Decisões do Copom e TCU enfraquecem controles na gestão econômica

O BC era o adulto na sala. Agora ninguém segura a inflação.
Reflexão sobre a perda de credibilidade do Banco Central na perseguição de suas metas.

Copom reduz juros apesar de cenário inflacionário negativo, questionando credibilidade do Banco Central na perseguição da meta de inflação. TCU autoriza políticas parafiscais que contornam metas fiscais e somam 1% do PIB em 2026, ampliando espaço para criatividade orçamentária do governo.

  • Copom reduz Selic apesar de cenário inflacionário negativo e adia meta de 3% para 2028
  • TCU legitima políticas parafiscais que somam 1% do PIB em 2026
  • STF prepara súmula vinculante contra bombas fiscais, mas medida pode ser contornada

Redução de juros pelo Copom e legitimação de políticas parafiscais pelo TCU comprometem os pesos e contrapesos da gestão econômica, enquanto STF tenta frear gastos fiscais com súmula vinculante.

O Banco Central reduziu a taxa básica de juros numa semana em que seus próprios analistas apontavam para inflação em alta, expectativas de preços desancoradas do horizonte de médio prazo e um governo expandindo gastos por todos os lados — tanto dentro do orçamento quanto fora dele. A decisão do Copom, tomada em junho de 2026, contradiz frontalmente o cenário que o próprio comitê havia descrito. Os argumentos apresentados para justificar o corte soam frágeis, como se tivessem sido costurados depois que a decisão já estava tomada.

Isso importa porque o Banco Central era, até pouco tempo atrás, a instituição adulta na sala. Enquanto o Executivo e o Legislativo faziam um festival de irresponsabilidades fiscais, o BC mantinha a inflação sob controle com doses altas de juros. Agora, ao reduzir a Selic e adiar para 2028 o compromisso de atingir a meta de 3% ao ano, o banco central sinaliza que talvez não esteja tão comprometido com essa meta quanto deveria estar. A credibilidade que levou anos para construir está sendo gasta rapidamente.

No mesmo período, o Tribunal de Contas da União tomou uma decisão que enfraqueceu ainda mais os freios institucionais sobre o governo. O TCU legitimou praticamente todas as políticas parafiscais — aquelas criadas para expandir gastos públicos por fora do orçamento tradicional, contornando as metas do arcabouço fiscal. Essas medidas somam 1% do PIB em 2026, um volume considerável. Com o aval do tribunal, o governo e o Congresso agora têm permissão explícita para criar fundos fora do orçamento, expandir crédito subsidiado com dinheiro público e aumentar a dívida sem nenhuma transparência real sobre o custo dessas operações.

O sintoma mais claro dessa fragilização aconteceu no mesmo dia em que o TCU anunciava que faria ressalvas às contas do governo por sua "criatividade" fiscal. Nesse mesmo dia, o Executivo anunciava mais uma medida do mesmo tipo: flexibilizar as regras do fundo de ciência e tecnologia para oferecer financiamento subsidiado a máquinas agrícolas. A mensagem era clara: as ressalvas não significam nada.

O Supremo Tribunal Federal está tentando frear esse processo. Está preparando uma súmula vinculante que consideraria inconstitucionais as leis aprovadas sem respeitar a exigência constitucional de explicitar os custos gerados pelas proposições legislativas. A medida pode barrar algumas das chamadas bombas fiscais. Mas há razões para ceticismo. O governo já demonstrou que consegue contornar essas exigências com estimativas pouco críveis ou argumentos rasteiros — como aquele usado recentemente na exposição de motivos de uma medida provisória, segundo o qual "não há aumento de despesa porque ela é de natureza financeira, que não gera impacto primário". O argumento é incorreto: o que importa é o impacto sobre a dívida pública.

Além disso, a súmula decorreu de uma demanda do próprio Executivo ao STF. Fica em aberto se será aplicada com o mesmo rigor às bombas fiscais criadas pelo Legislativo. Ou se será apenas mais um expediente do Executivo para contornar sua minoria no Congresso, usando o Judiciário como ferramenta política.

O quadro que emerge é de fragilização simultânea dos pesos e contrapesos que deveriam regular a política econômica. O Banco Central perdeu credibilidade. O TCU legitimou práticas que deveriam ter sido contidas. E o STF, ao tentar compensar essas falhas, está judicializando questões que deveriam ser resolvidas por instituições políticas e técnicas — o que aguçará o conflito entre os Poderes sem resolver de verdade a fragilização institucional subjacente. O país está entrando num território onde nenhuma instituição consegue mais frear a expansão fiscal, e todas estão perdendo força simultaneamente.

O BC terá de se esforçar para recuperar a credibilidade perdida. E isso é um problema, pois ele era o adulto na sala.
— Análise do cenário institucional
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a redução de juros do Copom contradiz seu próprio cenário?

Model

O comitê descreveu um ambiente com inflação em alta, expectativas desancoradas e pressão de demanda vinda do governo. Mesmo assim, cortou juros. Os argumentos parecem ter sido construídos depois da decisão, não antes.

Inventor

E qual é o risco real dessa perda de credibilidade do BC?

Model

O BC era o adulto na sala enquanto Executivo e Legislativo faziam irresponsabilidades. Se ele perde credibilidade, quem segura a inflação? Ninguém. E inflação alta corrói tudo — salários, poupança, investimento.

Inventor

O TCU legitimou essas políticas parafiscais. Isso significa que agora são legais?

Model

Legalmente, sim. Mas legítimas? Não. São formas criativas de contornar as metas fiscais, aumentar dívida e expandir gastos sem transparência. O TCU deu o aval, mas o problema continua existindo.

Inventor

A súmula do STF consegue frear isso?

Model

Pode frear algumas bombas. Mas o governo já mostrou que consegue contornar essas exigências com argumentos frágeis. E há risco de que seja usada seletivamente — contra o Legislativo, mas não contra o Executivo.

Inventor

Então não há saída institucional?

Model

Há, mas exigiria que as instituições funcionassem como deveriam: BC perseguindo meta de inflação, TCU fiscalizando de verdade, STF aplicando regras com rigor igual. Nenhuma dessas coisas está acontecendo agora.

Inventor

E o que vem a seguir?

Model

Mais judicialização, mais conflito entre Poderes, e nenhuma instituição conseguindo frear a expansão fiscal. É um cenário de fragilização simultânea.

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