de IA, Hao acredita que ele nunca mudou de perspectiva. Seus medos sempre se referiram ao fato de que, antes, não era ele quem controlava a tecnologia. Quando não fazia parte do jogo, era agressivo na promoção de regulamentações — um mecanismo para controlar o poder de concorrentes como o Google. Agora que faz parte, quer proteger o controle da IA e de sua empresa. Sam Altman, da OpenAI, segue padrão semelhante. Hao acreditava inicialmente que a OpenAI era sincera sobre seu desenvolvimento sem fins lucrativos, mas percebeu que Altman sempre teve a mesma posição que Musk: manter-se no centro do poder. A estratégia inicial era oferecer salários menores em troca de trabalhar por um propósito melhor e fazer parte da história. Assim que captaram os talentos, o desenvolvimento sem fins lucrativos perdeu valor e a OpenAI se tornou institucionalmente uma empresa totalmente focada em lucros.

O uso crescente de IA em defesa e estruturas militares preocupa Hao profundamente. O Pentágono anunciou recentemente que usará o Grok, ferramenta de IA de Musk. Mas essa tecnologia é imprecisa e não confiável, especialmente a IA generativa. Estamos integrando tecnologia não confiável a sistemas envolvidos em situações de vida ou morte, enfraquecendo normas internacionais que exigiam julgamento humano em decisões de guerra. Esses sistemas são criados por poucas pessoas que decidem conforme seu estado de saúde mental quando acordam pela manhã, e são responsáveis por alterar sistemas que afetam infraestruturas militares fundamentais.

Quanto às pressões que sofre, Hao relata que a OpenAI se mostrou interessada em participar do livro até começar a ser investigada pelo governo. Depois disso, se tornou pouco cooperativa, não respondendo a pedidos de comentários mesmo quando ela oferecia seis semanas para resposta. Algumas empresas começaram a perceber que é melhor entrar em contato com ela e esclarecer seus pontos de vista. Hao leva seus comentários muito a sério.

O maior risco que Hao identifica é uma bolha de IA que, se estourar, trará consequências dramáticas semelhantes à crise de 2008. Grande parte do crescimento do mercado de bolsa nos Estados Unidos está baseado em empresas de IA com valor zero. Não houve impulso econômico generalizado — essas companhias simplesmente investiram umas nas outras para inflar o valor de suas ações. Um relatório do ano passado mostrou que a adoção de ferramentas de IA generativa em dezenas de empresas diminuiu porque não estavam gerando lucros que justificassem a aquisição desses serviços. As companhias de IA não têm um plano de negócio real. Não têm substância para sustentar seu valor. Uma quebra das bolsas terá efeitos enormes para o mundo.

Mas Hao insiste que é otimista. O motivo que a leva a pesquisar e criticar é porque acredita que o mundo pode ser melhor. Se não acreditasse, não faria seu trabalho. O que a deixa pessimista é a estrutura de poder corrupta existente. Não acredita que seja sustentável, do ponto de vista financeiro, ambiental e de direitos humanos, permitir que um pequeno grupo de pessoas controle a infraestrutura mundial a partir da Califórnia. Essa infraestrutura física transforma a terra, as redes elétricas e o abastecimento de água. A infraestrutura intelectual e social oferece às pessoas ferramentas das quais ficam dependentes, prejudicando suas relações sociais e pensamento crítico. Mas se conseguirmos resolver o problema atual e suas raízes, como sociedade poderemos encontrar um caminho mais humano e sustentável para todos.

Se eu não fosse otimista, não pesquisaria nem criticaria essas companhias. Acredito que o mundo pode ser melhor.
— Karen Hao
As companhias de IA não têm um plano de negócio. Não têm uma substância real para sustentar seu valor.
— Karen Hao
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Por que você escolheu comparar empresas de IA com impérios? Não é uma comparação um pouco exagerada?

Model

Não é exageração. Impérios reivindicam recursos que não lhes pertencem, exploram trabalhadores mal remunerados e monopolizam conhecimento. As empresas de IA fazem exatamente isso — coletam dados de pessoas comuns, apropriam-se de propriedade intelectual de artistas, pagam muito pouco a trabalhadores do Sul global. A estrutura é idêntica.

Inventor

Mas essas empresas argumentariam que estão trazendo progresso e benefício para a humanidade.

Model

Claro que argumentam. Todos os impérios fazem isso. Eles se apresentam como forças do bem trazendo civilização. As empresas de IA prometem acesso ao paraíso, dizem que sem elas perderemos para impérios malignos. É retórica imperialista pura, a mesma que os Estados Unidos usam há séculos.

Inventor

Você menciona que a maioria dos pesquisadores de IA é financiada pelas próprias empresas. Como isso distorce a pesquisa?

Model

Imagine se a maioria dos climatologistas fosse financiada por empresas de combustíveis fósseis. Não teríamos uma perspectiva clara da crise climática. O mesmo acontece com IA. As pessoas que consultamos sobre essa tecnologia estão no bolso dessas companhias. Não temos uma perspectiva precisa.

Inventor

Você acredita que existe uma bolha de IA que pode estourar?

Model

Não acredito — tenho certeza. Grande parte do crescimento do mercado de bolsa nos Estados Unidos está baseado em empresas de IA com valor zero. Essas companhias investem umas nas outras para inflar valores de ações. Um relatório recente mostrou que a adoção de IA generativa em empresas diminuiu porque não gera lucros. Não há substância real sustentando esses valores.

Inventor

Se a bolha estourar, qual seria o impacto?

Model

Dramático. Semelhante à crise de 2008, mas potencialmente pior porque essas infraestruturas controlam sistemas críticos — redes elétricas, abastecimento de água, agora até defesa militar. Um pequeno grupo na Califórnia controla infraestruturas que afetam o mundo inteiro.

Inventor

Você é pessimista ou otimista sobre o futuro?

Model

Sou otimista sobre o que a IA poderia ser. Sou pessimista sobre a estrutura de poder corrupta que a controla agora. Mas se conseguirmos resolver o problema atual e suas raízes, poderemos encontrar um caminho mais humano e sustentável para todos.

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