Defesa de Gutierrez cita documentos que indicam conhecimento de Sicupira sobre risco sacado

Tudo o que a gente puder não colocar no balanço melhor
Frase atribuída a Sicupira em anotações de reunião do comitê financeiro citadas pela defesa de Gutierrez.

Defesa de Gutierrez cita anotações de reunião do comitê financeiro onde Sicupira teria dito 'tudo que a gente puder não colocar no balanço melhor'. Relatórios da auditoria KPMG de 2019 mencionavam operações de confirming e antecipação a fornecedores com comissões de R$ 50 milhões.

  • Anotações de reunião do comitê financeiro mencionam frase de Sicupira sobre não colocar operações no balanço
  • Relatórios da auditoria KPMG de 2019 citavam operações de confirming com comissões de R$ 50 milhões
  • Polícia Federal cumpriu mandados contra Sicupira e Paulo Lemann em nova fase da investigação

Miguel Gutierrez, ex-CEO das Americanas, apresenta documentos à CVM sugerindo que o acionista Beto Sicupira tinha conhecimento das operações de risco sacado ocultadas. Sicupira nega e diferencia as operações do PAF.

A defesa de Miguel Gutierrez, ex-presidente executivo das Americanas, apresentou à Comissão de Valores Mobiliários documentos que, segundo seus advogados, indicam que Beto Sicupira, principal acionista da companhia, tinha conhecimento das operações de risco sacado que foram ocultadas. Sicupira nega categoricamente qualquer envolvimento ou ciência sobre essas transações.

Os advogados de Gutierrez argumentaram perante a CVM que as operações de risco sacado "eram conhecidas das demais instâncias de governança da companhia, inclusive do conselho de administração e de seus comitês de assessoramento", mencionando especificamente o comitê de auditoria e o comitê financeiro, além dos controladores. Para sustentar essa tese, citaram anotações de uma reunião do comitê financeiro onde Sicupira teria afirmado que "tudo o que a gente puder não colocar no balanço melhor". Em outro trecho das mesmas anotações, segundo a defesa, Sicupira reforçou a necessidade de "estudar formas de ganhar dinheiro com a antecipação do fornecedor, não só com o desconto, mas com o financiamento", buscando "ter dinheiro no curto prazo" e "ganhar mais do que pagar de juros". Os advogados também citaram mensagens trocadas entre um representante da LTS, holding dos bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, e Marcelo Nunes, ex-diretor financeiro das Americanas, questionando se "a receita de antecipação ao seller está no resultado financeiro digital".

A assessoria de Sicupira respondeu com uma negativa veemente, argumentando que as citações na verdade referem-se ao Programa de Antecipação de Fornecedores (PAF), uma iniciativa completamente distinta do risco sacado. Segundo a nota, o PAF é um programa de antecipação realizado com caixa próprio da Americanas, cuja implementação foi amplamente discutida, aprovada e devidamente registrada nos demonstrativos contábeis, além de ter sido informada ao mercado com total transparência. A assessoria enfatizou que o PAF funcionava com recursos da própria companhia, por meio da Ame, seu braço financeiro, ao contrário do risco sacado, que era "sistematicamente omitido pela antiga diretoria do conselho e do mercado". Observadores do caso sugerem que Gutierrez está tentando promover uma confusão deliberada entre as duas operações.

A defesa de Gutierrez também citou relatórios da auditoria KPMG de 2019 enviados ao conselho fiscal, que continham referências explícitas à operação de risco sacado. Um dos relatórios mencionava "operação com o banco para antecipação de fornecedores e registro de receita de comissão paga pelo banco", enquanto outro especificava uma "operação de Confirming com o banco para antecipação de fornecedores e registro de receita de comissão paga pelo banco no montante de R$ 50 milhões". A operação de risco sacado é conhecida no mercado também como confirming ou antecipação a fornecedores. Contudo, fontes próximas aos acionistas das Americanas afirmam que esses relatórios com menções a essas operações não chegaram ao conselho de administração, e também questionam se de fato chegaram ao conselho fiscal, como sustenta a defesa de Gutierrez.

Em sua defesa perante a CVM, Gutierrez admitiu que ele próprio tinha conhecimento das operações de risco sacado, mas as conhecia sob outra denominação: antecipação a fornecedores. Seus advogados argumentaram que não havia nada de ilícito em ter conhecimento dessas operações, uma vez que elas eram legais. "Que fique claro: não havia nada de errado em conhecer esse fato, uma vez que tais operações não são ilícitas", disseram os advogados, acrescentando que o ponto sintomático era que "a Companhia e os Controladores mentiram e seguem mentindo, ao negar veementemente que aquelas instâncias soubessem de sua existência". Em depoimento à CVM realizado em 2023, Gutierrez havia declarado que nenhuma decisão estratégica era tomada nas Americanas sem o conhecimento e a anuência de seus acionistas de referência, especialmente Carlos Alberto Sicupira.

O caso ganhou novo impulso quando a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão contra Carlos Alberto Sicupira e Paulo Lemann, filho de Jorge Lemann, em uma nova fase da investigação sobre as fraudes nas Americanas. Os mandados também atingiram pessoas ligadas ao Bradesco, Itaú e Santander, indicando que a investigação se amplia para incluir as instituições financeiras envolvidas nas operações questionadas.

Tudo o que a gente puder não colocar no balanço melhor
— Beto Sicupira, conforme anotações de reunião do comitê financeiro citadas pela defesa de Gutierrez
A Companhia e os Controladores mentiram e seguem mentindo, ao negar veementemente que aquelas instâncias soubessem de sua existência
— Advogados de Miguel Gutierrez, em defesa apresentada à CVM
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Inventor

Por que Gutierrez está insistindo que Sicupira sabia dessas operações?

Model

Porque se conseguir provar que os acionistas controladores tinham conhecimento, muda a narrativa de culpa. Deixa de ser um segredo guardado por um executivo e passa a ser uma decisão coletiva da governança.

Inventor

Mas a diferença entre PAF e risco sacado — é real ou é uma cortina de fumaça?

Model

É real. O PAF usava caixa próprio da empresa e era transparente. O risco sacado era operação com banco, omitida dos registros. São coisas diferentes, mas os documentos que Gutierrez cita falam de antecipação de fornecedores em geral, o que deixa a água turva.

Inventor

Aquela frase sobre "não colocar no balanço" — isso é evidência de fraude?

Model

É evidência de intenção de ocultar. Mas Sicupira diz que estava falando do PAF, que era legal. O problema é que a anotação é ambígua. Não deixa claro qual operação ele estava discutindo.

Inventor

Os relatórios da KPMG chegaram ou não chegaram ao conselho?

Model

Aí está o nó. A defesa de Gutierrez diz que chegaram. As fontes próximas aos acionistas dizem que não. Se chegaram, Sicupira não pode fingir que não sabia. Se não chegaram, a auditoria falhou em sua responsabilidade.

Inventor

O que muda com os mandados da Polícia Federal?

Model

Muda tudo. Agora não é mais uma disputa entre Gutierrez e Sicupira na CVM. É investigação criminal. Os bancos estão sendo investigados também, o que sugere que a PF acredita que havia conluio entre a empresa e as instituições financeiras.

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