O cenário é dual, binário e pode ir de um extremo ao outro
Diante de uma encruzilhada fiscal, a economista-chefe do Santander, Ana Paula Vescovi, traçou dois destinos possíveis para o Brasil — um de estabilidade conquistada com disciplina, outro de deterioração acelerada por escolhas políticas de curto prazo. A diferença entre um dólar a R$ 4,60 e um a R$ 6,70, entre juros baixos e uma Selic de 9%, não reside em forças abstratas do mercado, mas nas decisões concretas que o governo Bolsonaro ainda teria de tomar nas semanas seguintes. Por trás dos cenários macroeconômicos, porém, havia uma realidade mais silenciosa e mais pesada: milhões de empregos e empresas sustentados artificialmente por estímulos que, cedo ou tarde, precisariam ser retirados.
- A projeção de dólar a R$ 6,70, Selic a 9% e inflação a 6% não é uma previsão neutra — é um alerta sobre o custo de uma política econômica errática e subordinada a conveniências eleitorais.
- O verdadeiro abismo fiscal só se revelaria quando os estímulos pandêmicos fossem retirados, expondo empresas insolventes e um desemprego que poderia alcançar 17 milhões de pessoas.
- A manutenção do Teto de Gastos e a aprovação de reformas como a PEC Emergencial surgem como as únicas âncoras capazes de evitar o cenário mais sombrio.
- A credibilidade do diagnóstico vem reforçada pela trajetória de Vescovi: ex-secretária do Tesouro, ela conhece por dentro as pressões políticas que distorcem decisões econômicas estruturais.
- O Brasil se encontrava, segundo a análise, em um momento binário — onde o mesmo conjunto de escolhas poderia levar a futuros radicalmente opostos em questão de meses.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander e ex-secretária do Tesouro Nacional, apresentou ao Brazil Journal dois cenários radicalmente distintos para a economia brasileira — e deixou claro que a fronteira entre eles dependia inteiramente das decisões que o governo Bolsonaro tomaria nas semanas seguintes.
No cenário pessimista, uma condução errática da política econômica levaria o dólar a R$ 6,70, a Selic a 9% e a inflação a 6%, acima do centro da meta. No cenário alternativo, a manutenção rigorosa do Teto de Gastos e a aprovação de reformas estruturais — como a PEC Emergencial e o Pacto Federativo — poderiam estabilizar o câmbio em R$ 4,60, manter a Selic em 2% e a inflação abaixo de 3%. "O cenário é absolutamente dependente da condução da política econômica", afirmou a economista.
Mas além dos indicadores macroeconômicos, Vescovi apontou para uma realidade mais dura que aguardava o país na saída da crise pandêmica. Com a retirada gradual dos estímulos governamentais e das linhas de crédito emergenciais, a verdadeira situação de muitas empresas viria à tona — e parte delas não sobreviveria. O desemprego, mesmo após o pico da pandemia, ainda continuaria subindo, podendo chegar a 17 milhões de pessoas.
A economista descreveu esse momento de transição como cheio de "dilemas concretos": retirar os "anestésicos" da economia significava aceitar que a dor real ainda estava por vir. Sua análise, moldada por anos dentro da máquina estatal, carregava o peso de quem conhece de perto as pressões políticas que tornam tão difícil fazer as escolhas certas no momento certo.
Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, desenhou dois futuros radicalmente diferentes para a economia brasileira — e a diferença entre eles depende inteiramente de decisões que ainda estão por ser tomadas.
Em entrevista ao Brazil Journal, Vescovi apresentou um cenário pessimista onde o dólar alcançaria R$ 6,70, os juros (Selic) explodiria para 9% e a inflação chegaria a 6%, acima do centro da meta. Esse futuro se materializaria se o governo Bolsonaro persistisse em uma condução errática da política econômica, oscilando conforme as conveniências políticas de curto prazo. "O cenário é absolutamente dependente da condução da política econômica, dos sinais que vão ser dados nas próximas semanas", afirmou a economista.
Mas existe uma alternativa. Se o governo mantivesse rigorosamente o Teto de Gastos — a âncora fiscal que limita o crescimento das despesas obrigatórias — o quadro poderia ser "melhor": dólar em R$ 4,60, Selic em 2% e inflação abaixo de 3%. Vescovi descreveu a situação como "dual, binária", capaz de oscilar entre extremos dependendo das escolhas feitas nos próximos meses.
O problema de fundo, segundo ela, reside na situação fiscal do país. Sua análise reflete uma perspectiva neoliberal que vê na austeridade a saída para restaurar a confiança dos mercados — confiança que, na visão do Santander, está abalada pela falta de clareza sobre o rumo da política econômica sob Paulo Guedes.
Mas por trás dos números há uma realidade humana mais dura. Quando a economia finalmente sair da crise provocada pela pandemia, o desemprego ainda continuará subindo, chegando a 17 milhões de pessoas. À medida que os estímulos governamentais e as linhas de crédito de emergência forem sendo retirados, as empresas revelarão sua verdadeira situação — e muitas não sobreviverão. "Algumas vão quebrar no meio do caminho", disse Vescovi.
Ela reconheceu que há "dilemas concretos" nessa transição. A retirada dos "anestésicos" e "remédios" que foram necessários durante a pandemia exporia a real condição em que a economia ficou. Essa descoberta bateria de frente com as escolhas políticas que o governo teria de fazer. A economista defendeu que reformas estruturais — como a aprovação da PEC Emergencial, que criaria gatilhos automáticos para conter aumentos de despesas obrigatórias, e do Pacto Federativo — seriam essenciais para melhorar o horizonte macroeconômico.
Vescovi não era uma voz desconhecida nessas questões. Ela havia servido como secretária do Tesouro Nacional e secretária-executiva do Ministério da Economia durante o governo Michel Temer, dando-lhe experiência direta com os dilemas fiscais que o Brasil enfrentava. Seu diagnóstico, portanto, vinha de quem havia estado dentro da máquina estatal e conhecia as pressões políticas que cercam essas decisões.
Citações Notáveis
O cenário é absolutamente dependente da condução da política econômica, dos sinais que vão ser dados nas próximas semanas— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
Vamos conhecer realmente a situação em que a economia ficou depois da retirada dos anestésicos, dos remédios que precisamos colocar na pandemia— Ana Paula Vescovi
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que o Santander trabalha com dois cenários tão diferentes? Não há um caminho mais provável?
Porque a economia não é determinada apenas por fundamentos. Depende de sinais políticos, de confiança. Se o mercado acredita que o governo vai manter a disciplina fiscal, comporta-se de um jeito. Se duvida, comporta-se de outro.
E qual é a aposta do banco sobre o que vai acontecer?
Vescovi não disse explicitamente. Mas o fato de ela estar falando sobre o cenário pessimista sugere que é uma possibilidade real que o Santander está levando a sério.
Ela culpa o governo ou a economia?
Ela culpa as escolhas. A economia pode ir bem ou mal dependendo de como o governo conduz a política. Não é destino, é decisão.
E os 17 milhões de desempregados — isso é inevitável?
Não. Mas é provável se os estímulos forem retirados sem que a economia tenha se recuperado de verdade. É o risco de tirar o remédio antes do paciente estar curado.
O que ela quer que o governo faça?
Reformas estruturais. O Teto de Gastos, a PEC Emergencial, o Pacto Federativo. Coisas que sinalizem ao mercado que há um plano de longo prazo, não apenas improviso político.