Dólar sobe e Bolsa recua com petróleo mais barato e expectativa sobre juros

O alívio externo não parece suficiente para alterar a reação do Banco Central
Analista explica por que a queda do petróleo não garante novos cortes de juros no Brasil.

Petróleo Brent recua 4,76% para US$ 83,17, menor nível em três meses, após acordo que reabre Estreito de Hormuz bloqueado por ações militares. Banco Central do Brasil e Fed anunciam decisões de juros esta semana; mercado espera terceiro corte seguido da Selic para 14,25%, enquanto EUA deve manter taxas paradas.

  • Petróleo Brent recua 4,76% para US$ 83,17, menor nível em três meses
  • Acordo reabre Estreito de Hormuz, responsável por 20% do fornecimento diário mundial
  • Mercado espera terceiro corte da Selic para 14,25% nesta semana
  • Petrobras cai 4,91% na Bolsa acompanhando queda do petróleo

Dólar fecha em alta de 0,09% a R$ 5,067 enquanto Ibovespa recua após acordo entre EUA e Irã reduzir preço do petróleo em mais de 4%, reabrindo o Estreito de Hormuz e aliviando tensões geopolíticas.

A segunda-feira trouxe movimentos contraditórios nos mercados brasileiros, com o dólar encerrando o dia em leve alta enquanto a Bolsa perdia força após um início promissor. A moeda americana fechou a 5,067 reais, uma valorização de apenas 0,09%, mas o Ibovespa não conseguiu manter o ganho de mais de 1% registrado na abertura. Por trás dessa oscilação estava um fato geopolítico significativo: um acordo entre Estados Unidos e Irã que reabriu o Estreito de Hormuz, uma das rotas marítimas mais críticas do planeta, responsável por 20% do fornecimento diário mundial de petróleo.

O impacto imediato foi uma queda acentuada nos preços do petróleo. O contrato futuro do Brent para agosto recuou 4,76%, fechando em 83,17 dólares o barril — o menor patamar em três meses. O WTI americano, referência nos Estados Unidos, caiu 4,86% para 80,75 dólares. Apesar dessa redução significativa, os preços ainda acumulam alta de 15% desde o início da guerra em 28 de fevereiro, quando o Brent estava em 72,48 dólares. No pico da crise, o barril chegou a 120 dólares, de modo que o preço atual representa uma queda de 30% em relação àquele momento.

Analistas advertem que o alívio trazido pelo acordo não deve levar os preços de volta aos patamares pré-conflito. Bruno Cordeiro, especialista de inteligência de mercado da Stonex, explica que os estoques globais continuam apertados e a produção no Golfo Pérsico só deve aumentar gradualmente nos próximos meses. Os países produtores da Opep ainda enfrentam limitações técnicas para expandir a capacidade de forma acelerada. Além disso, novos ataques de Israel contra o Líbano mantêm a tensão geopolítica no radar dos investidores.

Esta semana marca um momento crucial para as decisões de política monetária em duas das maiores economias do mundo. O Banco Central do Brasil e o Federal Reserve anunciam suas taxas de referência em uma "superquarta" que promete movimentar os mercados. Nos Estados Unidos, será a primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh, novo presidente do conselho do Fed indicado por Donald Trump. A diretoria americana está dividida: alguns membros veem espaço para retomar cortes de juros, enquanto outros defendem manutenção ou até elevação da taxa devido à inflação alimentada pelos reajustes de energia. Nos últimos três encontros, o Fed manteve a taxa básica entre 3,50% e 3,75% ao ano.

Paulo Gala, professor de economia da FGV-SP, resume o cenário: nos EUA, a leitura predominante é que o banco central manterá os juros parados e endurecerá o discurso após indicadores de inflação ruins. No Brasil, a grande dúvida é se o ciclo de cortes chega ao fim. A maioria dos agentes econômicos espera um terceiro corte seguido da taxa Selic, reduzindo-a de 14,50% para 14,25%, repetindo os movimentos de março e abril. Porém, parte do mercado já aponta para uma possível interrupção dos cortes, com alguns profissionais prevendo que o Banco Central sinalizará, caso reduza a taxa em 0,25 ponto percentual, que esta será a última baixa.

Rafael Sueishi, chefe de renda fixa da Manchester Investimentos, observa que embora a queda do prêmio de risco geopolítico nos mercados globais ajude a aliviar pressões inflacionárias, esse alívio externo não parece suficiente para alterar significativamente a reação do Banco Central. A inflação doméstica continua pressionada, as expectativas permanecem acima da meta e a curva de juros indica pouca convicção sobre uma sequência mais forte de cortes da Selic.

No mercado de ações, a Petrobras foi a maior vítima da queda do petróleo. As ações ordinárias e preferenciais recuaram 4,91% no dia. Para a Petrobras e outras petroleiras menores, a redução do preço do barril pressiona os papéis no curto prazo ao remover parte do prêmio que vinha sustentando seu desempenho. Por outro lado, empresas de consumo, transporte, indústria e construção tendem a se beneficiar do alívio no petróleo e na cotação do dólar, com melhora na percepção sobre custos, inflação e atividade econômica, segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

Os preços tendem a seguir em níveis superiores aos observados antes do conflito porque os estoques globais permanecem apertados e a produção no Golfo Pérsico deverá aumentar de forma gradual
— Bruno Cordeiro, especialista de inteligência de mercado da Stonex
Embora a queda do prêmio de risco geopolítico nos mercados globais ajude a aliviar pressões inflacionárias, esse alívio externo não parece suficiente para alterar de forma relevante a função de reação do Banco Central
— Rafael Sueishi, chefe de renda fixa da Manchester Investimentos
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o acordo entre EUA e Irã afeta tanto os mercados brasileiros?

Model

Porque o Brasil importa petróleo e qualquer movimento que mude a oferta global impacta diretamente nossos custos de energia, inflação e, consequentemente, as decisões de juros do Banco Central.

Inventor

A queda do petróleo deveria ser boa notícia para a economia. Por que a Bolsa recuou?

Model

Porque a Bolsa é um mosaico. Petrobras cai 4,91%, e ela tem peso significativo no índice. Sim, outras empresas se beneficiam, mas o mercado ainda está processando a incerteza sobre juros — tanto aqui quanto nos EUA.

Inventor

Qual é a real importância dessa "superquarta" de decisões de juros?

Model

Define o próximo capítulo da política monetária em duas economias que movem o mundo. Se o Fed endurecer e o BC cortar, há divergência. Se ambos fizerem coisas diferentes do esperado, o dólar pode disparar.

Inventor

O acordo realmente resolve o problema do petróleo caro?

Model

Resolve parte. Reabre a rota, mas os estoques globais ainda estão apertados e a Opep não consegue aumentar produção rápido. Além disso, Israel continua atacando o Líbano. Não é paz, é apenas um respiro.

Inventor

Por que alguns analistas acham que o BC pode parar de cortar juros?

Model

Porque a inflação doméstica não caiu o suficiente. O alívio do petróleo é externo. Aqui dentro, as expectativas de inflação ainda estão acima da meta. O BC está preso entre o que o mundo oferece e o que a economia interna exige.

Inventor

Quem ganha e quem perde neste cenário?

Model

Petrobras e petroleiras perdem. Empresas de consumo, transporte, construção ganham com custos menores. Mas o grande vencedor ou perdedor será definido pelas decisões de juros — aí sim muda o jogo para todos.

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