Muitas vezes ele só percebe uma lesão quando o trauma já evoluiu
No Brasil, o diabetes mellitus transforma silenciosamente o cotidiano de milhões de pessoas em uma contagem regressiva para a perda de membros — responsável por 85% das amputações de membros inferiores no país. A síndrome do pé diabético avança sem dor perceptível, roubando primeiro a sensibilidade, depois a mobilidade, e por fim o próprio membro. É a história de uma doença que se instala anos antes de ser descoberta, e que cobra seu preço mais alto justamente quando o paciente menos espera.
- Oitenta e cinco por cento das amputações de membros inferiores no Brasil têm uma única causa: o diabetes mellitus e suas complicações vasculares e neurológicas.
- O perigo mora na invisibilidade — pacientes perdem a sensibilidade nos pés gradualmente e só descobrem feridas graves quando a necrose já avançou e a intervenção médica pouco pode fazer.
- O ressecamento dos pés é o primeiro sinal de alarme, mas é ignorado até evoluir para fissuras profundas, úlceras e infecções que podem consumir o membro inteiro.
- Maura Aleixo, 77 anos, perdeu a perna direita em 1996 por causa de um ferimento trivial — a extração de um bicho-de-pé — amplificado por um diabetes que ainda não havia sido diagnosticado.
- O diagnóstico tardio é a regra: o diabetes tipo 2 se desenvolve por anos em silêncio, e quando é detectado na vida adulta, o paciente frequentemente já convive com a doença há pelo menos cinco anos sem saber.
No Brasil, o diabetes mellitus está por trás de aproximadamente 85% das amputações de membros inferiores, segundo o Ministério da Saúde. A principal responsável é a síndrome do pé diabético — uma complicação crônica que começa de forma quase imperceptível e termina em cirurgia. O mecanismo é implacável: o excesso de açúcar no sangue danifica vasos e nervos simultaneamente, dificultando a cicatrização de feridas que evoluem para úlceras, infecções e necrose.
Samaya Ribeiro, enfermeira do Ambulatório do Pé Diabético do Cedoh, acompanha esse processo todos os dias. Quando os pacientes chegam, a irrigação sanguínea e a sensibilidade já estão comprometidas. Muitos só percebem que têm uma lesão quando o tecido já está necrosando. O primeiro sinal de alerta é o ressecamento dos pés — indicativo de que as fibras nervosas estão sendo danificadas. Sem atenção, esse ressecamento vira fissura profunda, e a perda de sensibilidade protetora abre caminho para acidentes domésticos graves, como queimaduras de segundo grau em escalda-pés que o paciente sequer sentiu.
A maioria dos casos severos envolve diabetes tipo 2, ligado a sobrepeso, sedentarismo e hipertensão. O diagnóstico tardio é a regra: quando detectado na vida adulta, o paciente geralmente já convive com a doença há pelo menos cinco anos.
Maura Aleixo, aposentada de 77 anos, carrega essa história no próprio corpo. Diabética há mais de quatro décadas, ela descobriu a doença após uma lesão no pé revelar glicemia de 380 mg/dL. O pé esquerdo nunca cicatrizou completamente — um ciclo de melhora e recaída que persiste até hoje. Já a perna direita teve um destino mais severo: um bicho-de-pé extraído pela filha desencadeou um processo de inchaço e deterioração que, em 1996, resultou na amputação abaixo do joelho. Três décadas depois, Maura ainda vive com as consequências daquele ferimento aparentemente simples, amplificado por um diabetes que ainda não havia sido diagnosticado.
No Brasil, uma doença silenciosa rouba membros de seus portadores com uma regularidade assustadora. O diabetes mellitus está por trás de aproximadamente 85% das amputações de membros inferiores realizadas no país, segundo dados do Ministério da Saúde. A culpa recai principalmente sobre uma complicação crônica conhecida como síndrome do pé diabético — um processo que começa discretamente, quase invisível, e termina em cirurgia.
O mecanismo é cruel em sua simplicidade. Níveis elevados de açúcar no sangue danificam os vasos sanguíneos e os nervos dos pés simultaneamente. As feridas que surgem cicatrizam com dificuldade. Sem tratamento adequado, elas evoluem para úlceras, depois infecções graves, depois necrose. Nesse ponto, a amputação deixa de ser uma opção e vira a única saída. O problema é que muitos pacientes não percebem a gravidade até ser tarde demais.
Samaya Ribeiro, enfermeira responsável pelo Ambulatório do Pé Diabético do Centro Especializado em Diabetes, Obesidade e Hipertensão Arterial (Cedoh), vê isso todos os dias. Quando os pacientes chegam até ela, já passaram por vários estágios de deterioração. A irrigação sanguínea está comprometida. Os nervos também. O paciente perde completamente a sensibilidade nos membros — um processo gradativo que ele mal nota acontecendo. Muitas vezes, só descobre que tem uma lesão quando o trauma já evoluiu e a área já está necrosando. Nesse ponto, a intervenção médica fica bastante limitada.
Tudo começa com algo que parece inofensivo: o ressecamento dos pés. É o primeiro aviso, indicando que as fibras nervosas responsáveis pela produção de suor e sebo estão sendo danificadas. Esse ressecamento evolui rapidamente para fissuras profundas — Samaya relata casos de pacientes que chegam praticamente sem conseguir caminhar, com verdadeiras crateras nos pés. Paralelamente, a sensibilidade protetora desaparece. O paciente deixa de sentir uma pedra dentro do sapato. Depois perde a capacidade de sentir dor, pressão e temperatura. Há relatos de pessoas que tentaram fazer um escalda-pés em casa, não perceberam que a água estava fervendo e sofreram queimaduras de segundo grau.
A maioria dos casos severos envolve diabetes tipo 2, associado a sobrepeso, sedentarismo e hipertensão. O diagnóstico tardio é a regra, não a exceção. Samaya explica que essa é uma doença que se desenvolve ao longo de muitos anos. Quando um paciente é diagnosticado na idade adulta, geralmente já idoso, é porque já convive com a doença há pelo menos cinco anos sem saber.
Maura Aleixo, aposentada de 77 anos, carrega essa história no corpo. Convive com diabetes há mais de 40 anos. Tudo começou quando uma lesão parecida com um calo apareceu em seu pé e um exame de sangue revelou uma glicemia de 380 mg/dL. Desde então, ela trata. O pé esquerdo nunca cicatrizou completamente — melhora, depois incha novamente, a ferida abre de novo. É um ciclo.
Mas a perna direita teve um destino pior. Tudo começou com algo trivial: a extração de um bicho-de-pé. A filha de Maura tirou o parasita, e daí em diante o pé começou a inchar, a apodrecer. Em 1996, ela perdeu a perna abaixo do joelho. Três décadas depois, continua vivendo com as consequências daquele ferimento aparentemente simples, amplificado pelo diabetes que ninguém havia diagnosticado ainda.
Citas Notables
O paciente descompensado apresenta uma irrigação sanguínea cada vez mais deficiente e, ao mesmo tempo, a alteração neurológica: ele perde completamente a sensibilidade dos membros.— Samaya Ribeiro, enfermeira do Cedoh
Essa é uma doença que se desenvolve ao longo de muitos anos. Se o usuário é diagnosticado na idade adulta, geralmente já idoso, é porque ele já desenvolve a doença há, no mínimo, cinco anos.— Samaya Ribeiro
La Conversación del Hearth Otra perspectiva de la historia
Por que o diabetes causa amputações e não apenas feridas que cicatrizam lentamente?
Porque danifica dois sistemas ao mesmo tempo — os vasos sanguíneos e os nervos. Sem circulação adequada, a ferida não cicatriza. Sem sensibilidade, o paciente não percebe que está piorando até ser muito tarde.
Então o paciente literalmente não sente o pé apodrecendo?
Exatamente. Perde a sensibilidade protetora primeiro. Depois perde a capacidade de sentir dor. Pode queimar o pé em água fervente e não perceber. Quando finalmente vem ao médico, a necrose já começou.
E por que o diagnóstico é sempre tão tardio?
Porque o diabetes tipo 2 se desenvolve silenciosamente ao longo de anos. A pessoa só descobre quando já tem complicações. Se foi diagnosticada aos 60 anos, provavelmente tem a doença desde os 55, no mínimo.
O ressecamento dos pés é realmente o primeiro sinal?
Sim. Parece inofensivo — só pele seca. Mas indica que os nervos que controlam suor e sebo estão sendo danificados. Daí evolui rapidamente para fissuras profundas.
A história de Maura — começou com um bicho-de-pé. Isso é comum?
Qualquer ferimento pequeno pode virar amputação em um diabético descompensado. O corpo não consegue cicatrizar, a infecção avança, e sem intervenção rápida, a única opção é amputar.
Existe forma de prevenir?
Diagnóstico precoce e controle rigoroso da glicemia. Mas muitos pacientes só chegam ao médico quando já estão em estágio avançado. É por isso que 85% das amputações de membros inferiores no Brasil são causadas por diabetes.