Restabelecer interações ecológicas que as araras podem desempenhar
Depois de mais de dois séculos de silêncio, três araras-canindés voltaram a sobrevoar a Floresta da Tijuca nesta quarta-feira — um retorno que não é apenas zoológico, mas filosófico: a prova de que a natureza, quando amparada pela paciência humana, pode refazer o que o descuido desfez. O projeto Refauna, em parceria com o ICMBio, devolveu Fernanda, Sueli e Fátima a uma floresta que as havia esquecido, reacendendo interações ecológicas extintas e lembrando que restaurar um ecossistema é, antes de tudo, um ato de humildade diante do tempo.
- Duas centenas de anos de ausência pesam sobre cada batida de asa: as araras-canindés foram extintas localmente pela caça e pela destruição do habitat que marcou a história ambiental do Rio.
- Sete meses de treinamento intensivo — aprendendo a voar, a reconhecer frutos, a habitar uma mata que não era mais sua — foram necessários antes que as três aves pudessem ser liberadas com alguma chance real de sobrevivência.
- O projeto Refauna mobilizou o ICMBio e mais de uma dezena de parceiros para orquestrar a reintrodução, com o objetivo de não apenas devolver uma espécie, mas restaurar interações ecológicas que só as araras podem cumprir.
- A Floresta da Tijuca já abriga cutias, macacos-bugios e jabutis-tinga reintroduzidos desde 2010 — as araras são o quarto elo de uma teia que está sendo, fio a fio, reconstituída.
- O desafio agora é o mais imprevisível: sobreviver, reproduzir-se e, talvez, fundar gerações que nunca precisarão de viveiros para conhecer a liberdade.
Na quarta-feira passada, três araras-canindés chamadas Fernanda, Sueli e Fátima deixaram seus viveiros e voltaram a voar na Floresta da Tijuca — encerrando uma ausência de mais de 200 anos. A espécie havia desaparecido do Rio de Janeiro vítima da caça e da perda de habitat, e seu retorno é fruto de um longo processo de preparação: as aves chegaram ao Parque Nacional da Tijuca em junho de 2025 e passaram sete meses aprendendo a voar, a se alimentar dos frutos da mata e a reconhecer o ambiente que deveriam chamar de lar.
Por trás da soltura está o projeto Refauna, desenvolvido em parceria com o ICMBio e outros colaboradores. Para a bióloga Lara Renzeti, coordenadora da reintrodução, o objetivo vai além do retorno simbólico de uma espécie: trata-se de restaurar interações ecológicas que só as araras-canindés são capazes de desempenhar dentro do ecossistema. Cada animal reintroduzido reconecta um fio numa teia que foi desfiada ao longo de séculos.
Viviane Lasmar, chefe do Parque Nacional da Tijuca, lembra que as araras são a quarta espécie a ser reintroduzida desde 2010 — cutias, macacos-bugios e jabutis-tinga já vivem livremente na floresta. A Tijuca está sendo, aos poucos, repovoada. Com as cores do Brasil estampadas nas penas, Fernanda, Sueli e Fátima carregam agora o desafio mais verdadeiro: sobreviver, reproduzir-se e, talvez, deixar descendentes que nunca precisarão aprender o que é a liberdade — porque simplesmente a terão.
Na quarta-feira passada, três araras-canindés foram soltas na Floresta da Tijuca. Fernanda, Sueli e Fátima — nomes que homenageiam tanto pessoas quanto a série de televisão Tapas e Beijos — deixaram seus viveiros e voltaram a voar em liberdade numa floresta que não via aves dessa espécie há mais de dois séculos.
O retorno marca o fim de uma ausência longa. As araras-canindés desapareceram do Rio de Janeiro há mais de 200 anos, vítimas da caça e da perda de habitat que moldaram a história ambiental da região. Agora, graças a um programa de reintrodução que começou a ser acompanhado desde 2028, elas ganham uma segunda chance. As três aves chegaram ao Parque Nacional da Tijuca em junho de 2025 e passaram sete meses em preparação — aprendendo a voar novamente, conhecendo a mata, ajustando sua alimentação aos frutos e recursos disponíveis na floresta.
O projeto Refauna, em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e uma dezena de outros parceiros, orquestrou toda essa operação. Para Lara Renzeti, bióloga do Refauna e coordenadora da reintrodução, o significado vai além do retorno de uma espécie. "Nosso principal objetivo, além de devolver à natureza uma espécie extinta e contribuir para a biodiversidade do ecossistema, é restabelecer interações ecológicas que as araras podem desempenhar, algumas exclusivas desse tipo de ave", explica. Cada ave que volta é um fio que se reconecta numa teia que foi desfiada ao longo de séculos.
Para Viviane Lasmar, analista ambiental do ICMBio e chefe do Parque Nacional da Tijuca, a soltura das araras representa mais do que um gesto simbólico — é a quarta espécie a ser reintroduzida no parque desde que o projeto começou em 2010. Antes das araras, cutias, macacos-bugios e jabutis-tinga já foram devolvidos à floresta e hoje vivem ali, encontrando o que precisam para sobreviver. "É fundamental para que esses animais encontrem os recursos que precisam, como frutos, água potável e árvores em pé", observa Viviane. A Floresta da Tijuca, aos poucos, está sendo repovoada.
O que torna essa reintrodução particularmente significativa é que as araras-canindés carregam as cores do Brasil — verde, amarelo, azul — em suas penas. Sua volta à natureza carioca não é apenas uma vitória da biologia da conservação, mas um símbolo de que ecossistemas podem ser restaurados quando há vontade, recursos e paciência. As três aves agora enfrentam o desafio real: sobreviver, se reproduzir, e talvez, um dia, suas gerações futuras voem livremente por uma floresta que, lentamente, está aprendendo a ser selvagem novamente.
Notable Quotes
Nosso principal objetivo, além de devolver à natureza uma espécie extinta e contribuir para a biodiversidade do ecossistema, é restabelecer interações ecológicas que as araras podem desempenhar— Lara Renzeti, bióloga do Refauna
É fundamental para que esses animais encontrem os recursos que precisam, como frutos, água potável e árvores em pé— Viviane Lasmar, analista ambiental do ICMBio
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que essas três araras especificamente? Havia outras disponíveis?
Elas vinham de cativeiro, de programas de reabilitação. O projeto escolheu indivíduos que tivessem condições físicas e comportamentais para se adaptar à vida selvagem. Não é qualquer ave que consegue fazer essa transição.
E os sete meses de treinamento — como funciona exatamente?
Elas ficaram em recintos dentro da floresta, aprendendo a voar em espaço maior, reconhecendo os sons e cheiros da mata, comendo os frutos que encontrariam na natureza. Era um desmame gradual do cativeiro.
Qual é o risco real agora que estão soltas?
Predadores, falta de alimento em períodos de escassez, acidentes. Mas o parque foi escolhido porque tem recursos suficientes. E há monitoramento — os pesquisadores vão acompanhar essas aves por um tempo.
Se funcionar com essas três, qual é o próximo passo?
Provavelmente mais araras. O projeto Refauna tem outras espécies na fila — aves, mamíferos. A ideia é que a Floresta da Tijuca volte a ser o que era antes da colonização.
Isso é possível? Restaurar uma floresta inteira?
Não completamente. Mas você pode recuperar muito. Cada espécie que volta muda o ecossistema — poliniza plantas, dispersa sementes, alimenta predadores. É um efeito dominó.
E as pessoas que vivem perto? Como reagem?
A maioria vê como positivo. Essas araras não são agressivas, não atacam. Elas são lindas, e o fato de estarem de volta é motivo de orgulho para o Rio.