De distribuidor de panfletos aos 13 anos a comandante de complexo gastronômico de 4 mil m²

Tive muitas provocações em minha vida
Temperani reflete sobre a trajetória que o levou do trabalho infantil ao comando de um complexo gastronômico.

Temperani iniciou carreira aos 13 anos com distribuição de panfletos, pagando colegas e trabalhando como ajudante de cozinha nos fins de semana na Zona Norte. Antes do sucesso na gastronomia, testou diversos negócios: jornalzinho de anúncios, cartuchos de impressora e festas, acumulando experiência em vendas e relacionamento comercial.

  • Começou aos 13 anos distribuindo panfletos na Zona Norte de São Paulo
  • Trabalhava como ajudante de cozinha na lanchonete Dizzy, em Santana, nos fins de semana
  • Abriu o Macaxeira em 2015 e o URU Mar y Parrilla em 2019, ambos no Jardim Anália Franco
  • Vila Anália ocupa 4 mil metros quadrados com investimento de R$ 14 milhões, inaugurado em 2022
  • Comanda 400 profissionais no complexo gastronômico

Guilherme Temperani começou aos 13 anos distribuindo panfletos em São Paulo e hoje comanda o Vila Anália, complexo gastronômico de 4 mil m² com 400 funcionários no Jardim Anália Franco.

Aos 13 anos, Guilherme Temperani pegava uma bicicleta emprestada ou seguia a pé pelas ruas da Zona Norte de São Paulo carregando pilhas de panfletos. Não era um trabalho de fim de semana ou experiência de verão. Era seu negócio. Ele recrutava colegas da escola estadual Paulo Egydio de Oliveira Carvalho para ajudar na distribuição, pagava pela colaboração e mantinha relacionamento direto com os comerciantes locais que contratavam seus serviços. Nos fins de semana, enquanto outros adolescentes descansavam, Temperani lavava copos e ajudava na cozinha da lanchonete Dizzy, em Santana, absorvendo os primeiros ritmos da rotina gastronômica.

Essa sequência inicial de pequenos trabalhos não era apenas sobrevivência. Temperani transformava cada atividade em aprendizado estruturado. Quando distribuía panfletos, organizava colegas como se gerenciasse uma operação real. Quando viu oportunidade, criou um jornalzinho de anúncios voltado à Vila Maria, reunindo promoções de mercados, açougues, costureiras e sapateiros em um formato simples mas deliberado de publicidade local. A circulação pelo bairro deixava de ser apenas movimento e virava produto comercial. Depois vieram outras tentativas: uma empresa de cartuchos de impressora, iniciativas ligadas a festas e bailes nas zonas Norte e Leste. Nem todos os projetos vingaram, mas cada um depositava camadas de conhecimento prático em venda, operação e relacionamento com comerciantes.

O avanço mais consistente chegou quando Temperani se estabeleceu no Jardim Anália Franco, região da Zona Leste que se tornaria o centro de sua operação. Em 2015, abriu o Macaxeira, um restaurante de cozinha sertaneja, com investidores. Quatro anos depois, em 2019, expandiu a presença com o URU Mar y Parrilla, uma casa de carnes, ambos na rua Emília Marengo. Esses dois estabelecimentos funcionaram como laboratório e ponte para o que viria depois. Durante entrevista à Folha de S.Paulo em julho de 2024, Temperani refletiu sobre a trajetória: "Tive muitas provocações em minha vida", disse, referindo-se às dificuldades enfrentadas desde cedo.

O salto de escala aconteceu com a criação do Vila Anália, instalado na Rua Cândido Lacerda, 33, no Jardim Anália Franco, em uma esquina onde Tatuapé e o próprio bairro se misturam na percepção de frequentadores. O complexo ocupa 4 mil metros quadrados e reúne restaurantes, bar, confeitaria, empório, rooftop e dois pisos de estacionamento, com capacidade para receber até 980 clientes simultaneamente. O investimento ultrapassou R$ 14 milhões. A construção começou no fim de 2020, após a demolição de quatro imóveis no terreno. Quando apresentado pela revista Veja São Paulo em 2022, o projeto já consolidava sua proposta: concentrar diferentes experiências gastronômicas sob o mesmo teto, com espaços dedicados às culinárias do Japão, Itália, Espanha, Grécia e França, além de confeitaria.

A dimensão da operação atual está refletida na equipe. Em 2024, Temperani comandava 400 profissionais, um número que marca a distância entre o adolescente que coordenava pequenos trabalhos de bairro e o gestor de um grupo gastronômico estruturado. A rotina empresarial exigiu uma transformação completa: de contatos diretos com comerciantes locais para administração de centenas de pessoas, sistemas operacionais complexos e presença relevante na cena gastronômica da Zona Leste.

Ao explicar sua relação com o título de restaurateur, Temperani disse à Folha que gosta do processo de sentar à mesa, restaurar e compartilhar experiências, uma referência ao sentido de convivência que associa aos restaurantes. Há também uma conexão familiar que ele relaciona à própria trajetória: antepassados italianos ligados ao circo no Brasil no fim do século 19, uma herança que ele associa à inclinação para circular, adaptar ideias e criar negócios. Do deslocamento de bicicleta e caronas pelas ruas da Zona Norte ao comando de uma operação de milhares de metros quadrados, o percurso de Temperani permanece ancorado no mesmo princípio: transformar movimento, contato e experiência em estrutura comercial duradoura.

Tive muitas provocações em minha vida
— Guilherme Temperani, em entrevista à Folha de S.Paulo
Gosta do processo de sentar à mesa, restaurar e compartilhar experiências
— Guilherme Temperani, explicando sua relação com o título de restaurateur
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Inventor

Como alguém que começou distribuindo panfletos consegue pular para um complexo de 4 mil metros quadrados?

Model

Não foi um pulo. Foram degraus muito pequenos, mas constantes. Cada negócio que testou — o jornalzinho de anúncios, os cartuchos, as festas — ensinava algo sobre operação, sobre como falar com pessoas, sobre como organizar outras pessoas.

Inventor

Mas por que gastronomia especificamente? Ele poderia ter expandido a distribuição de panfletos.

Model

Porque ele trabalhou em cozinha nos fins de semana. Aquela lanchonete em Santana não era só um emprego. Era contato direto com o ritmo de um negócio de alimentação. Quando chegou ao Jardim Anália Franco, já tinha essa experiência acumulada.

Inventor

E os 400 funcionários em 2024 — como se gerencia isso vindo de um menino que pagava colegas da escola para ajudar?

Model

É uma mudança de escala brutal. Mas a lógica é a mesma: você precisa de pessoas, precisa organizá-las, precisa que elas entendam o que você quer. Ele aprendeu isso cedo, só que agora é com centenas de pessoas em vez de cinco colegas.

Inventor

Há algo que o diferencia de outros empreendedores que começam cedo?

Model

A persistência em testar coisas diferentes sem desistir da ideia de empreender. Muitos negócios não deram certo, mas ele não parou. E quando encontrou o Jardim Anália Franco, concentrou tudo ali, criou escala.

Inventor

Ele fala sobre isso como sacrifício ou como construção?

Model

Como construção. Quando comenta as dificuldades, diz que teve "muitas provocações". Não é vitimização. É reconhecimento de que o caminho foi áspero, mas que cada parte dele o preparou para o que veio depois.

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