O maior greenwashing da história
Simulação indica que 14.072 satélites SpaceX poderiam ser visíveis simultaneamente no céu de São Paulo, alterando drasticamente a observação astronômica. Empresa argumenta que data centers orbitais economizariam água e eletricidade, mas pesquisadores contestam sustentabilidade devido à necessidade de frequentes substituições de componentes.
- Simulação indica 14.072 satélites SpaceX visíveis simultaneamente no céu de São Paulo em 21 de dezembro
- SpaceX levantou 75 bilhões de dólares em IPO com avaliação de 1,77 trilhão de dólares
- Período de comentários públicos na FCC recebeu mais de 1.500 petições, maioria contrária ao projeto
- Testes iniciais previstos para fim de 2027, implantação comercial a partir de 2028
SpaceX busca autorização para lançar até 1 milhão de satélites para data centers orbitais, gerando preocupações de astrônomos sobre impacto na visibilidade das estrelas e na pesquisa científica.
A SpaceX pediu autorização para lançar até um milhão de satélites dedicados a processamento de dados no espaço. O projeto reacendeu um debate antigo entre astrônomos e a indústria aeroespacial sobre quem controla a órbita baixa da Terra e o que acontece quando empresas privadas transformam o céu noturno em infraestrutura.
A empresa de Elon Musk apresentou a proposta aos reguladores americanos como parte de sua estratégia de expansão, associando os data centers orbitais ao avanço da inteligência artificial e à oferta de serviços digitais com baixa latência. A companhia argumenta que satélites em órbita poderiam usar energia solar contínua para alimentar equipamentos de computação, reduzindo a pressão sobre data centers terrestres e economizando água e eletricidade. Quando a SpaceX abriu seu capital em junho de 2026, precificou as ações em 135 dólares, levantou 75 bilhões de dólares e passou a ser avaliada em 1,77 trilhão de dólares. A estreia na Nasdaq, sob o código SPCX, apresentou a infraestrutura orbital como peça central da expansão da empresa.
Mas a proposta gerou alarme entre astrônomos. O risco está na quantidade de objetos iluminados em órbita. Satélites posicionados em determinadas trajetórias continuam refletindo luz solar mesmo depois do anoitecer, tornando-se visíveis em grande número durante períodos cruciais para observação astronômica. Para medir o impacto em uma metrópole brasileira, a astrônoma Samantha Lawler, da Universidade de Regina no Canadá, simulou o efeito da constelação sobre o céu de São Paulo. No cenário calculado para o solstício de verão em 21 de dezembro, o número de satélites SpaceX visíveis no céu paulistano poderia passar de zero para 14.072 objetos, caso o plano fosse executado integralmente. Lawler ressalvou que ainda subestimou os tamanhos dos satélites, de acordo com dados que a SpaceX apresentou após o encerramento do período de comentários da FCC. Na latitude canadense analisada no estudo original, a projeção se aproxima de 40 mil satélites visíveis, diante de cerca de 5 mil estrelas observáveis.
O avanço do projeto depende da FCC, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos. Durante a avaliação regulatória, a agência abriu período de comentários públicos, etapa necessária para receber manifestações de pesquisadores, empresas, organizações civis e cidadãos. O prazo terminou em 6 de março, após um trâmite considerado rápido por astrônomos e concorrentes. Essa velocidade provocou reação de astrônomos, ambientalistas e observadores do céu noturno, que questionam a falta de detalhes sobre dimensões dos satélites, trajetórias orbitais e efeitos acumulados. O processo reuniu mais de 1.500 petições, com maioria contrária ao projeto. Em paralelo, a startup Starcloud, apoiada por Google e Nvidia, também apresentou pedido para lançar 88 mil satélites com finalidade semelhante, embora não tenha avançado para consulta pública no mesmo ritmo.
A defesa ambiental da SpaceX enfrenta resistência entre pesquisadores. O professor Hanno Rein, astrônomo da Universidade de Toronto, classificou a argumentação como "o maior greenwashing da história". Para Rein, a troca frequente de chips usados em inteligência artificial pressionaria a logística espacial, pois esses componentes se tornam obsoletos rapidamente e precisariam ser renovados. Além das emissões associadas aos foguetes, críticos citam possíveis impactos da reentrada de satélites na atmosfera, etapa em que materiais podem se desintegrar e gerar resíduos ou subprodutos químicos ainda pouco estudados em larga escala. Outro obstáculo técnico envolve a dissipação de calor no vácuo. Data centers espaciais não teriam água ou ar para resfriamento e dependeriam de grandes áreas radiativas para evitar superaquecimento. Com estruturas maiores para geração de energia solar e controle térmico, os satélites poderiam refletir mais luz em direção à Terra, ampliando justamente o problema de brilho que preocupa astrônomos.
O maior problema pode estar na regulação. Pelas regras atuais, lançamentos de satélites dependem principalmente de autorização de órgãos nacionais de telecomunicações, ainda que seus efeitos possam ultrapassar fronteiras e afetar observações astronômicas em diferentes regiões do planeta. Nos Estados Unidos, esse papel cabe à FCC; no Brasil, sistemas de comunicação por satélite passam pela Anatel. Na prática, porém, as regras americanas não trazem critérios amplos para avaliar brilho no céu, interferência em telescópios ou impactos ambientais de longo prazo. Lucas Fonseca, CEO da empresa aeroespacial Airvantis, resumiu o problema ao afirmar que, nos moldes atuais, uma entidade nacional pode liberar uma quantidade massiva de satélites para uma companhia sediada em seu território. Uma decisão sobre constelação de até um milhão de satélites não deveria depender apenas de normas criadas para redes muito menores, especialmente quando os efeitos potenciais se espalham pela órbita baixa e pela observação terrestre.
Antes de transformar o plano em operação comercial, a SpaceX ainda precisa superar incertezas técnicas e regulatórias ligadas ao desenvolvimento do Starship, foguete considerado essencial para reduzir custos de transporte de hardware ao espaço. Executivos da empresa disseram a investidores que testes iniciais de computação orbital poderiam ocorrer até o fim de 2027, antes de uma implantação comercial descrita como possível a partir de 2028. O que está em jogo é mais do que tecnologia ou negócios. É a questão de quem decide projetos com consequências globais para a órbita baixa da Terra, especialmente quando envolvem empresas privadas, infraestrutura digital estratégica e impactos possíveis sobre ciência e meio ambiente.
Citações Notáveis
Nós ainda subestimamos os tamanhos dos satélites, de acordo com os dados que a SpaceX apresentou posteriormente— Samantha Lawler, astrônoma da Universidade de Regina
O maior greenwashing da história— Hanno Rein, astrônomo da Universidade de Toronto, sobre a defesa ambiental do projeto
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que astrônomos estão tão preocupados com satélites que processam dados? Não é só mais uma constelação?
A escala é completamente diferente. Estamos falando de até um milhão de satélites, não dezenas de milhares. Em São Paulo, a simulação aponta 14 mil visíveis simultaneamente em uma noite de verão. Isso não é poluição luminosa — é transformar o céu em infraestrutura.
Mas a SpaceX diz que isso economiza energia e água. Não é um argumento válido?
Válido em teoria, mas frágil na prática. Chips de inteligência artificial ficam obsoletos rapidamente. Manter um milhão de satélites significaria lançamentos constantes, mais emissões, mais reentradas na atmosfera. Um pesquisador chamou isso de "o maior greenwashing da história".
E se a FCC aprovar? Quem para isso?
Aí está o problema real. A regulação foi feita para redes pequenas de comunicação. Não há critérios para avaliar brilho no céu ou impactos ambientais globais. Um país pode autorizar algo que afeta observatórios em todo o planeta.
Então é um vácuo regulatório?
Exatamente. A governança internacional existe, mas na prática cada país decide o que deixa sair de seu território. A SpaceX está sediada nos EUA. A FCC tem autoridade, mas não tem ferramentas para dizer não com base em impacto astronômico.
Quando isso pode virar realidade?
Testes de computação orbital até o fim de 2027, implantação comercial a partir de 2028, segundo a empresa. Mas depende do Starship funcionar. Se funcionar, o céu muda para sempre.