Não reconheceremos o governo de Fujimori
Em eleições presidenciais decididas por uma margem de apenas 0,22 pontos percentuais, o Peru enfrenta uma crise de legitimidade: o candidato de esquerda Roberto Sánchez recusa-se a reconhecer a vitória da conservadora Keiko Fujimori, alegando irregularidades na contagem dos votos emitidos no exterior. É um momento que revela, mais uma vez, como a confiança nas instituições pode ser mais frágil do que qualquer resultado numérico — e como a diferença entre democracia e instabilidade pode caber em menos de um quarto de ponto.
- Com 99,71% das urnas apuradas, Fujimori lidera por apenas 0,22%, uma margem tão estreita que qualquer contestação ressoa como um terremoto político.
- Sánchez acusa a autoridade eleitoral ONPE de manipular a contagem dos votos do exterior — cerca de 300 mil cédulas que, segundo ele, deveriam ser excluídas por irregularidades.
- Especialistas em direito eleitoral descartam o argumento como juridicamente infundado, alertando que a manobra serve apenas para atrasar a proclamação oficial dos resultados.
- Sánchez convocou apoiadores para marchas de protesto no sábado, elevando o risco de confrontos nas ruas e aprofundando a sensação de ilegitimidade no país.
- O Peru caminha para uma crise institucional enquanto o Congresso já reflete a fragmentação política e nenhum dos lados demonstra disposição para recuar.
A diferença era de apenas 0,22 pontos percentuais quando quase todas as urnas do Peru já haviam sido contabilizadas. Keiko Fujimori, a candidata conservadora, estava à frente com 50,11% dos votos. Roberto Sánchez, seu rival de esquerda, tinha 49,89%. O segundo turno havia ocorrido em 7 de junho — mas, na terça-feira seguinte, Sánchez foi ao microfone e declarou que não aceitaria o resultado.
Em coletiva de imprensa, ele apontou a ONPE, a autoridade eleitoral peruana, e a campanha de Fujimori como responsáveis por irregularidades na contagem dos votos do exterior. No exterior, Fujimori havia obtido 63,2% dos votos — uma vantagem expressiva. Dentro do Peru, Sánchez estava ligeiramente à frente. Ele argumentava que, excluídas as cerca de 300 mil cédulas internacionais por supostas irregularidades, teria uma margem de 25 mil votos sobre a rival.
Advogados eleitorais consultados pelo jornal El Comercio rejeitaram o argumento: o pedido carecia de fundamento jurídico e servia apenas para adiar a proclamação oficial. As autoridades já revisavam as cédulas contestadas há mais de duas semanas.
No Congresso, a fragmentação política já era visível. O partido de Fujimori conquistou a maior bancada — 41 cadeiras na Câmara e 22 no Senado. O de Sánchez ficou em segundo, com 32 e 14, respectivamente. Fujimori disse que aguardaria o fim da apuração antes de reivindicar formalmente a vitória. Sánchez, por sua vez, convocou apoiadores para as ruas no fim de semana. O Peru estava à beira de uma crise de confiança nas suas próprias instituições — e o desfecho permanecia incerto.
A diferença era microscópica: 0,22 pontos percentuais separavam os dois candidatos quando 99,71% das urnas do Peru já haviam sido contabilizadas. Keiko Fujimori, a conservadora, estava à frente com 50,11% dos votos. Roberto Sánchez, o candidato de esquerda, tinha 49,89%. O segundo turno havia acontecido uma semana e meia antes, em 7 de junho. Mas nesta terça-feira, 23 de junho, Sánchez subiu ao microfone e disse que não aceitaria o resultado.
Em coletiva de imprensa, o candidato afirmou que a contagem estava sendo manipulada. Apontou a ONPE, a autoridade eleitoral peruana, e a campanha de Fujimori como responsáveis por irregularidades, particularmente na forma como os votos do exterior haviam sido processados e registrados. Convocou seus apoiadores para marchas de protesto no sábado seguinte. A mensagem era clara: ele não reconheceria um governo Fujimori.
O cerne da disputa estava nos votos internacionais. No exterior, Fujimori tinha 63,206% dos votos — uma vantagem esmagadora. Dentro do Peru, porém, Sánchez estava ligeiramente à frente com 50,113%. Aqueles votos do exterior representavam aproximadamente 300 mil cédulas. Sánchez argumentava que se fossem excluídos do total — alegando que haviam sido contabilizados de forma irregular — ele teria uma margem de cerca de 25 mil votos sobre sua rival.
Advogados especializados em direito eleitoral, consultados pelo jornal local El Comercio, descartaram o argumento. Disseram que o pedido de Sánchez não tinha sustentação jurídica e que servia apenas para adiar a proclamação oficial dos resultados. As autoridades eleitorais já vinham revisando as cédulas contestadas por mais de duas semanas.
No Congresso, a distribuição de poder já refletia a fragmentação política. O partido de Sánchez, Juntos pelo Peru, havia conquistado a segunda maior bancada: 32 das 130 cadeiras na Câmara dos Deputados e 14 das 60 no Senado. O partido de Fujimori teria a maior representação, com 41 cadeiras na Câmara e 22 no Senado. Fujimori havia dito que aguardaria a conclusão total da apuração antes de reivindicar formalmente a vitória.
Mas Sánchez não estava esperando. Seus apoiadores foram convocados para as ruas no fim de semana. A margem de vitória era tão estreita que qualquer movimento poderia amplificar a sensação de ilegitimidade. O Peru estava à beira de uma crise de confiança nas instituições eleitorais — e ninguém sabia ainda como isso terminaria.
Citas Notables
Acreditamos que houve manipulação da votação. Não reconheceremos o governo de Fujimori— Roberto Sánchez, candidato presidencial de esquerda
O pedido não tem fundamento jurídico e serve apenas para atrasar a proclamação oficial dos resultados— Advogados especializados em direito eleitoral, conforme reportado pelo El Comercio
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que Sánchez rejeita um resultado tão próximo? Não há uma margem de erro natural em eleições?
A margem é tão fina que qualquer irregularidade, real ou percebida, muda tudo. Mas o ponto dele é específico: ele diz que os votos do exterior foram manipulados, não que houve erro estatístico.
E os votos do exterior realmente favorecem tanto Fujimori?
Sim. Ela tem 63% lá contra 50% dentro do Peru. Isso é uma diferença enorme. Sánchez diz que isso é suspeito — que não reflete a vontade real dos peruanos no exterior.
Os especialistas em direito eleitoral concordam com ele?
Não. Eles dizem que o argumento dele não tem base legal. Que é apenas uma tentativa de atrasar o resultado.
Então por que ele está fazendo isso? Se sabe que vai perder?
Porque a margem é tão apertada que ele pode estar calculando que a pressão nas ruas, a dúvida pública, a instabilidade — tudo isso pode forçar uma renegociação.
Qual é o risco real aqui?
Que o Peru entre em uma crise de legitimidade. Se metade do país não reconhecer o governo eleito, a governabilidade fica comprometida. E as ruas podem virar um campo de confronto.
Fujimori está fazendo algo em resposta?
Ela está esperando. Disse que aguarda a conclusão da apuração antes de reivindicar a vitória. É uma postura mais cautelosa, mas também mais forte — ela tem os números.