Mais pessoas trabalhando, mas com rendimentos menores
No Brasil do pós-pandemia, mais pessoas voltam ao trabalho — mas o retorno ao emprego não significa retorno à dignidade salarial. O trimestre encerrado em novembro revelou uma recuperação em dois tempos: o mercado formal cresceu 4%, o desemprego recuou para 11,6%, e ainda assim os rendimentos reais atingiram seu menor patamar desde 2012, corroídos pela inflação e pela pressão de uma oferta de mão de obra ainda vulnerável. É o paradoxo de uma nação que ocupa mais, mas remunera menos — onde o movimento dos números esconde a imobilidade das condições.
- O desemprego caiu para 11,6%, mas 29 milhões de brasileiros ainda estão subutilizados — disponíveis para trabalhar mais do que o mercado lhes oferece.
- O rendimento médio real despencou para R$ 2.444, o menor da série histórica desde 2012, enquanto a inflação corrói o poder de compra de quem voltou a trabalhar.
- A informalidade respondeu por 43% da recuperação da ocupação, com 38,6 milhões de trabalhadores sem proteção formal — uma estrutura que sustenta o emprego, mas fragiliza o trabalhador.
- Setores como alojamento e alimentação, entre os mais devastados pela pandemia, cresceram 9,3%, sinalizando que a retomada avança, ainda que de forma desigual.
- A sustentabilidade da recuperação permanece incerta: mais postos existem, mas sem melhora salarial, o mercado de trabalho pode estar reconstruindo volume sem reconstruir qualidade.
No trimestre encerrado em novembro, o Brasil registrou queda do desemprego para 11,6%, impulsionada principalmente pelo crescimento do mercado formal. O IBGE divulgou os dados da PNAD Contínua revelando um cenário de recuperação ainda frágil: mais postos de trabalho foram criados, mas os salários reais encolheram.
O emprego com carteira assinada no setor privado cresceu 4%, adicionando 1,3 milhão de trabalhadores. O trabalho sem carteira avançou 7,4%, com 838 mil pessoas a mais, e os trabalhadores domésticos chegaram a 5,6 milhões. A coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE, Adriana Beringuy, situou os dados como reflexo da saída do cenário deprimido pela pandemia — uma melhora real, mas ainda distante da normalidade anterior.
A informalidade permaneceu como força estruturante: 40,6% da força de trabalho, com 38,6 milhões de pessoas sem proteção formal. Embora tenha respondido por 43% do crescimento da ocupação — proporção menor do que os quase 80% registrados em momentos mais agudos da pandemia —, o trabalho informal continua sendo o principal motor de absorção de mão de obra no país.
O lado mais sombrio da recuperação está nos rendimentos. O salário médio habitual caiu para R$ 2.444, recuo de 4,5% em relação ao trimestre anterior e de 11,4% frente ao mesmo período de 2020 — o menor nível já registrado desde o início da série histórica, em 2012. A massa salarial total se manteve estável apenas porque mais pessoas estavam trabalhando, não porque ganhassem mais. Beringuy apontou a inflação e a dinâmica de negociação entre oferta e demanda como fatores que impedem reajustes mesmo com mais vagas disponíveis.
O comércio liderou a expansão setorial com 719 mil novos ocupados, seguido pela indústria e pelo setor de alojamento e alimentação, que cresceu 9,3%. A taxa de ocupação geral subiu para 55,1%, aproximando-se dos 95,4 milhões de pessoas empregadas em novembro de 2019, antes da pandemia. Ainda assim, 29 milhões permaneciam subutilizados e 4,9 milhões desalentados — fora do mercado, mas disponíveis para trabalhar.
O retrato que emerge é o de um mercado em movimento, mas não em equilíbrio: mais emprego, menos renda; mais formalidade, mais informalidade também. A qualidade dessa recuperação dependerá, nos próximos trimestres, de como evoluir a dinâmica salarial num país que voltou a ocupar suas pessoas sem ainda conseguir remunerá-las melhor.
No trimestre que terminou em novembro, o Brasil viu o desemprego recuar para 11,6%, uma queda que reflete principalmente o crescimento do mercado formal de trabalho. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios nesta sexta-feira, revelando um quadro de recuperação ainda frágil, onde os ganhos em postos de trabalho não se traduzem em melhores salários para quem trabalha.
O emprego com carteira assinada no setor privado cresceu 4% em relação ao trimestre anterior, adicionando 1,3 milhão de novos trabalhadores formais. Ao mesmo tempo, o trabalho sem carteira no setor privado também avançou, com 838 mil pessoas a mais, um crescimento de 7,4%. Os trabalhadores por conta própria somaram 588 mil novos integrantes, enquanto os domésticos tiveram expansão de 6%, chegando a 5,6 milhões de pessoas. Esses números mostram movimento em múltiplas direções do mercado de trabalho, cada uma com suas próprias características de proteção e vulnerabilidade.
A coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE, Adriana Beringuy, contextualizou os dados como reflexo da recuperação após o impacto devastador da pandemia de covid-19. Em 2020, quando a vacinação ainda não existia e as restrições eram severas, o desemprego havia atingido patamares muito mais altos. A melhora atual representa um afastamento daquele cenário deprimido, mas não um retorno completo à normalidade anterior.
A informalidade permanece como força estruturante do mercado de trabalho brasileiro. A taxa ficou em 40,6% no trimestre, praticamente estável em relação ao período anterior, mesmo com o aumento absoluto de trabalhadores informais para 38,6 milhões. Beringuy ressaltou que a informalidade respondeu por 43% do crescimento total da ocupação no trimestre, um papel importante mas menor do que em momentos anteriores da pandemia, quando chegou a representar quase 80% da recuperação. O trabalho formal começava a ganhar espaço relativo, ainda que a informalidade continuasse sendo o motor principal de absorção de mão de obra.
Mas há um lado sombrio nessa recuperação: os rendimentos reais caíram para o menor nível já registrado pela série histórica da pesquisa, que começou em 2012. O rendimento médio habitual chegou a R$ 2.444, uma queda de 4,5% em relação ao trimestre anterior e de 11,4% comparado ao mesmo período de 2020. A massa de rendimento real habitual permaneceu estável em R$ 227 bilhões apenas porque mais pessoas estavam trabalhando, não porque ganhassem mais. Beringuy apontou que a inflação em curso e a dinâmica de negociação entre oferta de trabalho e demanda de contratação explicam por que os trabalhadores não conseguem obter remunerações maiores mesmo com mais postos disponíveis.
O comércio liderou a expansão setorial, com 719 mil novos ocupados e crescimento de 4,1%. A indústria adicionou 439 mil pessoas, com aumento de 3,7%. O segmento de alojamento e alimentação, um dos mais atingidos pela pandemia, teve expansão de 9,3%, com 438 mil empregados a mais. A taxa de ocupação geral recuperou para 55,1%, ainda distante do recorde histórico de 58,5% em novembro de 2013, mas próxima aos 95,4 milhões de pessoas ocupadas que havia em novembro de 2019, antes da pandemia.
Porém, 29 milhões de pessoas permaneciam em situação de subutilização, disponíveis para trabalhar mais horas do que conseguem. Os desalentados, aqueles que não buscam trabalho mas estariam disponíveis, somavam 4,9 milhões, uma redução em relação aos trimestres anteriores mas ainda um contingente expressivo de pessoas fora do mercado formal de busca. A população fora da força de trabalho caiu 2% no trimestre, uma redução de 1,3 milhão de pessoas, sinalizando que mais gente estava voltando a procurar ocupação.
O quadro que emerge é o de um mercado de trabalho em movimento, com mais pessoas empregadas mas ganhando menos, mais postos formais sendo criados mas acompanhados por expansão da informalidade, e uma recuperação que ainda não alcançou os patamares pré-pandemia em termos de qualidade de vida dos trabalhadores. A sustentabilidade dessa recuperação dependerá de como evoluir a dinâmica salarial nos próximos trimestres.
Citas Notables
Temos mais pessoas trabalhando do que antes, no entanto, com rendimentos menores. Associado a isso temos um processo inflacionário em curso, que é bastante negativo para os rendimentos reais.— Adriana Beringuy, coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o desemprego caiu se os salários também caíram? Isso não deveria ser contraditório?
Não é contraditório porque são fenômenos diferentes. Mais pessoas conseguiram trabalho, mas em condições piores. A inflação corroeu o poder de compra, e os patrões não estão oferecendo salários maiores mesmo com mais gente procurando emprego.
E a informalidade? Ela cresceu ou diminuiu?
Cresceu em números absolutos — 38,6 milhões de pessoas agora — mas sua participação relativa na recuperação diminuiu. Antes respondia por quase 80% dos novos empregos. Agora é 43%. O trabalho formal está ganhando espaço, mas lentamente.
Quem mais se beneficiou dessa recuperação?
O comércio foi o grande absorvedor, com 719 mil novos postos. Alojamento e alimentação, que foram devastados, tiveram expansão de 9,3%. Mas esses setores tendem a oferecer salários menores, o que explica por que a renda média caiu.
Então as pessoas estão voltando a trabalhar em piores condições?
Exatamente. Mais ocupação, mas com rendimentos reais no menor patamar da série histórica. É uma recuperação quantitativa, não qualitativa. A inflação está comendo os ganhos.
Há esperança de melhora?
Depende da dinâmica salarial nos próximos trimestres. Se a inflação arrefecer e os patrões começarem a oferecer salários competitivos, sim. Mas por enquanto, o trabalhador está perdendo poder de compra mesmo com mais emprego.