Exame de sangue simples pode prever risco de Alzheimer anos antes dos sintomas

A elevação dos neutrófilos ocorre antes de qualquer evidência de declínio cognitivo
Cientista da NYU explica por que o marcador inflamatório pode sinalizar risco de demência anos antes dos sintomas.

Pesquisa com 400 mil pacientes mostra que razão neutrófilo-linfócito (NLR) no hemograma está associada ao desenvolvimento de demência anos antes dos sintomas aparecerem. Especialista reforça que controle de doenças crônicas como hipertensão, diabetes e obesidade é fundamental para reduzir risco de demência vascular e outras formas de declínio cognitivo.

  • Estudo com 400 mil pacientes (285 mil da NYU Langone e 85 mil de veteranos americanos)
  • Razão neutrófilo-linfócito (NLR) no hemograma associada a risco futuro de Alzheimer e demências
  • Marcador detectado a partir dos 55 anos, antes de qualquer diagnóstico de demência
  • Controle de hipertensão, diabetes e obesidade reduz significativamente risco de demência vascular

Estudo da NYU Langone Health identifica marcador inflamatório no hemograma associado ao risco futuro de Alzheimer e demências, podendo auxiliar na identificação precoce de pacientes em risco.

Pesquisadores da NYU Langone Health descobriram que um exame de sangue simples, já rotineiro nas clínicas, pode sinalizar o risco de uma pessoa desenvolver Alzheimer ou outras formas de demência anos antes de qualquer sintoma aparecer. O achado vem de uma análise de quase 400 mil pacientes em dois grandes sistemas de saúde americanos e foi publicado na revista Alzheimer's & Dementia. O marcador em questão não é sofisticado nem novo — trata-se de um índice calculado a partir do hemograma completo, aquele exame básico solicitado em qualquer consulta de rotina.

O foco da pesquisa recaiu sobre os neutrófilos, células de defesa que fazem parte do sistema imunológico e respondem a infecções e processos inflamatórios. Quando o corpo ativa sua resposta imune, a quantidade dessas células sobe rapidamente, alterando o equilíbrio com outros componentes do sangue. Os cientistas mediram esse equilíbrio através da razão neutrófilo-linfócito, ou NLR — um simples cálculo feito a partir do hemograma. O estudo analisou dados de cerca de 285 mil pacientes atendidos em hospitais da NYU Langone e outros 85 mil do sistema de saúde de veteranos americanos. Para garantir precisão, os pesquisadores olharam para a primeira medição válida do NLR em cada participante, realizada a partir dos 55 anos e antes de qualquer diagnóstico de demência. Os resultados mostraram consistentemente que níveis mais altos desse marcador estavam associados a maior probabilidade de desenvolvimento de Alzheimer e outras demências, tanto no curto quanto no longo prazo.

Mas há uma ressalva importante que os autores enfatizam: o NLR não funciona como teste diagnóstico de Alzheimer. O marcador é um possível indicador de risco aumentado, não uma ferramenta definitiva de detecção da doença. Tianshe He, cientista de dados da Escola de Medicina Grossman da NYU, explicou que a elevação dos neutrófilos ocorre antes de qualquer evidência de declínio cognitivo, o que reforça a necessidade de investigar se essas células estão contribuindo ativamente para a progressão da doença. Jaime Ramos-Cejudo, outro pesquisador envolvido, destacou que os resultados podem ter duas implicações principais: auxiliar na identificação de pacientes que precisam de acompanhamento mais próximo e aprofundar a compreensão do papel dos neutrófilos no desenvolvimento da demência. Segundo ele, estudos futuros mostrarão se os neutrófilos são apenas um marcador da doença ou se estão causando ativamente a progressão, caso em que poderiam se tornar um alvo terapêutico relevante.

Os pesquisadores também observam que o envelhecimento pode agravar esse processo, já que o organismo perde eficiência na eliminação de neutrófilos mais antigos. Estudos anteriores já haviam identificado sinais de inflamação associados a essas células no cérebro de pacientes com Alzheimer, além de evidências em modelos animais sugerindo aceleração da progressão da doença. Ainda assim, não há comprovação de relação direta de causa e efeito. A hipótese atual é de que a inflamação possa atuar como um fator associado, e não necessariamente como origem da doença.

Marcos Blini, médico geriatra e professor do curso de Medicina da Uniderp, reforça que avanços como esse destacam a importância do acompanhamento clínico contínuo de pacientes acima dos 55 anos, especialmente no controle de doenças crônicas. Ele aponta que quando se fala em prevenção de demências, é preciso olhar muito para a demência vascular, aquela causada por micro acidentes vasculares cerebrais, que está fortemente associada a fatores de risco cardiovascular como hipertensão, diabetes, tabagismo e obesidade. Embora o Alzheimer ainda não tenha um marcador laboratorial definitivo, o controle de condições metabólicas pode reduzir significativamente o risco de diferentes tipos de demência. Um paciente que faz acompanhamento adequado, trata hipertensão, diabetes e colesterol alto diminui muito o risco de demência vascular de forma bastante significativa.

Blini alerta, porém, para a necessidade de cautela na interpretação de exames isolados. Inflamação é um termo muito genérico e ainda pouco definido do ponto de vista técnico. O que se sabe é que doenças crônicas mal controladas e hábitos não saudáveis estão associados a um estado inflamatório do organismo. Fatores como obesidade, sedentarismo e má alimentação contribuem para esse processo. O ideal, segundo ele, é o paciente cuidar da saúde como um todo, com atividade física, alimentação adequada e controle de doenças crônicas — isso é o que realmente ajuda a reduzir inflamação no corpo ao longo dos anos.

Na avaliação de Blini, ainda não é possível utilizar marcadores como a razão neutrófilo-linfócito como ferramenta isolada de rastreio para demências na prática clínica. Não existe nenhum exame específico que determine risco de Alzheimer. O que se faz é avaliar a saúde geral do paciente e o controle de fatores de risco. Esses marcadores ainda não têm aplicação direta como diagnóstico ou previsão individual. Apesar das limitações, os pesquisadores da NYU Langone Health acreditam que o NLR pode se tornar uma ferramenta complementar no futuro, ajudando a identificar pacientes que precisam de acompanhamento mais rigoroso ou intervenções precoces. Enquanto isso, os estudos continuam para entender se os neutrófilos são apenas um marcador associado à doença ou se têm participação ativa no processo de degeneração cerebral. A resposta a essa questão pode abrir novas portas para tratamentos e estratégias de prevenção em uma das doenças mais desafiadoras da medicina contemporânea.

A elevação dos neutrófilos ocorre antes de qualquer evidência de declínio cognitivo, o que reforça a necessidade de investigar se eles estão contribuindo ativamente para a progressão da doença
— Tianshe He, cientista de dados da Escola de Medicina Grossman da NYU
O paciente que faz acompanhamento adequado, trata hipertensão, diabetes e colesterol alto diminui muito o risco de demência vascular de forma bastante significativa
— Marcos Blini, médico geriatra e professor da Uniderp
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que um exame de sangue tão simples consegue prever algo tão complexo quanto o Alzheimer?

Model

Porque a inflamação deixa rastros mensuráveis no sangue muito antes de o cérebro começar a falhar. Os neutrófilos sobem quando o corpo está em alerta, e esse padrão parece preceder o declínio cognitivo por anos.

Inventor

Mas se é só um marcador, por que não é diagnóstico?

Model

Porque correlação não é causalidade. Sabemos que pessoas com NLR alto desenvolvem mais demência, mas ainda não sabemos se os neutrófilos estão causando o problema ou apenas sinalizando que algo está errado.

Inventor

Então o exame não serve para nada hoje?

Model

Serve, mas de forma limitada. Pode ajudar a identificar quem precisa de acompanhamento mais cuidadoso, mas não substitui a avaliação clínica completa. É uma pista, não uma sentença.

Inventor

E o que as pessoas podem fazer agora, enquanto aguardam respostas?

Model

Controlar o que está ao seu alcance: pressão arterial, diabetes, peso, atividade física, alimentação. Essas coisas reduzem inflamação no corpo e diminuem o risco de várias formas de demência, independentemente do NLR.

Inventor

Por que o envelhecimento piora esse processo?

Model

Porque com a idade, o corpo fica menos eficiente em eliminar neutrófilos antigos. Eles se acumulam, mantendo um estado inflamatório crônico que pode danificar o cérebro ao longo do tempo.

Inventor

Qual é o próximo passo para os pesquisadores?

Model

Descobrir se os neutrófilos são apenas espectadores ou se estão realmente causando a degeneração. Se forem causa, podem virar alvo de novos medicamentos. Se forem só marcador, continuamos buscando a causa real.

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