Mercado odeia incerteza. Quando vem tudo de uma vez, investidores fogem
Num dia em que o mundo parecia apertar seus nós ao mesmo tempo, os mercados brasileiros encerraram fevereiro sob o peso de incertezas que vieram de dentro e de fora. A indicação de Gleisi Hoffmann para a articulação política do governo Lula acendeu alertas sobre o equilíbrio de forças em torno do ministro Haddad, enquanto Donald Trump avançava com tarifas comerciais e trocava palavras duras com Zelensky na Casa Branca. O dólar fechou a R$ 5,91 — seu pico no mês — e o Ibovespa recuou 1,33%, como se os mercados estivessem tentando precificar não apenas o presente, mas a instabilidade que se anuncia no horizonte.
- A indicação de Gleisi Hoffmann, a voz mais crítica do PT em relação ao mercado, para a Secretaria de Relações Institucionais gerou temor imediato de que Haddad ficasse politicamente isolado dentro do próprio governo.
- Trump confirmou tarifas de importação contra México, Canadá e China a partir de 4 de março, injetando uma dose extra de aversão ao risco nos mercados globais e pressionando moedas emergentes como o real.
- A reunião entre Trump e Zelensky na Casa Branca terminou em confronto aberto, elevando a tensão geopolítica a um nível que os investidores ainda tentam mensurar.
- O último dia do mês trouxe a chamada 'guerra da Ptax', em que grandes agentes disputam a média cambial do Banco Central, amplificando a volatilidade já existente.
- O dólar encerrou a R$ 5,91, maior patamar de fevereiro, e o Ibovespa caiu para 123.130 pontos, refletindo um mercado que não encontrou âncoras suficientes para se estabilizar.
A última sexta-feira de fevereiro concentrou, em poucas horas, uma combinação rara de pressões que analistas descreveram como particularmente tóxica. O dólar disparou 1,50% e fechou a R$ 5,91 — o valor mais alto do mês —, enquanto o Ibovespa recuou 1,33%, encerrando o pregão aos 123.130 pontos.
No plano doméstico, o presidente Lula anunciou a indicação de Gleisi Hoffmann, presidente do PT, para a Secretaria de Relações Institucionais, em substituição a Alexandre Padilha, que migra para o Ministério da Saúde. A movimentação acendeu alertas imediatos entre investidores: Gleisi é reconhecida como a figura mais crítica do mercado dentro do petismo, e sua chegada ao cargo levantou dúvidas sobre o espaço político que restaria ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, além de preocupações com a continuidade da articulação com o Congresso.
Lá fora, Donald Trump confirmou tarifas de importação contra México, Canadá e China a partir de 4 de março, reacendendo o temor de uma guerra comercial de amplo alcance. No mesmo dia, Trump recebeu o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky na Casa Branca — mas a reunião, que deveria tratar de um acordo sobre minerais estratégicos e o futuro da guerra, terminou em troca de palavras duras entre os dois líderes, intensificando a tensão geopolítica global.
Os dados do índice PCE americano, que avançou 0,3% em janeiro e desacelerou para 2,5% em 12 meses, foram lidos com cautela: o arrefecimento inflacionário é positivo, mas não há consenso sobre se levará o Federal Reserve a cortar juros nas próximas reuniões.
Somou-se a tudo isso um fator técnico de fim de mês: a chamada 'guerra da Ptax', em que empresas e investidores disputam a média cambial calculada pelo Banco Central comprando e vendendo dólar em grandes volumes para influenciar contratos de câmbio. O resultado foi um ambiente em que cada incerteza encontrou eco nas demais, e o mercado encerrou o mês sem conseguir encontrar equilíbrio.
A sexta-feira terminou com o dólar disparando para R$ 5,91, seu patamar mais alto em fevereiro, enquanto o Ibovespa desabava 1,33% para 123.130 pontos. A moeda americana fechou com ganho de 1,50% no dia, acumulando alta de 1,35% no mês, embora ainda registre queda de 4,26% no ano. Foi um dia de nervosismo concentrado, segundo analistas, em que o mercado enfrentou uma combinação particularmente tóxica de incertezas domésticas e externas.
No front interno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a indicação de Gleisi Hoffmann, presidente do PT, para a Secretaria de Relações Institucionais. Ela assume o cargo que era de Alexandre Padilha, agora deslocado para o Ministério da Saúde. A movimentação disparou alarmes entre investidores. Gleisi é conhecida como a maior crítica do mercado entre os petistas, e sua chegada ao ministério levantou temores de que Fernando Haddad, ministro da Fazenda, pudesse ficar isolado. Há também preocupação de que a articulação entre governo e Congresso, que Padilha vinha conduzindo, sofra com a transição.
No cenário externo, as turbulências não foram menores. Donald Trump determinou que tarifas de importação entrem em vigor em 4 de março contra México (25%), Canadá (exceto energia) e China (10%). A ameaça comercial paira sobre mercados globais. Além disso, Trump recebeu o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky na Casa Branca para discutir o futuro da guerra na Ucrânia e um acordo sobre minerais de terras raras. A reunião, porém, azedou: os dois líderes subiram o tom e trocaram palavras duras, intensificando a tensão geopolítica.
Os investidores também processavam dados de inflação americana. O índice PCE, um dos principais termômetros de preços nos EUA, avançou 0,3% em janeiro. No acumulado de 12 meses, a inflação desacelerou de 2,6% para 2,5% em dezembro. Os números foram lidos como positivos por mostrarem arrefecimento do processo inflacionário, mas não há consenso sobre se isso influenciará as próximas decisões do Federal Reserve na redução da taxa de juros, atualmente entre 4,25% e 4,50% ao ano.
Há ainda um fator técnico que amplificou a volatilidade: o último dia do mês é sempre especialmente turbulento nos mercados de câmbio. Nesse período, ocorre o que analistas chamam de "guerra da Ptax". A Ptax é a média do preço do dólar em relação ao real, calculada pelo Banco Central e usada como referência para contratos de câmbio. No fim do mês, empresas e investidores tentam influenciar essa média comprando ou vendendo grandes quantidades de dólar para puxar a cotação para cima ou para baixo, buscando um resultado que lhes seja favorável. Emerson Vieira Junior, responsável pela mesa de câmbio da Convexa Investimentos, observou que não faltaram combustíveis para a incerteza nesta sexta-feira. A combinação de dúvidas sobre a política interna, ameaças tarifárias externas, tensões geopolíticas e a dinâmica natural de fim de mês criou um ambiente perfeito para a volatilidade.
Citações Notáveis
Não faltaram fatores para impulsionar a incerteza dos investidores nesta sexta-feira— Emerson Vieira Junior, Convexa Investimentos
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que a nomeação de Gleisi Hoffmann assustou tanto o mercado?
Porque ela é vista como a voz mais crítica do PT em relação aos interesses financeiros. O mercado temia que sua presença no governo pudesse afastar Fernando Haddad, o ministro que tenta manter a confiança dos investidores.
E a saída de Padilha foi ruim?
Padilha era quem conduzia a articulação entre governo e Congresso. Sua ida para a Saúde deixa uma lacuna justamente quando o governo precisa de apoio legislativo.
Mas isso é só política interna. O que realmente moveu o dólar?
Não foi só. Trump anunciou tarifas para daqui a uma semana. Isso afeta toda a cadeia de comércio global. E depois ele e Zelensky brigaram na Casa Branca sobre o fim da guerra na Ucrânia.
Então foi tudo junto?
Exatamente. Mercado odeia incerteza. Quando vem tudo de uma vez — mudança política, ameaça comercial, tensão geopolítica — os investidores fogem para segurança.
E a inflação americana? Os números foram bons.
Foram, mas ninguém sabe se o Federal Reserve vai cortar juros por causa disso. Enquanto não há clareza, o dólar fica forte.
Tem mais algo que explique a queda da Bolsa?
Sim. Era sexta-feira, último dia do mês. Há uma disputa técnica chamada guerra da Ptax, onde grandes players tentam manipular a cotação do dólar para beneficiar seus contratos. Isso amplifica tudo.