Alguns graus a menos podem fazer diferença para quem espera sob o calor
O bloc° funciona com princípio de resfriamento evaporativo: terracota porosa absorve água, e quando ar quente passa pela superfície úmida, a evaporação reduz a temperatura do ambiente. Ilhas de calor urbanas matam cerca de 489 mil pessoas por ano globalmente; o projeto atua em pontos específicos como abrigos de ônibus, praças e pátios escolares onde árvores não são viáveis.
- Bloc° reduz temperatura em até 9°C usando evaporação de água em terracota porosa
- Calor urbano causa aproximadamente 489 mil mortes anuais globalmente
- Consumo de água: 56 litros por dia em temperaturas acima de 30°C
- Projeto desenvolvido por Andrin Stocker e Luc Schweizer da Universidade de Artes de Zurique
- Selecionado no James Dyson Award 2025, etapa suíça
Dois designers suíços desenvolvem o bloc°, um sistema modular de terracota que usa evaporação de água e energia solar para reduzir temperatura em até 9°C em espaços urbanos públicos, oferecendo alívio térmico localizado contra ilhas de calor.
O calor nas cidades deixou de ser um incômodo sazonal. Tornou-se uma crise de saúde pública que mata centenas de milhares de pessoas a cada ano, sobrecarrega redes elétricas e força governos a repensar como construem e planejam seus espaços urbanos. Nas ruas, o problema é visceral: asfalto que queima os pés, fachadas que irradiam calor como fornos, pontos de ônibus onde pessoas esperam sob o sol direto sem qualquer proteção. É neste cenário que dois designers suíços apresentam uma resposta modesta mas inteligente.
Andrin Stocker e Luc Schweizer, ligados à Universidade de Artes de Zurique, desenvolveram o bloc°, um sistema de blocos modulares feitos de terracota porosa que promete resfriar espaços urbanos superaquecidos em até 9°C. A solução funciona a partir de um princípio antigo: a evaporação da água. Qualquer pessoa que tenha deixado uma jarra de barro na cozinha sabe que a água dentro dela permanece fresca mesmo em dias quentes. O bloc° leva essa lógica para o mobiliário urbano. Blocos de terracota impressos em 3D contêm canais internos que facilitam a circulação de ar. Quando água satura a superfície porosa e ar quente passa por ela, parte da água evapora, retirando calor do ambiente. Pequenos ventiladores e bombas movidos por painéis solares mantêm o sistema funcionando sem depender da rede elétrica convencional.
O projeto não pretende ser um ar-condicionado de rua capaz de transformar o clima de uma cidade inteira. Funciona em escala local e específica: abrigos de transporte público, praças, pátios escolares, calçadas muito expostas ao sol, áreas de espera. Os módulos podem ser organizados como pequenas paredes, bancos, divisórias ou estruturas de sombra. Uma pessoa não precisa entrar em um ambiente fechado, apenas se aproximar da estrutura para sentir uma zona com ar mais fresco. O reconhecimento internacional veio quando o bloc° foi selecionado entre os projetos da etapa suíça do James Dyson Award 2025, ganhando visibilidade como uma solução que mistura design industrial, clima urbano e materiais tradicionais.
O problema que o bloc° tenta atacar é conhecido como ilha de calor urbana. Edifícios, ruas e infraestruturas absorvem e reemitem mais calor solar do que paisagens naturais. Concreto, asfalto, telhados escuros e fachadas duras acumulam energia ao longo do dia. À noite, esse calor continua sendo liberado, mantendo bairros inteiros mais quentes mesmo depois do pôr do sol. O efeito piora em áreas com pouca arborização, excesso de pavimentação e ventilação bloqueada por construções densas. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 489 mil mortes relacionadas ao calor ocorrem anualmente. O calor urbano não atinge todo mundo da mesma forma: trabalhadores de rua, estudantes, idosos, ciclistas, pedestres e pessoas que dependem de transporte público ficam mais expostos às horas mais quentes do dia.
O interesse crescente em alternativas ao ar-condicionado convencional reflete uma mudança de perspectiva. O resfriamento tradicional consome muita energia, pressiona redes elétricas e pode aumentar emissões quando a eletricidade vem de fontes poluentes. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente alertou que a demanda por resfriamento pode mais que triplicar até 2050 sem mudanças relevantes. Materiais como a terracota voltam a ganhar espaço não para eliminar sistemas mecânicos em hospitais, casas e escritórios, mas para reduzir a pressão em ambientes externos e áreas de passagem. O bloc° ainda usa energia, mas em pequena escala e com alimentação solar, trabalhando com o comportamento natural da água, do ar e do barro.
Apesar do potencial, o projeto enfrenta um desafio decisivo: testes em escala real e por períodos prolongados. Uma coisa é funcionar em protótipos controlados, outra é resistir a poeira, vandalismo, vento irregular, umidade alta, manutenção pública e uso intenso. Os criadores planejam testes de um protótipo em tamanho real para medir quanto o sistema resfria em diferentes climas, qual o consumo real de água e como se comporta em cidades úmidas. Há também uma questão sensível: o uso hídrico. Em dias acima de 30°C, o projeto cita consumo aproximado de 56 litros por dia, com possibilidade de abastecimento por infraestrutura municipal ou captação de chuva. Em locais com escassez hídrica, esse fator precisaria ser analisado com cuidado.
O bloc° não salvará uma cidade apenas empilhando tijolos de terracota. O combate às ilhas de calor exige arborização, drenagem urbana, planejamento de bairros, revisão de materiais de construção e proteção de populações vulneráveis. O mérito do projeto suíço está em apontar uma saída intermediária, mais localizada e menos dependente de grandes obras. Se funcionar em escala real, pode transformar pontos de ônibus, praças duras e fachadas expostas em áreas menos hostis durante ondas de calor. A força da ideia reside na simplicidade: barro, água, ar e sol trabalhando juntos. Pode parecer pouco diante do tamanho do problema, mas em uma calçada sem sombra, alguns graus a menos podem fazer diferença para quem espera, trabalha ou caminha sob o calor.
Notable Quotes
A demanda por resfriamento pode mais que triplicar até 2050 sem mudanças relevantes— Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Global Cooling Watch 2025
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que dois designers suíços decidiram trabalhar com terracota em vez de tecnologia mais sofisticada?
Porque a sofisticação nem sempre resolve o problema. Eles perceberam que a água evaporando em barro poroso é um princípio que funciona há séculos. O que mudou foi colocar isso em um contexto urbano moderno, com painéis solares e design pensado para espaços públicos.
Mas 9°C de redução é realmente significativo em uma onda de calor?
Depende de onde você está. Se você está esperando um ônibus sob o sol direto a 35°C, descer para 26°C muda completamente a experiência. Não é conforto total, mas é a diferença entre suportar e sofrer.
O consumo de 56 litros de água por dia parece alto. Como isso funciona em cidades secas?
É uma limitação real. O projeto prevê captação de chuva ou abastecimento municipal, mas em regiões com escassez hídrica, você teria que escolher entre resfriar pessoas ou irrigar. Essa tensão ainda não foi resolvida.
Se árvores fazem basicamente a mesma coisa, por que não apenas plantar mais árvores?
Porque uma árvore adulta leva anos para crescer e precisa de espaço, manutenção, raízes. Em uma calçada apertada, um pátio escolar ou um ponto de ônibus, você não tem esse tempo ou espaço. O bloc° é uma resposta para onde a natureza não cabe imediatamente.
Qual é o risco maior para o projeto?
Vandalismo e manutenção. Um protótipo funciona em laboratório. Mas quando você coloca algo na rua, em um espaço público, precisa que resista a pessoas quebrando, sujando, ignorando. E alguém precisa manter a água circulando, os painéis solares limpos. Sem isso, vira apenas um bloco de barro seco.