O otimismo com a paz no Oriente Médio venceu o medo
Em meio às primeiras negociações formais entre Washington e Teerã, mediadas por Catar e Paquistão, o real ganhou fôlego e o dólar recuou para R$ 5,14 — acumulando queda de mais de 6% no ano. O Banco Central aproveitou o momento para executar uma operação cambial dupla, o chamado 'casadão', buscando estabilidade sem alterar o equilíbrio do mercado. O episódio revela como a geopolítica e a política monetária doméstica se entrelaçam na formação do valor das moedas, enquanto o mundo observa, com cautela esperançosa, se um acordo de 60 dias no Oriente Médio se tornará realidade.
- A perspectiva de um cessar-fogo entre EUA e Irã em 60 dias reduziu a busca por dólar como porto seguro, derrubando a moeda americana frente ao real.
- Ameaças de Trump de retomar o conflito e o fechamento do Estreito de Ormuz por Teerã mantiveram os mercados em estado de alerta permanente.
- O Banco Central executou um 'casadão' — vendendo e comprando dólares simultaneamente — para suavizar distorções sem pressionar as cotações em nenhuma direção.
- O Tesouro Nacional cancelou o leilão de NTN-B do dia seguinte, sinal interpretado pelo mercado como indicativo de deterioração nas condições dos títulos públicos.
- As projeções do Boletim Focus apontam inflação acima do teto da meta para 2026 e Selic revisada para 14% ao ano, sinalizando que o ambiente doméstico segue pressionado.
Na segunda-feira, o dólar fechou a R$ 5,1413, recuando 0,45% e acumulando queda de 6,33% frente ao real no ano. O movimento foi impulsionado pelo otimismo gerado pela primeira rodada de negociações entre Estados Unidos e Irã, mediada por Catar e Paquistão. As duas nações teriam concordado com um roteiro para encerrar o conflito em 60 dias — perspectiva que estimulou o apetite por risco nos mercados globais e reduziu a demanda pelo dólar como ativo de refúgio.
O cenário, porém, carregava suas sombras. Donald Trump ameaçou retomar operações militares no Oriente Médio, e o Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, rota vital para o comércio de petróleo. A cautela permanecia, mesmo que o tom geral fosse de otimismo contido.
O Banco Central realizou um leilão casado — o chamado 'casadão' —, combinando venda de até um bilhão de dólares no mercado à vista com a compra equivalente via swap cambial reverso. A operação dupla visava oferecer liquidez e corrigir distorções sem alterar o nível das cotações. O dólar futuro para julho recuou 0,23%, fechando a R$ 5,1525.
No front doméstico, o Tesouro Nacional cancelou o leilão de NTN-B previsto para o dia seguinte. A corretora Warren interpretou a decisão como sinal de piora no mercado de títulos públicos, alertando para possíveis novos ajustes caso a volatilidade persistisse. O leilão de Letras Financeiras do Tesouro permanecia mantido.
O Boletim Focus trouxe revisões relevantes: a inflação esperada para 2026 subiu para 5,33%, ultrapassando o teto da meta oficial, e a taxa Selic foi revisada de 13,75% para 14,00% ao ano. As projeções para o câmbio permaneceram estáveis, com o dólar esperado a R$ 5,20 no fim de 2026. O mercado aguardava ainda a divulgação do índice PCE americano na quinta-feira, com atenção redobrada diante da queda do petróleo no mercado internacional.
Na segunda-feira, o dólar recuou ante o real enquanto o Banco Central executava duas operações cambiais simultâneas — uma estratégia conhecida no mercado como "casadão". A moeda norte-americana fechou o dia cotada a R$ 5,1413, uma queda de 0,45% em relação ao fechamento anterior. No acumulado do ano, o real já havia ganhado 6,33% de força frente à divisa americana.
O movimento de baixa refletia, em grande medida, o otimismo que tomava conta dos investidores globais. Catar e Paquistão — países mediadores nas negociações entre Estados Unidos e Irã — anunciaram que as duas nações haviam concordado com um roteiro para um acordo final que encerrasse o conflito em 60 dias. Essa perspectiva de resolução alimentou apetite por risco nos mercados, reduzindo a demanda por dólares como ativo de refúgio.
Mas o cenário não era isento de tensões. O presidente americano Donald Trump havia feito ameaças de reiniciar a guerra no Oriente Médio, e Teerã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais vitais para o comércio global de petróleo. Essas preocupações mantinham os investidores em alerta, ainda que o tom geral fosse de cautela otimista.
O Banco Central, por sua vez, realizou um leilão casado de até um bilhão de dólares no câmbio à vista combinado com swap cambial reverso — essencialmente, uma compra de dólar no futuro. A operação dupla visava suavizar distorções no mercado e oferecer liquidez. Em teoria, o efeito sobre as cotações deveria ser neutro, já que a autoridade monetária vendia um bilhão de um lado e comprava um bilhão do outro.
O dólar futuro para julho, o contrato mais líquido na bolsa brasileira, cedia 0,23% no mesmo dia, fechando a R$ 5,1525. No mercado de câmbio comercial, a moeda era cotada tanto para compra quanto para venda a R$ 5,141.
Além das negociações internacionais, o mercado financeiro brasileiro acompanhava de perto outros desenvolvimentos. O Tesouro Nacional cancelou o leilão tradicional de Notas do Tesouro Nacional série B previsto para o dia seguinte — uma decisão que a corretora Warren interpretou como sinal de piora no mercado de títulos públicos. Se a volatilidade persistisse, novos ajustes poderiam ser necessários. O leilão de Letras Financeiras do Tesouro, porém, permanecia programado.
As projeções do mercado, compiladas no Boletim Focus, indicavam pressões inflacionárias à frente. A inflação esperada para 2026 subiu de 5,30% para 5,33%, ultrapassando o teto da meta oficial. Para 2027, a projeção era de 4,15%, e para 2028, de 3,70%. A taxa Selic — a taxa básica de juros — foi revisada para cima, de 13,75% para 14,00% ao ano. O crescimento econômico esperado para 2026 avançou ligeiramente, de 1,96% para 1,98%.
No câmbio, as expectativas do mercado permaneciam relativamente estáveis. Os analistas projetavam o dólar em R$ 5,20 ao final de 2026 e uma leve apreciação para R$ 5,27 em 2027. Enquanto isso, a queda do petróleo no mercado internacional mantinha os investidores atentos às expectativas para o índice de inflação PCE americano, que seria divulgado na quinta-feira seguinte.
Notable Quotes
Catar e Paquistão afirmaram que EUA e Irã concordaram com roteiro para acordo final em 60 dias— Países mediadores
Decisão do Tesouro de cancelar leilão de NTN-B indica piora no mercado de títulos e pode exigir novas medidas se volatilidade persistir— Corretora Warren
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Banco Central fez essas duas operações ao mesmo tempo? Qual era o objetivo real?
O "casadão" é uma forma de o BC oferecer liquidez sem distorcer o câmbio. Ele vende dólar de um lado e compra do outro, então em tese não muda a cotação. Mas na prática, acalma o mercado porque mostra que há dólar disponível.
E as negociações entre EUA e Irã — por que isso faz o dólar cair?
Quando há esperança de paz, investidores saem do dólar como refúgio seguro e entram em ativos de risco. O real fica mais atraente. Mas Trump ameaçando reiniciar a guerra mantém tudo incerto.
O Tesouro cancelou um leilão de títulos. Isso é preocupante?
É um sinal de que o mercado de títulos públicos está instável. Quando o governo cancela, significa que as condições não estão boas para vender. Pode indicar que a volatilidade vai continuar.
As projeções de inflação subiram. O que isso muda?
Significa que o mercado espera mais pressão de preços à frente. A Selic já foi revisada para cima também. Isso torna o real mais atraente porque juros maiores atraem investimento estrangeiro.
Então o dólar pode continuar caindo?
Depende do que acontecer nas negociações e da inflação americana. Se a paz no Oriente Médio se confirmar e a inflação americana não explodir, sim. Mas qualquer notícia ruim reverte tudo.