Eleição nos EUA pode criar desafios para exportações brasileiras, diz ApexBrasil

Pode trazer desafios, mas seguirá sendo minha prioridade
Jorge Viana reconhece riscos das eleições americanas mas reafirma compromisso com relação comercial bilateral.

Enquanto o mundo observa as eleições americanas, o Brasil contempla sua própria posição no tabuleiro do comércio global. Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, reconhece que o resultado eleitoral nos Estados Unidos trará desafios às exportações brasileiras — maiores ou menores, conforme o vencedor —, mas insiste que a relação comercial com o maior comprador de manufaturas do país permanecerá uma prioridade. É o eterno dilema das economias emergentes: como construir resiliência quando o destino de tanto esforço produtivo é decidido em urnas distantes.

  • O discurso protecionista de Donald Trump paira sobre o setor exportador brasileiro como uma ameaça difusa, sem contornos definidos mas suficientemente real para exigir cautela.
  • A assimetria entre o que o Brasil vende aos EUA — manufaturas de valor agregado — e o que vende à China — 80% em commodities — expõe uma vulnerabilidade estrutural que o governo Lula quer corrigir.
  • Viana acusa a gestão Bolsonaro de ter desperdiçado mercados estratégicos na Argentina, China, EUA e Europa por falta de política comercial e excesso de ideologia.
  • O Brasil chega a esse momento com reservas de US$ 370 bilhões, crescimento de 3% e a quinta posição mundial em atração de investimento estrangeiro — uma base sólida, mas não imune a turbulências externas.
  • A estratégia da ApexBrasil é pragmática: manter os EUA como prioridade comercial, elevar o valor agregado das exportações e reduzir a exposição do país a decisões políticas tomadas em Washington.

No 7º Fórum de Investimento do Brasil, em São Paulo, Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, foi direto ao ponto que todos queriam discutir: o que as eleições americanas significam para as exportações brasileiras? Sua resposta foi deliberadamente cautelosa — haveria desafios, independentemente do resultado, mas ele se recusou a dramatizar. "Não diria atrapalhar, mas pode trazer desafios", disse, sinalizando uma abordagem pragmática, distante de qualquer coloração ideológica.

Os números ajudam a entender por que a relação com os EUA é tratada como prioridade. O Brasil exporta cerca de US$ 50 bilhões em manufaturas para os americanos anualmente — produtos de maior sofisticação industrial. Para a China, o volume é três vezes maior, US$ 150 bilhões, mas 80% desse total são commodities. É essa assimetria que o governo Lula quer reverter, apostando em exportações de maior valor agregado como caminho para uma inserção internacional mais robusta.

Viana aproveitou o fórum para criticar a gestão anterior, afirmando que o governo Bolsonaro perdeu mercados relevantes — Argentina, China, EUA e Europa — por falta de política comercial consistente e pelo peso de uma agenda ideológica. A tarefa agora, segundo ele, é recuperar terreno perdido enquanto se avança.

O cenário doméstico oferece algum alento: reservas internacionais de US$ 370 bilhões, quinta posição mundial em atração de investimento estrangeiro, crescimento de 3% acima da média global e oportunidades abertas em energia renovável. Mas a tensão permanece. Esse momento de estabilidade depende, em parte, de como o mundo — e Washington em particular — se comportará nos próximos anos. Se o Brasil conseguir transformar seu perfil exportador antes que os ventos mudem, sairá mais resiliente. Se não conseguir, os desafios mencionados por Viana podem se revelar maiores do que o tom comedido de suas palavras sugeria.

Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, estava em São Paulo nesta segunda-feira durante o 7º Fórum de Investimento do Brasil quando a conversa inevitavelmente chegou às eleições americanas. A questão era direta: o que o resultado eleitoral nos Estados Unidos significaria para as exportações brasileiras? Sua resposta foi cautelosa mas clara — haveria desafios, talvez maiores, talvez menores, mas desafios mesmo assim.

Viana não quis dramatizar. "Não diria atrapalhar, mas pode trazer desafios", disse, deixando claro que sua abordagem seria pragmática, separada de considerações ideológicas. O pano de fundo dessa cautela é o discurso protecionista que Donald Trump, ex-presidente e candidato à presidência americana, tem adotado. Mas para Viana, a relação comercial com os Estados Unidos permaneceria uma prioridade de sua gestão na agência, independentemente de quem vencesse a eleição.

O tamanho dessa prioridade fica evidente quando se olha para os números. O Brasil exporta cerca de 50 bilhões de dólares em manufaturas para os Estados Unidos anualmente — produtos de maior valor agregado que refletem a sofisticação industrial brasileira. Para a China, o fluxo é três vezes maior, 150 bilhões de dólares, mas com uma diferença crucial: 80% daquilo que o Brasil vende para os chineses são commodities, produtos básicos de baixo valor agregado. É essa assimetria que o governo Lula quer corrigir.

Viana aproveitou a oportunidade para criticar a gestão anterior. Sob o governo Bolsonaro, disse, o Brasil perdeu mercado significativo na Argentina, que havia sido um grande comprador de produtos brasileiros. A falta de política comercial consistente e o que chamou de "carga ideológica" custaram caro. Oportunidades também foram perdidas com a China, os Estados Unidos e a Europa. Agora, a tarefa era recuperar terreno enquanto se avançava — continuar vendendo commodities, claro, mas investir em produtos de maior valor agregado, aqueles que geram mais riqueza por unidade vendida.

O contexto em que Viana fazia essas declarações era otimista. O Brasil, segundo ele, acumulava 370 bilhões de dólares em reservas internacionais, ocupava a quinta posição mundial em atração de investimento estrangeiro, e crescia a 3% enquanto a média global era de 2,5%. A inflação e o desemprego estavam baixos. O país estava aberto para investimentos em energia renovável e transição energética. Era, em suas palavras, "um momento muito rico" para o Brasil.

Mas havia uma tensão implícita em tudo isso. Aquele momento rico dependia, em parte, de como o mundo se comportaria nos próximos anos — e as eleições americanas eram apenas um dos pontos de incerteza. A estratégia de Viana era clara: manter a relação comercial com os Estados Unidos como prioridade, trabalhar com lógica de negócios acima de ideologia, e usar esse momento de estabilidade econômica para transformar o perfil das exportações brasileiras. Se conseguisse, o Brasil sairia menos vulnerável a oscilações políticas em Washington. Se não conseguisse, os desafios que ele mencionava poderiam ser bem maiores do que imaginava.

Dependendo das eleições nos Estados Unidos, nós vamos ter um desafio maior ou menor, mas seguirá sendo minha prioridade
— Jorge Viana, presidente da ApexBrasil
O desafio nosso agora é seguir crescendo, sem nenhum problema com a venda de commodities, mas melhorando a qualidade das exportações, trabalhando com aqueles de maior valor agregado
— Jorge Viana
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que as eleições americanas importam tanto para as exportações brasileiras? O Brasil não deveria ser menos dependente?

Model

Importam porque os Estados Unidos é a maior economia do mundo e o maior parceiro em manufaturas. Mas você tem razão — essa dependência é exatamente o problema que estamos tentando resolver. Hoje exportamos 50 bilhões em produtos sofisticados para lá, mas 150 bilhões para a China em commodities. Precisamos diversificar.

Inventor

Então o governo anterior deixou o Brasil mais frágil?

Model

Deixou. Perdemos mercado na Argentina, que era um grande comprador. Perdemos oportunidades com China, Estados Unidos e Europa. Tudo porque faltou política comercial consistente. Agora estamos reconstruindo.

Inventor

E se Trump vencer e fechar as portas americanas?

Model

Aí sim teremos um desafio maior. Mas não é só sobre Trump. É sobre não colocar todos os ovos na mesma cesta. Se conseguirmos aumentar o valor agregado das nossas exportações, ficamos menos vulneráveis a qualquer oscilação política.

Inventor

Qual é o prazo para essa transformação?

Model

Não é rápido. Mas temos condições agora — 370 bilhões em reservas, crescimento de 3%, estabilidade. É o momento para fazer isso. Se não aproveitar agora, quando?

Inventor

Você está otimista?

Model

Realista. Há desafios à frente, mas o Brasil tem potencial. A questão é se conseguimos executar a estratégia antes que o cenário internacional mude de novo.

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