Salários de seis dígitos já não sustentam vida em San Francisco

Profissionais de tecnologia qualificados enfrentam pressão financeira extrema e deslocamento forçado de San Francisco, comprometendo qualidade de vida e planos de futuro mesmo com renda extraordinária.
Não me sinto completamente sem esperança, mas acho que não consigo continuar em SF
Katrine Razniak, recrutadora ganhando US$ 180 mil anuais, sobre sua decisão de deixar San Francisco.

Recrutadora e engenheiro com renda combinada de US$ 365 mil não conseguem alugar apartamento de um quarto por menos de US$ 5 mil mensais. Aluguel médio em San Francisco (US$ 3.827/mês) superou Nova York; preço mediano de casa atingiu US$ 1,7 milhão, criando elite de IA com poder de gasto desproporcional.

  • Casal ganhando US$ 365 mil/ano não consegue alugar apartamento por menos de US$ 5 mil mensais
  • Aluguel médio em San Francisco: US$ 3.827/mês, superando Nova York
  • Preço mediano de casa: US$ 1,7 milhão; mediana nacional: US$ 450 mil
  • OpenAI e Anthropic podem criar mais de 20 novos bilionários entre funcionários
  • Taxa de vacância em bairros disputados caiu de 13% (2020) para 3% (2026)

Profissionais de tecnologia com salários de seis dígitos em San Francisco enfrentam dificuldades para se manter na cidade devido à explosão de custos imobiliários impulsionada pela riqueza gerada por empresas de IA como OpenAI e Anthropic.

Katrine Razniak e Adam Woodbury ganham juntos US$ 365 mil por ano. Ela trabalha na Rippling com salário de US$ 180 mil liderando gerentes de contas; ele é engenheiro de software ganhando US$ 185 mil. Pelos padrões de qualquer cidade americana, são extraordinariamente bem-remunerados. Em San Francisco, em 2026, isso não é suficiente.

Quando tentaram alugar um apartamento de um quarto por menos de US$ 5 mil mensais neste semestre, visitaram cerca de trinta imóveis em três meses. Todos estavam fora do alcance ou disputadíssimos. Em um anúncio de US$ 5.200 por mês, trinta pessoas colocaram seus nomes na lista de interessados em menos de uma hora. Eles desistiram da busca. Mas a questão que ficou foi mais profunda: em uma cidade onde compras no supermercado e um jantar com amigos viraram motivo de preocupação financeira, ainda havia futuro para construir?

O que está acontecendo em San Francisco não é uma crise imobiliária comum. É a chegada em massa de uma nova elite. OpenAI e Anthropic, ambas sediadas na cidade e avaliadas em quase um trilhão de dólares, se preparam para abrir capital. A análise da Sacra, empresa de pesquisa de mercados privados, aponta que essas duas empresas, junto com a SpaceX de Elon Musk, podem criar mais de vinte novos bilionários entre funcionários atuais e antigos. Esses bilionários e seus colegas bem-pagos têm poder de gasto que nenhum outro trabalhador de tecnologia consegue acompanhar. O aluguel médio em San Francisco já ultrapassou o de Nova York, chegando a US$ 3.827 por mês. O preço mediano de uma casa superou US$ 1,7 milhão em abril, bem acima da mediana nacional de US$ 450 mil. O custo de vida geral está 65,6% acima da média nacional.

Woodbury, cujo salário o coloca entre os vinte por cento de domicílios com maior renda nos Estados Unidos segundo dados do Census Bureau, disse algo que resume o sentimento: "Eu me sinto um pouco como se não fosse bom o bastante para morar aqui porque não trabalho em uma empresa de IA". Ele se mudou para Carnelian Bay, na região do lago Tahoe, onde o custo é mais baixo. Razniak continua em um apartamento em Haight-Ashbury que divide com duas colegas, pagando US$ 1.650 por mês. Os dois fazem o relacionamento à distância funcionar.

Nigel Hughes, pesquisador sênior da CoStar, descreveu a situação como "uma panela de pressão que esquentou muito rápido". A taxa de vacância em bairros disputados como Marina District, Pacific Heights e South of Market caiu para cerca de três por cento, ante treze por cento em 2020. A construção de novos imóveis desacelerou. Além da moradia, os custos com serviços públicos são quarenta e um por cento mais altos que a média nacional; transporte custa quarenta e três por cento a mais; supermercados têm preços dezenove por cento superiores. A remuneração média anual em San Francisco foi de US$ 196.365 no ano passado, ante US$ 153.359 em 2020.

Ted Egan, economista-chefe da cidade, observou que pessoas de alta renda sempre avaliaram se valia a pena aceitar as trocas impostas por San Francisco ou se mudar para um lugar com quintal e garagem. O que mudou é a escala. Quando a Uber abriu capital em 2019, seu valor de mercado era de cerca de US$ 82 bilhões. "OpenAI e Anthropic são avaliadas em mais de dez vezes isso", disse Egan.

Jolie Gan, de vinte e três anos, mudou-se para San Francisco em janeiro após uma bolsa Fulbright no MIT. Trabalha na gestora Andreessen Horowitz e escreve para a publicação Core Memory, somando uma renda de cerca de US$ 250 mil por ano. Mesmo sem dívida estudantil, ela e a colega de apartamento já se mudaram três vezes em dois meses — em um caso, deixaram um imóvel anunciado enganosamente como tendo dois quartos; em outro, saíram de um prédio com mofo preto e ratos. Gan consegue se virar e poupar para aposentadoria, mas vê a pressão sobre amigos que ganham menos de US$ 200 mil, para quem aluguel, contas e supermercado consomem praticamente toda a renda. Ela está determinada a permanecer em San Francisco pelos próximos anos pelas oportunidades de carreira e pela comunidade que construiu.

Razniak e Woodbury começaram a pensar em Seattle. A vida que Razniak imagina lá — uma casa, uma garagem, espaço para guardar coisas — é algo que ela não consegue se ver bancando em San Francisco, mesmo com uma renda combinada que seria extraordinária em quase qualquer outro lugar do país. "Isso simplesmente não parece algo alcançável aqui", disse ela.

Eu me sinto um pouco como se não fosse bom o bastante para morar aqui porque não trabalho em uma empresa de IA
— Adam Woodbury, engenheiro de software ganhando US$ 185 mil anuais
É uma panela de pressão, e ela esquentou muito rápido
— Nigel Hughes, pesquisador sênior da CoStar
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Como é possível que pessoas ganhando US$ 365 mil por ano se sintam pobres?

Model

Não é que se sintam pobres em termos absolutos. É que a cidade inteira foi repriced. Quando bilionários de IA chegam e podem pagar qualquer preço, o mercado sobe para todos. Você ganha bem, mas não ganha bem o suficiente para competir com quem acabou de ficar bilionário.

Inventor

Mas eles poderiam simplesmente se mudar, certo?

Model

Poderiam, e estão fazendo isso. Mas há um custo invisível. San Francisco é onde estão as oportunidades, a energia, a comunidade que levou anos para construir. Woodbury se mudou para Tahoe. Razniak quer Seattle. Eles não estão fugindo por serem pobres — estão fugindo porque o trade-off deixou de fazer sentido.

Inventor

O prefeito está fazendo algo?

Model

O prefeito Daniel Lurie falou sobre creches, zoneamento para moradias familiares e transporte. Mas não abordou especificamente a situação de quem ganha seis dígitos. É como se o problema fosse invisível porque essas pessoas não deveriam estar sofrendo.

Inventor

E quanto a Jolie Gan, que ganha US$ 250 mil?

Model

Ela consegue ficar. Mas ela é exceção. Vê amigos ganhando menos de US$ 200 mil para quem aluguel, contas e supermercado consomem praticamente tudo. A cidade está se tornando acessível apenas para a elite da elite.

Inventor

Isso é sustentável?

Model

Não parece. Quando profissionais de tecnologia qualificados começam a sair, a cidade perde talento. E quando a escala de riqueza gerada por OpenAI e Anthropic é dez vezes maior que a da Uber, o problema só piora.

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