Investigadores do Porto descobrem estratégia para melhorar quimioterapia na leucemia mieloide

A leucemia mieloide aguda causa morte significativa, particularmente por infeções graves; esta descoberta potencialmente reduzirá mortalidade e complicações em doentes.
Como matar a doença sem matar o doente
O dilema central da quimioterapia intensiva para leucemia mieloide aguda, que esta descoberta pode ajudar a resolver.

No cruzamento entre a cura e o dano colateral, investigadores da Universidade do Porto encontraram numa proteína ancestral — a transferrina — uma possível resposta a um dilema que persegue a oncologia há décadas. A quimioterapia intensiva salva vidas ao destruir células cancerígenas na leucemia mieloide aguda, mas deixa nos tecidos um excesso de ferro tóxico que enfraquece o sistema imunitário e abre portas a infeções fatais. A descoberta, publicada na Science Translational Medicine, sugere que administrar apotransferrina em paralelo com a quimioterapia pode limpar esse ferro em excesso, proteger a medula óssea e reduzir as complicações que tantas vezes matam o doente antes da doença o fazer.

  • A leucemia mieloide aguda mata por partida dupla: pelas células cancerígenas e pelas consequências devastadoras do próprio tratamento que as elimina.
  • A quimioterapia intensiva provoca acumulação tóxica de ferro nos tecidos, danificando células saudáveis e suprimindo o sistema imunitário no momento em que ele é mais necessário.
  • A equipa do i3S testou apotransferrina humana — uma forma de transferrina sem ferro — que atua como um aspirador molecular, capturando o ferro tóxico e redistribuindo-o para células saudáveis.
  • Em modelos experimentais com leucemia e infeção por E. coli, os animais tratados sobreviveram mais, recuperaram melhor a medula óssea e apresentaram inflamação mais controlada.
  • Um ensaio clínico no IPO Porto está iminente, com o objetivo de confirmar a segurança e eficácia desta abordagem em doentes reais com leucemia mieloide aguda.

Investigadores do i3S da Universidade do Porto publicaram esta semana na Science Translational Medicine uma descoberta que pode mudar a forma como se trata a leucemia mieloide aguda. O problema central desta doença não é apenas o cancro em si: é que o remédio que o combate — a quimioterapia intensiva — deixa nos tecidos do corpo um excesso de ferro tóxico que danifica células saudáveis e compromete o sistema imunitário precisamente quando o doente mais precisa de defesas.

Delfim Duarte, hematologista do IPO Porto e responsável pelo grupo de investigação, explica que este ferro acumulado enfraquece a medula óssea e abre caminho a infeções graves, uma das principais causas de morte nesta população. A solução proposta pela equipa é elegante: usar apotransferrina humana, uma forma da proteína transferrina desprovida de ferro, que circula na corrente sanguínea e captura o ferro tóxico em excesso, redistribuindo-o para as células saudáveis.

Marta Lopes, primeira autora do estudo, testou especificamente o que acontece quando estes doentes enfrentam uma infeção grave. Num modelo experimental com E. coli, os animais tratados com apotransferrina sobreviveram mais tempo — não porque as bactérias foram eliminadas mais rapidamente, mas porque a resposta inflamatória ficou mais controlada, impedindo o organismo de se auto-destruir no combate à infeção.

O passo seguinte é clínico: o i3S planeia colaborar com a unidade de ensaios de fase precoce do IPO Porto para testar esta combinação em doentes reais. Se os resultados confirmarem o que os modelos experimentais sugerem, futuros doentes com leucemia mieloide aguda poderão beneficiar de um tratamento mais eficaz e menos destrutivo — menos ferro tóxico, menos infeções, menos complicações. Uma resposta possível a um dos dilemas mais antigos da medicina: como curar a doença sem destruir quem a sofre.

Investigadores da Universidade do Porto identificaram uma abordagem que pode transformar o tratamento da leucemia mieloide aguda — uma doença que mata por duas razões simultâneas: as células cancerígenas que não conseguem controlar, e o próprio remédio que as destrói. O estudo, publicado esta semana na revista científica Science Translational Medicine, propõe uma solução elegante: usar uma proteína chamada transferrina para limpar o ferro tóxico que a quimioterapia deixa acumular nos tecidos do corpo.

A leucemia mieloide aguda é tratada com quimioterapia intensiva. O problema é que este tratamento funciona — mata as células cancerígenas com eficácia — mas deixa um rasto de destruição. Delfim Duarte, hematologista do Instituto Português de Oncologia do Porto e responsável pelo grupo de investigação que conduziu este trabalho no i3S, explica que a quimioterapia provoca uma toxicidade elevada, nomeadamente o acumular excessivo de ferro nos tecidos. Este ferro em excesso danifica as células saudáveis e enfraquece o sistema imunitário precisamente quando o doente mais precisa dele.

A equipa testou uma forma de transferrina sem ferro — chamada apotransferrina humana — que funciona como um aspirador molecular. A proteína circula pela corrente sanguínea, captura o ferro tóxico em excesso e o redistribui para as células saudáveis da medula óssea e do sistema imunitário. Em modelos experimentais, incluindo ratinhos com leucemia, esta abordagem reduziu significativamente os níveis de ferro tóxico após a quimioterapia. Mas o efeito mais importante foi outro: a medula óssea recuperou melhor, a sobrevivência aumentou, e as complicações infeciosas diminuíram.

Marta Lopes, primeira autora do estudo, investigou especificamente o que acontece quando um doente com leucemia mieloide aguda enfrenta uma infeção grave — uma das principais causas de morte nesta população. Num modelo experimental de infeção por E. coli, os animais tratados com apotransferrina sobreviveram mais tempo. Não porque as bactérias foram eliminadas, mas porque a resposta inflamatória do corpo ficou mais controlada. A apotransferrina reduziu a inflamação excessiva, permitindo ao organismo lidar melhor com a infeção sem se auto-destruir no processo.

O próximo passo é clínico. O i3S planeia colaborar com a unidade de ensaios de fase precoce do Instituto Português de Oncologia do Porto para testar esta combinação em doentes reais. O objetivo é avaliar, de forma preliminar, a segurança e a eficácia de administrar transferrina juntamente com a quimioterapia. Se os resultados forem positivos, isto poderia significar que futuros doentes com leucemia mieloide aguda teriam não apenas um tratamento mais eficaz, mas também um que causa menos dano colateral — menos ferro tóxico, menos infeções, menos complicações. É uma descoberta que toca no cerne de um dilema médico antigo: como matar a doença sem matar o doente.

A quimioterapia elimina células cancerígenas com eficácia, mas provoca toxicidade elevada, nomeadamente a acumulação excessiva de ferro nos tecidos
— Delfim Duarte, hematologista do IPO Porto
A apotransferrina reduziu a inflamação excessiva, ajudando o organismo a lidar melhor com a infeção
— Marta Lopes, primeira autora do estudo
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
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Porque é que o ferro se torna um problema durante a quimioterapia?

Model

A quimioterapia é agressiva por natureza — tem de ser, para matar as células cancerígenas. Mas quando mata essas células, liberta o ferro que estava armazenado dentro delas. Esse ferro acumula-se nos tecidos e torna-se tóxico, danificando células saudáveis e enfraquecendo o sistema imunitário.

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E a transferrina resolve isto simplesmente capturando o ferro?

Model

Exatamente. A transferrina é uma proteína que o corpo usa naturalmente para transportar ferro. A apotransferrina — a versão sem ferro — funciona como um magnete. Circula pela corrente sanguínea, recolhe o ferro em excesso e leva-o para onde é útil, em vez de deixá-lo danificar tecidos.

Inventor

Mas porque é que isto ajuda especificamente com infeções?

Model

Porque o ferro tóxico causa inflamação excessiva. Quando o corpo tenta lutar contra uma infeção, essa inflamação já descontrolada piora tudo. A apotransferrina reduz essa inflamação, permitindo uma resposta imunitária mais equilibrada e eficaz.

Inventor

Isto foi testado em humanos?

Model

Ainda não. Por enquanto, foi testado em modelos experimentais — ratinhos com leucemia, culturas de células. O próximo passo é um ensaio clínico no Porto para ver se funciona em doentes reais.

Inventor

Qual é o risco?

Model

É sempre difícil prever como o corpo humano vai responder. Mas os dados pré-clínicos são promissores, e a transferrina é uma proteína que o corpo conhece bem, o que reduz o risco de reações inesperadas.

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