Dólar fecha estável ante real apesar de acordo EUA-Irã; Ibovespa puxa moeda para cima

O câmbio está acompanhando a bolsa nessa virada
Analista explica por que o dólar recuperou perdas quando Ibovespa caiu na segunda-feira.

Em um dia em que o mundo respirou aliviado com a perspectiva de paz entre Washington e Teerã, o Brasil seguiu uma lógica própria: a queda do petróleo puniu a Petrobras, arrastou a bolsa e impediu que o real colhesse os frutos de um dólar globalmente enfraquecido. O acordo que prometia abrir o Estreito de Ormuz trouxe otimismo às divisas emergentes, mas a economia brasileira lembrou que seus elos com o mercado de commodities podem tanto protegê-la quanto expô-la. Ao fim do dia, o dólar fechou em leve alta a R$ 5,07, enquanto o boletim Focus sinalizava expectativas crescentes de inflação e juros — um retrato de um país que navega entre ventos externos favoráveis e tensões internas persistentes.

  • O acordo de paz entre EUA e Irã gerou alívio global e enfraqueceu o dólar ante a maioria das moedas emergentes, levando o real a sua melhor marca do dia ainda pela manhã.
  • A queda de 5% no petróleo Brent, consequência direta da reabertura esperada do Estreito de Ormuz, derrubou as ações da Petrobras e puxou o Ibovespa para o campo negativo.
  • Investidores estrangeiros, grandes detentores de papéis da Petrobras, venderam posições de forma consistente, pressionando o câmbio e revertendo os ganhos do real na sessão.
  • O dólar encerrou o dia com alta de 0,11% a R$ 5,0666, apagando a queda de quase 0,7% registrada no início da manhã.
  • O boletim Focus trouxe nova deterioração das expectativas: dólar projetado a R$ 5,20 no fim de 2026, inflação em alta e Selic esperada em 13,75% — sinais de que o ambiente doméstico segue desafiador.

A notícia de um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã chegou aos mercados na segunda-feira como um alívio coletivo. A promessa de reabrir o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo e gás comercializado no mundo — enfraqueceu o dólar em praticamente todas as frentes. Trump, o vice JD Vance e o presidente do Parlamento iraniano Qalibaf assinaram um memorando de entendimento, com cerimônia formal prevista para sexta-feira. Pela manhã, o real chegou a R$ 5,0267 — queda de 0,68% ante o dólar.

Mas o Brasil seguiu um caminho diferente. No início da tarde, o petróleo Brent despencou 5%, e as ações da Petrobras foram arrastadas junto. Como a petrolífera é amplamente negociada por investidores estrangeiros, a venda consistente de seus papéis sensibilizou o câmbio e deu força ao dólar. O Ibovespa virou para o negativo, e o dólar zerou suas perdas, encerrando o dia com alta de 0,11% a R$ 5,0666. No ano, a divisa ainda acumula queda de 7,70% ante o real.

O boletim Focus divulgado pelo Banco Central pela manhã trouxe sinais de deterioração: a projeção do dólar para o fim de 2026 subiu de R$ 5,15 para R$ 5,20, a inflação esperada para este ano avançou de 5,11% para 5,30%, e a Selic projetada para o encerramento de 2026 passou de 13,50% para 13,75%. O diferencial de juros entre Brasil e outras economias — fator que havia atraído capital estrangeiro e pressionado o dólar para baixo nos últimos meses — pode perder atratividade se a inflação doméstica continuar em alta. Para conter pressões no câmbio, o Banco Central vendeu 60 mil contratos de swap cambial ao longo da sessão.

A notícia de um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã chegou aos mercados na segunda-feira como um alívio global — a promessa de reabrir o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo e gás comercializado no mundo, deveria enfraquecer o dólar em praticamente todas as frentes. E de fato, pela manhã, a moeda americana recuou. Mas no Brasil, a história tomou um rumo diferente.

O presidente Donald Trump, o vice JD Vance e o presidente do Parlamento iraniano Mohammad Bagher Qalibaf assinaram um memorando de entendimento na segunda para encerrar a guerra, com uma cerimônia formal de assinatura prevista para a sexta-feira. A expectativa é de que o tráfego pelo estreito aumente gradualmente. Nos mercados internacionais, o petróleo Brent cedeu para a faixa dos US$83 o barril, os rendimentos dos Treasuries recuaram, e o dólar perdeu terreno ante a maioria das divisas de países emergentes. No Brasil, a moeda norte-americana marcou sua mínima do dia de R$5,0267, uma queda de 0,68%, às 10h42.

A lógica era clara para os analistas. José Faria Júnior, diretor da consultoria Wagner Investimentos, explicou que a solução para o Estreito de Ormuz traria uma onda de otimismo: o Federal Reserve teria menos argumentos para elevar os juros, o índice do dólar tenderia a se enfraquecer, e isso beneficiaria os ativos de risco. Tudo apontava para um real mais forte.

Mas no início da tarde, algo mudou. O dólar à vista zerou suas perdas ante o real, e o Ibovespa virou para o território negativo. Fernando Bergallo, diretor da assessoria FB Capital, identificou o culpado: o câmbio estava acompanhando a bolsa. O petróleo estava desabando de forma consistente — uma queda de 5% no Brent — e isso derrubava as ações da Petrobras, que puxa o índice inteiro. Como as ações da petrolífera são bastante negociadas por investidores estrangeiros, um movimento consistente de venda sensibiliza o câmbio e dá força ao dólar.

O dia terminou com o dólar à vista fechando com variação positiva de 0,11%, aos R$5,0666. No ano, a divisa acumula queda de 7,70% ante o real. O dólar futuro para julho, o mais líquido no mercado brasileiro, subia 0,02% na B3, aos R$5,0855. No exterior, o índice do dólar — que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas — subia 0,17%, a 99,687.

O boletim Focus divulgado pelo Banco Central na manhã mostrou uma deterioração das expectativas. A mediana das projeções dos economistas para o dólar no fim de 2026 subiu de R$5,15 para R$5,20. A inflação projetada para este ano saltou de 5,11% para 5,30%, e para o próximo ano foi de 4,03% para 4,10%. Houve também nova elevação da projeção de inflação para 2028, de 3,65% para 3,68%. A taxa básica Selic esperada para o fim de 2026 subiu de 13,50% para 13,75%, e para o encerramento de 2027 passou de 11,50% para 12,00%. Atualmente a Selic está em 14,50% ao ano.

O diferencial de juros entre Brasil e outros países — como EUA e Japão, cujas taxas estão em níveis bem menores — vinha sendo apontado como um dos fatores para atração de investimentos ao país, o que havia conduzido as cotações do dólar a patamares mais baixos ante o real nos últimos meses. Mas com as expectativas de inflação em alta e a Selic projetada para subir, esse diferencial pode não ser tão atrativo quanto era. No fim da manhã, o Banco Central vendeu 60 mil contratos de swap cambial para rolagem do vencimento de 1º de julho.

O câmbio está acompanhando a bolsa nessa virada. O petróleo está desabando de forma consistente e esse tombo de 5% no Brent derrubou como de costume a Petrobras, que puxa o índice inteiro.
— Fernando Bergallo, diretor da assessoria FB Capital
Não é surpresa que a solução para Ormuz traga uma onda de otimismo: o Federal Reserve terá menos argumentos para subir os juros e o dólar tende a se enfraquecer, fatos que beneficiam os ativos de risco.
— José Faria Júnior, diretor da consultoria Wagner Investimentos
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o acordo entre EUA e Irã não conseguiu manter o real forte durante todo o dia?

Model

Porque no Brasil, o que move o câmbio não é apenas o que acontece nos mercados globais — é o que acontece com a Petrobras. Quando o petróleo cai, as ações da petrolífera caem, e como estrangeiros vendem muito essas ações, o dólar volta a subir.

Inventor

Então o real fica refém do preço do petróleo?

Model

Não exatamente refém, mas muito sensível. A Petrobras é tão negociada por investidores estrangeiros que qualquer movimento consistente em suas ações afeta o câmbio. É um efeito colateral de ser uma economia dependente de commodities.

Inventor

E as projeções do Focus pioraram. O que isso significa para quem tem dólar?

Model

Significa que o mercado está esperando inflação mais alta e juros mais altos no Brasil. Isso pode parecer bom para o real — juros altos atraem dólar — mas também sinaliza que as coisas estão ficando mais difíceis economicamente.

Inventor

Qual é a próxima data importante?

Model

A cerimônia formal de assinatura do acordo entre EUA e Irã na sexta-feira. Se o tráfego pelo Estreito de Ormuz realmente aumentar, o petróleo pode cair mais, o que pressionaria o real novamente.

Inventor

Então o Brasil está preso entre dois cenários ruins?

Model

Não ruins, apenas complexos. Se o petróleo cai, o real sofre. Se o petróleo sobe, a inflação sobe. O que o Brasil precisa é de estabilidade, e isso é raro em um mundo onde commodities dominam a economia.

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