Quem cuida precisa ser cuidado, e cuidado exige múltiplas mãos
A mina era espaço de trabalho, escola e refúgio emocional para mulheres periféricas que torciam roupas juntas enquanto enfrentavam solidão e abuso. Histórias de Dona Cida, Dona Alzira e outras revelam redes de cuidado mútuo entre mulheres em situação de vulnerabilidade econômica e violência conjugal.
- Dona Jacira, 52 anos, moradora do Jardim Cachoeira, Zona Norte
- Casou-se aos 15 anos, já com duas filhas
- Dona Inês, sua sogra, foi morta pelo marido no ano seguinte ao casamento de Jacira
- A mina era espaço de trabalho, aprendizado e refúgio emocional para mulheres periféricas
- Precisava-se de pelo menos quatro pessoas para torcer um cobertor adequadamente
Dona Jacira relata suas memórias de trabalho na mina comunitária, onde mulheres lavavam roupas enquanto compartilhavam histórias de vida, cuidado e resistência em contexto de pobreza e violência doméstica.
Dona Jacira tem 52 anos e vive no Jardim Cachoeira, na periferia da Zona Norte. É bordadeira, pintora, ceramista, marcenária, jardineira e criadora de bonecas — uma mulher que carrega em si tecnologias ancestrais e histórias que precisam ser contadas. Mas antes de tudo isso, ela foi uma menina que sonhava em ser como sua mãe, cantando enquanto passava ferro em brasa na roupa que havia lavado na mina.
A mina não era apenas um lugar. Era a divisa entre dois jardins, perto do Joamar, onde as mulheres da comunidade iam lavar roupa, beber água, lavar os pés depois das aulas. Era escola, era igreja, era consultório sentimental, era o lugar onde se desabafava e, se ninguém interferisse, onde se podia desabafar com o pano mesmo, batendo jeans com tanto empenho que era melhor deixar a pessoa extravasar. Ali ninguém estava para brincadeira. Se tudo corresse bem, se os ânimos não esquentassem demais, a gente precisava de pelo menos quatro mãos para torcer um cobertor, uma colcha de chenille, um tapete. Quatro mãos, porque roupa bem torcida fica mais leve, e quem morava no topo do morro sabia que subir com peso era melhor evitar.
Jacira se casou aos 15 anos, já com duas filhas. Deixou de ser moça descalça e entrou em um mundo que era dez minutos à frente do Ataliba, mas cem anos para trás em infraestrutura. Sua mãe havia avisado. Ela não quis ouvir — era paixão, era instinto descuidado do que seria liberdade. Agora estava feito, e ela é orgulhosa, não é de recuar. Outras mulheres a adotariam, a permitiriam entrar em seus meios.
Dona Cida era uma mulher negra muito cuidadosa com todas as mais jovens. Trabalhava como faxineira em várias casas, lavava roupa na mina e preparava suas filhas para substituí-la nas casas das patroas. Seu marido não trabalhava, vivia envolvido em bagunça, então ela era chamada de Cida Bagunça — um sobrenome cruel para uma mulher que trabalhava de domingo a domingo e era chefe da casa. Tinha muitos filhos, e o marido ainda tinha filhos com outra mulher que também lavava roupa ali. Às vezes ela desabafava e a gente emprestava os ouvidos. Aquilo era uma lição de solidariedade. Dona Alzira nem enxergava mais, era uma das benzedeiras, e ensinou a Jacira o significado do amém. Dona Inês, sogra de Jacira, era parteira e benzedeira, comprada pelo sogro no Sertão da Paraíba, foi saco de pancadas dele, teve vários filhos e foi morta por ele no ano seguinte ao casamento de Jacira. A comunidade a absolveu: ele batia nela porque ela bebia. Jacira pensa diferente: acho que era o contrário, ela bebia para suportar a presença dele.
O marido de Jacira, Miguel, havia fugido da casa dos pais porque apanhava demais do pai e do irmão mais velho. Seu sogro cobrava de Miguel que batesse na esposa porque a mãe dela não a havia ensinado a ser esposa. Jacira ameaçou jogar óleo quente no ouvido do filho. Ela frequentou a mina até sua mãe descobrir e começar a aparecer lá. Então fugiu e foi trabalhar no lixão. Pegou piolho, talvez de algum urubu — havia muitos lá. Sua mãe e suas irmãs passaram uma manhã cuidando de sua cabeça.
Tempo depois, Jacira havia saído da casa da mãe dizendo que só voltaria quando ficasse rica. Sua mãe conseguiu um barraquinho para ela, mas Miguel brigou e ela perdeu o barraquinho. Voltou para o mesmo quarto escuro e violento. Isso a fez aprender o verdadeiro significado da palavra amém. Toda vez que ela vai mudar de lugar, precisa lembrar que havia tempos era preciso de pelo menos quatro pessoas para torcer um cobertor, e isso se chama cuidado. Quem cuida precisa ser cuidado. Precisa entender o valor verdadeiro de retribuir e dizer axé ou muito obrigado. Ela nem sabe quantas mãos foram necessárias para a resgatar daquele buraco e estar aqui hoje, contando suas histórias em bordados, em cerâmica, em bonecas, em memória.
Notable Quotes
Acho que era o contrário, ela bebia para suportar a presença dele— Dona Jacira, sobre sua sogra Dona Inês
Deixa ela com silêncio dela, o juízo dela tá cozinhando galo— Uma mulher mais velha da mina, sobre quando alguém precisava de espaço
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a mina era tão importante? Parecia apenas um lugar para lavar roupa.
Era o lugar onde as mulheres se tornavam umas às outras. Não era só trabalho — era onde a gente aprendia a viver, a sofrer junto, a reconhecer que ninguém estava sozinho naquilo.
E o título, sobre as seis mãos para torcer um cobertor — é literal ou é metáfora?
É os dois. Literal porque roupa bem torcida fica mais leve para carregar morro acima. Mas também é sobre quantas pessoas você precisa para sair de um buraco. Quantas mãos te seguram quando você está caindo.
Você menciona violência doméstica várias vezes. Por que a comunidade absolveu o homem que matou sua sogra?
Porque ninguém sabia como nomear aquilo. Diziam que ela bebia, que era culpa dela. A gente não tinha palavras ainda. Só tinha o trabalho, a mina, o cuidado que a gente trocava uma com a outra.
E agora, aos 52 anos, você borda essas histórias. Por que?
Porque tecnologia ancestral não é só o que a mão sabe fazer. É o que a memória guarda. Se eu não contar, fica perdido. E outras meninas precisam saber que havia mãos que as seguravam.