Duas em cada três pessoas com Alzheimer são mulheres; doença pode começar aos 45 anos

Mulheres enfrentam risco significativamente elevado de Alzheimer, afetando qualidade de vida e independência em fases avançadas da vida.
O Alzheimer não é uma doença da velhice. Ele começa na metade da vida.
A neurocientista Lisa Mosconi desafia a compreensão tradicional sobre quando a doença realmente tem início.

Duas em cada três pacientes com Alzheimer são mulheres, diferença não explicada apenas pela maior longevidade feminina. O estrogênio protege o cérebro feminino; sua redução na menopausa elimina defesa contra inflamação e estresse oxidativo.

  • Duas em cada três pessoas com Alzheimer são mulheres
  • A doença pode começar silenciosamente aos 45 anos, décadas antes dos sintomas
  • O estrogênio protege o cérebro; sua redução na menopausa elimina essa proteção
  • Exames de sangue já aprovados nos EUA podem detectar sinais precoces da doença

Pesquisas indicam que duas em cada três pessoas com Alzheimer são mulheres, com a doença podendo começar silenciosamente aos 45 anos. Oscilações hormonais na perimenopausa e menopausa desempenham papel crucial no desenvolvimento da condição.

A neurocientista italiana Lisa Mosconi cresceu observando a doença de perto. Sua avó teve Alzheimer. Das quatro irmãs da família, três desenvolveram a condição. O único irmão homem não foi diagnosticado. Essa disparidade familiar a levou a fazer uma pergunta que mudaria sua carreira: por que o Alzheimer afeta as mulheres de forma tão desproporcionalmente diferente?

Os números que ela e seus colegas descobriram são claros e perturbadores. Duas em cada três pessoas diagnosticadas com Alzheimer são mulheres. À primeira vista, isso poderia ser explicado simplesmente pelo fato de que as mulheres vivem mais tempo que os homens. Mas a pesquisa de Mosconi, conduzida em uma universidade nos Estados Unidos através de um estudo de três anos sobre saúde cognitiva feminina, sugere que algo mais profundo está acontecendo no cérebro das mulheres — algo relacionado aos hormônios.

Durante a perimenopausa, a fase que precede a menopausa, e depois durante a própria menopausa, os níveis de estrogênio caem dramaticamente. Mosconi explica que esse hormônio faz muito mais do que regular o ciclo reprodutivo. O estrogênio alimenta os níveis de energia do cérebro. Melhora o fluxo sanguíneo para o órgão. Funciona como um antioxidante e um agente anti-inflamatório. Participa do funcionamento básico dos neurônios. Quando seus níveis diminuem, o cérebro perde uma proteção que teve durante décadas. É como se um escudo invisível fosse removido.

Mas há algo ainda mais perturbador nas descobertas de Mosconi: o Alzheimer não começa quando as pessoas começam a esquecer coisas. Começa muito antes. Durante anos, a medicina associou a doença apenas ao envelhecimento, como se fosse um processo inevitável que chegasse com a idade avançada. Mosconi desafia essa noção completamente. "O Alzheimer não é uma doença da velhice. Ele começa na metade da vida", afirma. Nas mulheres, esse processo silencioso pode ter início por volta dos 45 anos, décadas antes de qualquer sintoma aparecer.

O neurocientista brasileiro Mychael Lourenço traz uma nota de esperança. Exames de sangue já foram desenvolvidos e aprovados nos Estados Unidos que conseguem identificar marcadores precoces do Alzheimer — sinais da doença antes mesmo de ela se manifestar clinicamente. Esses testes devem chegar ao Brasil nos próximos anos. Mas Lourenço também soa uma nota de cautela importante: é preciso diferenciar os esquecimentos ocasionais normais de um verdadeiro processo neurodegenerativo. O sinal de alerta real é quando a perda de memória começa a interferir na vida cotidiana e piora progressivamente ao longo do tempo.

Se a doença pode começar tão cedo e afetar as mulheres de forma tão desproporcional, a questão óbvia é: o que pode ser feito? Mosconi oferece um conjunto de recomendações que não são revolucionárias, mas são concretas. Para mulheres sem contraindicações médicas, a reposição hormonal pode ajudar. Além disso: exercício físico regular, alimentação saudável, redução de alimentos ultraprocessados, controle do estresse, sono de qualidade, ausência de cigarro e consumo moderado de álcool. Mosconi enfatiza que níveis elevados de cortisol, o hormônio do estresse, podem prejudicar tanto o humor quanto a memória.

O Fantástico encontrou mulheres que já vivem de acordo com essas orientações. Maria do Socorro Leal, uma artista plástica de 90 anos, continua trabalhando e acredita que cuidar da saúde é fundamental. Ela é um exemplo de que essas práticas podem ter efeito real. Mychael Lourenço ressalta que as descobertas não devem gerar pânico, mas sim motivação. "Isso tem que servir de motivação para uma mudança de estilo de vida, para a ação."

Mosconi continua liderando pesquisas voltadas especificamente para a prevenção do Alzheimer em mulheres, buscando estratégias que possam reduzir o risco da doença. Pela primeira vez, ela observa, o tema está recebendo a atenção séria da comunidade científica. Para mulheres que cresceram vendo mães, tias e vizinhas lutarem contra essa doença, essa atenção chega como um alívio. "É importante saber que a ajuda está no caminho."

O Alzheimer não é uma doença da velhice. Ele começa na metade da vida.
— Lisa Mosconi, neurocientista
Isso tem que servir de motivação para uma mudança de estilo de vida, para a ação.
— Mychael Lourenço, neurocientista brasileiro
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que você acha que levou tanto tempo para a ciência perceber que as mulheres têm risco muito maior de Alzheimer?

Model

Porque durante muito tempo o Alzheimer foi visto apenas como uma doença da velhice, e a velhice era vista como um processo universal. Ninguém estava olhando para as diferenças biológicas entre homens e mulheres. A história pessoal de Lisa Mosconi — ver sua avó e suas tias adoecerem enquanto seu tio não adoecia — foi o que forçou alguém a fazer a pergunta certa.

Inventor

E o estrogênio é realmente tão importante assim para o cérebro?

Model

Sim. Não é apenas um hormônio reprodutivo. O estrogênio está fazendo coisas no cérebro o tempo todo — mantendo a energia, protegendo contra inflamação, ajudando os neurônios a funcionar. Quando desaparece na menopausa, o cérebro fica vulnerável. É como perder um guardião que estava lá há décadas.

Inventor

Mas se a doença começa aos 45 anos, por que as mulheres não começam a esquecer coisas nessa idade?

Model

Porque há uma diferença entre a doença começar e a doença se manifestar. O Alzheimer é silencioso no início. Está acontecendo no cérebro, mas você não sente. Por isso os exames de sangue são tão importantes — eles podem pegar isso antes de qualquer sintoma aparecer.

Inventor

Então a reposição hormonal é a solução?

Model

Não é tão simples. A reposição hormonal pode ajudar, mas não é para todas as mulheres — há contraindicações. E mesmo assim, é apenas uma parte. Você também precisa se exercitar, comer bem, dormir bem, controlar o estresse. É uma combinação. Não existe uma bala de prata.

Inventor

O que você acha que muda quando as mulheres entendem que isso pode ser prevenido?

Model

Muda tudo. Deixa de ser apenas medo e se torna ação. A mulher de 90 anos que continua trabalhando e cuidando da saúde — ela não está esperando pela doença. Ela está vivendo de um jeito que reduz o risco. Isso é esperança real, não apenas esperança vaga.

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