Não sei se as empresas vão suportar custos maiores num cenário de desaceleração
O Brasil cresce, mas desacelera — e é nesse intervalo entre o impulso e o freio que as empresas se veem mais vulneráveis. Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, alerta que a combinação de aperto fiscal e desaceleração econômica cria um momento de tensão estrutural: o governo busca fechar as contas, mas os instrumentos disponíveis podem custar caro ao setor produtivo. A reforma tributária, apresentada como solução, é neutra em carga — mas medidas paralelas podem elevar a pressão sobre empresas já enfraquecidas pelo ciclo de juros altos.
- O PIB deve crescer cerca de 2% em 2023, mas a projeção cai para apenas 1% em 2024 — a desaceleração não é acidente, é consequência do combate à inflação.
- O governo prometeu déficit zero em 2024, mas o Santander estima 0,9% do PIB, e faltam medidas concretas para fechar essa lacuna sem depender de uma coordenação política que raramente se materializa.
- Medidas adicionais de arrecadação podem ampliar o orçamento em até R$ 160 bilhões — o que, na prática, representa aumento de carga tributária sobre empresas que já enfrentam margens comprimidas.
- A autonomia do Banco Central e o sistema de metas de inflação, construídos ao longo de décadas, são vistos como pilares inegociáveis para qualquer perspectiva de recuperação do grau de investimento.
- A recuperação do selo de bom pagador depende de consolidação fiscal real, inflação sob controle e preservação institucional — condições possíveis, mas sem prazo garantido.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, vê o Brasil crescendo, mas perdendo velocidade. A projeção do banco é de 2% de crescimento do PIB em 2023 e apenas 1% em 2024 — uma desaceleração esperada, resultado do aperto monetário necessário para conter a inflação. O problema é que, quando a economia freia, arrecadar fica mais difícil, e o governo precisa exatamente do contrário.
O ministro da Fazenda prometeu zerar o déficit primário em 2024. Vescovi é cética: o banco estima um déficit de 0,9% do PIB, e não há medidas concretas suficientes para cobrir a diferença. Qualquer solução passa pelo Congresso — e coordenação política em Brasília é escassa.
A reforma tributária, tecnicamente neutra em carga, é bem-vinda no longo prazo. Mas o governo quer, ao mesmo tempo, ampliar o orçamento de 2024 em até R$ 160 bilhões com novas medidas de arrecadação. Na prática, isso significa mais impostos sobre empresas que já enfrentam margens apertadas. Vescovi questiona se o setor produtivo tem fôlego para absorver esse custo num momento de desaceleração.
Sobre o Banco Central, a economista é direta: a instituição foi criada para combater inflação, não para ceder a pressões políticas por juros mais baixos. O sistema de metas, construído ao longo de mais de duas décadas, é patrimônio que não se descarta. E é justamente a preservação desse arcabouço — junto à consolidação fiscal e à credibilidade institucional — que pode abrir caminho para o Brasil recuperar o grau de investimento. Vescovi não promete datas, mas aponta a direção.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, enxerga um Brasil em encruzilhada. A economia cresce, sim, mas a velocidade está caindo. E enquanto o governo tenta fechar as contas públicas, as empresas enfrentam uma pressão cada vez maior: mais impostos, menos fôlego para crescer.
O cenário que Vescovi desenha é claro. Para este ano, o banco projeta um crescimento do PIB próximo a 2%. Em 2024, a previsão cai para 1%. Essa desaceleração não é acidental — é resultado do trabalho de controlar a inflação, que exigiu aperto monetário. Mas quando a economia anda mais devagar, arrecadar fica mais difícil. É como tentar encher um balde que tem um furo cada vez maior.
O ministro da Fazenda quer zerar o déficit primário em 2024. Parece ambicioso? Vescovi é cética. O banco estima um déficit de 0,9% do PIB — não é zero. E aqui está o problema real: não há medidas concretas suficientes para arrecadar o volume que o governo prometeu. Pior ainda, qualquer solução exige aprovação no Congresso, e coordenação política é luxo em Brasília.
A reforma tributária, que o governo apresenta como solução, é mais complicada do que parece. Do ponto de vista técnico, ela é neutra — não aumenta nem diminui a carga total. Mas há um porém. Junto com a reforma, o governo quer ampliar o orçamento de 2024 em até 160 bilhões de reais através de novas medidas de arrecadação. Isso é, na prática, um aumento de carga. E aqui Vescovi toca no ponto que mais a preocupa: empresas conseguem suportar custos maiores quando a economia está desacelerando? Sua resposta é duvidosa.
Vescovi reconhece que a reforma tributária é bem-vinda — ela pode ajudar o país a crescer mais no longo prazo. Mas o timing é ruim. Aumentar impostos quando as empresas ganham menos é receita para aperto ainda maior. É como pedir que alguém aperte o cinto quando já está magro.
Quando o assunto é o Banco Central, Vescovi defende a instituição com firmeza. O presidente Lula reclama dos juros altos e até cogitou acabar com a autonomia do BC. Mas Vescovi lembra que o banco foi criado para combater inflação, não para baixar juros. E a inflação baixa — em torno de 3%, como é a meta — é fundamental para crescimento de longo prazo e distribuição de renda. O Brasil passou mais de 20 anos construindo um sistema de metas de inflação. Jogar isso fora seria um retrocesso.
Sobre a possibilidade de o Brasil recuperar o grau de investimento — aquela classificação que atrai capital estrangeiro — Vescovi é pragmática. Não é questão de ter espaço, é de aproveitar os espaços que existem. Consolidação fiscal, meta de inflação mantida, política monetária comprometida com convergência para a meta, institucionalidade do Banco Central preservada. Tudo isso cria condições favoráveis. Mas ela não promete nada. Não sabe se vai acontecer nesse prazo.
Citas Notables
Tenho dúvidas de que o país consiga conviver com o desafio de crescimento e uma carga tributária ainda maior— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
O Banco Central é uma instituição criada para o combate à inflação. O foco não é o juro— Ana Paula Vescovi
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que uma reforma tributária neutra em carga preocupa tanto se não muda o total de impostos?
Porque ela vem acompanhada de outras medidas que aumentam 160 bilhões em arrecadação. A reforma em si é neutra, mas o pacote todo não é. É como dizer que a roupa não mudou, mas o peso dentro dela aumentou.
E por que o timing importa tanto? Não é melhor aumentar impostos agora do que deixar a dívida crescer?
Porque quando a economia desacelera, as empresas ganham menos. Aumentar custos nesse momento é apertar ainda mais. É a diferença entre fazer uma cirurgia quando o paciente está forte ou quando está fraco.
Você acha que o governo consegue zerar o déficit em 2024?
Não. Nem o Santander acredita. Estimamos 0,9% de déficit. E não há medidas suficientes aprovadas para fechar essa conta. Faltam votos no Congresso.
O presidente quer mexer na autonomia do Banco Central. Isso é perigoso?
Muito. O BC foi construído para combater inflação, não para agradar presidente. Vinte anos de credibilidade em metas de inflação não se reconstrói rápido. Se perder isso, a inflação volta e come o crescimento.
Então o Brasil consegue recuperar o grau de investimento?
Pode conseguir. Mas precisa entregar: consolidação fiscal real, inflação na meta, BC independente. Tudo junto. Não é impossível, mas também não é garantido.
E as empresas? Como ficam no meio disso tudo?
Apertadas. Crescimento lento, impostos maiores. É um cenário difícil para quem precisa investir e gerar emprego.